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Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

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Especial David Fincher: A Rede Social

Na última parte do Especial, relembre o que Victor Bruno escreveu sobre A Rede Social, mais recente filme de David Fincher

Especial David Fincher: O Curioso Caso de Benjamin Button

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Especial David Fincher: Zodíaco

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domingo, 30 de janeiro de 2011

Assim Caminha a Humanidade

Giant, 1956 / Dirigido por George Stevens
Com Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean

(4/5)

O tratamento concedido aos filmes com status quo de “clássico” é de puro endeusamento. Deus livre do pobre coitado que ousar questionar a perfeição de Cidadão Kane (Citizen Kane, 1940), ou a qualidade artística, plástica e filosófica de toda obra de Kubrick pós-Lolita (Lolita, 1962). Nos Estados Unidos, é quase um crime falar mal do “melhor filme de Natal” já feito – isto é, A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life, 1946), de Frank Capra. Para alguns – e isso parece ser um consenso de unanimidade inquestionável –, quando um filme atinge este status, meu Deus, não existe nenhum tipo de defeito, e quem discorda deve ir para a forca, mas antes, deve pedir desculpas pela afronta e beijar o pôster do filme. Quase igual as “bruxas” que foram queimadas vivas durante a Santa Inquisição.

Agora, claro, alguns filmes realmente são perfeitos e não devem ser questionados. O supracitado Cidadão Kane, Apocalypse Now, quase toda filmografia de David Lean, etc. Mas eu estou falando aqui de pseudo-intocáveis, no caso, este Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens. Aqui estou eu, falando do maior sucesso da Warner Bros., até o lançamento de Super-Homem – O Filme (Superman, 1978), outro filme que é cultuado por todos, apesar de apresentar falhas grosseiras (claro, Super-Homem é um blockbuster, logo, sua qualidade é totalmente discutível).

O culto que existe ao redor de Assim Caminha a Humanidade (título nonsense conferido ao filme no Brasil, que mata toda a poesia do título original, Giant) é perfeitamente compreensível. Para começar, este é o “canto do cisne” de James Dean. O ator, que viria morrer alguns dias depois do término das filmagens, num trágico acidente de carro, faz aqui, provavelmente, sua melhor performance. Outro fator que certamente faz Giant (assim o filme será chamado de agora em diante) é a sua mensagem moralista. O diretor George Stevens discute aqui temas que, até então, Hollywood torcia o nariz, como o preconceito racial (no caso, contra os comanches – imigrantes mexicanos no Texas), a liberdade feminina e a exploração sem controle da terra em busca de petróleo. Tudo isso compactado numa saga emocionante que cobre mais de 40 anos na vida de uma família desfuncional. Apesar desta emoção, o filme carrega erros grosseiros, que serão discutidos em breve.

Giant conta a história de Leslie (Elizabeth Taylor). Filha de um rico proprietário de terras de Maryland, Estado no Leste dos EUA. Ela se apaixona por Bick Benedict (Rock Hudson), um rico fazendeiro do Texas, que veio comprar um cavalo do pai de Leslie. Eles se casam rapidamente em Washington (o filme não mostra isso, mas o fato é repetidamente recordado na trama) e ela se muda – claro – para o Texas.

Já na propriedade de Benedict, nós conhecemos sua irmã, Luz (Mercedes McCambridge), a mulher-macho linha-dura que controla com mãos de ferro todo o local. Ela conta com o frio, anestesiado, bêbado e antissocial Jett Rink (James Dean), que se apaixona por Leslie, mas nunca se declara, apesar de dizer constantemente que ela é a mulher mais bonita que já vira. Mesmo com uma boa relação com Luz, Jett não se dá bem com Bick. Ambos nutrem um ódio desmedido um com o outro. Ao mesmo tempo, descobrimos que Leslie é uma verdadeira forasteira. Ela se preocupa com a situação dos comanches locais – pessoas que Bick, Jett, Luz e todos os outros brancos têm horrores e são tratados com desprezo total e absoluto. Leslie também não se adapta ao comportamento das mulheres locais, brancas ou comanches. Após o nascimento do casal de gêmeos de Bick e Leslie, acompanhamos a sofrida saga, como dito, dos Benedict.

Giant é um filme que com certeza David Lean gostaria de ter dirigido. No início do filme, isto é, nas sua primeira hora e meia, Stevens investe em planos longos, como aqueles vistos em Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962). Stevens insiste em mostrar toda a vastidão de terras secas que cercam a casa da propriedade dos Benedict. É quase metafórico. O coração de uma família coordenada por um homem cheio de preconceitos e desprezo reside, exatamente, dentro de uma casa no meio do nada. O engraçado é que Bick Benedict diz que seu avô “construiu esta casa para provar para os metidos do Leste que eram tão bons quanto eles.” Mas tudo o que se vê é uma terra árida e sem vida, contrapondo-se com as primeiras cenas do filme, que mostram as terras verdejantes de Maryland. (A própria Leslie pergunta se não há verde no Texas.)

Stevens em seu filme ainda explora muito bem o patriotismo desacerbado que existe no Sudoeste dos EUA. Repare na expressão inflamada e odiosa que Bick faz quando Leslie, ainda – novamente – em Maryland, diz que o Texas foi roubado do México “quando o Sr. Austin chegou lá com suas 300 famílias”. Bick retruca: “Você não conhece a história d'O Álamo?”. A verdade é que O Álamo foi um massacre ocorrido durante a Revolução Texana, onde 2.400 soldados mexicanos trucidaram 260 soldados texanos no Forte Álamo, anteriormente uma missão (você sabe o que é uma missão, não sabe?). O saldo foi de 400 baixas mexicanas e 258 mortes texanas. O fato foi um pivô para, depois, a queda dos mexicanos na região, dando origem a outros massacres. A frase “Lembrem-se d'O Álamo!” virou uma constante no Sudoeste americano. O curioso é que – de todo jeito – O Álamo foi uma “vingança” dos mexicanos contra a crueldade dos americanos texanos.

Agora, entre preconceitos debatidos e boa fotografia, Stevens falha miseravelmente no ritmo do seu filme. Para contar uma saga de 30, 40 anos num filme de três horas, a mudança entre lentidão contemplativa e rapidez narrativa é brusca e perceptível. O filme – que pode ser dividido tranquilamente em dois atos – primeiramente mostra os preconceitos da região, num dos primeiros atos mais longos da história do Cinema. Por exemplo, são necessárias uma hora e meia para que finalmente Leslie perceba que aquele não é o seu lugar, uma hora e vinte para que notemos que a personagem de Dean sofre de um sério problema mental. Isso tudo muda, estranhamente, no segundo e terceiro ato, onde o filme parece ser feito nas coxas, e as personagens envelhecem mais rapidamente.

Felizmente isso não compromete a narrativa do filme. O elenco todo muito jovem atua perfeitamente. Elizabeth Taylor transmite uma depressiva e desesperante sensação de perda. Se nos primeiros minutos ela era uma jovem rica e espevitada do Leste norte-americano, lentamente se transforma numa infeliz esposa de um proprietário de terras. Rock Hudson também está bem como Bick, preconceituoso machão texano, ligado as suas raízes. Hudson interpreta um homem tão preconceituoso e machista que só falta dizer “Meu Deus, Sue, os mexicanos estão dentro das muralhas! Se eles separarem você, salve minha criança!”.*

Mas nenhum desses se comparam a James Dean. A composição da sua personagem é simplesmente brilhante. Dean – talentoso e lastimável perda do cinema – compõe sua personagem com uma tristeza de quebrar o coração, sempre no canto do enquadramento, com o chapéu enterrado na cabeça, cobrindo-lhe os olhos. Falando pouco, sem abrir a boca, contra a luz, sempre na sombra. Jett/Dean é o típico forasteiro onipresente na filmografia de George Stevens. Seus trejeitos serviriam de inspiração para que, anos mais tarde, Martin Sheen pudesse compor seu Kit Carrutchers em Terra de Ninguém (Badlands, 1973), de Terrence Malick. (Aliás, alguns exteriores, como as cenas da casa, foram tomados emprestado por Malick em Dias de Paraíso (Days of Heaven, 1978).) É realmente uma pena que sua personagem tenha sido tão desprezada na sala de edição. Suas aparições, principalmente após o intervalo do filme (no DVD da Warner não há intervalo, ele foi cortado na troca de discos), se tornam cada vez mais esporádicas e inexplicáveis. Mas isso não atrapalha sua performance, a melhor da sua curta e brilhante carreira.

Entre erros e acertos, Giant é um clássico. Ao contrário do que alguns fãs neuróticos dizem, não é perfeito, longe disso. Apesar da sensação de perda que o filme deixa, o fim de uma geração, Stevens transforma sua história épica num conto moralista, que trai a si mesmo. Um belo filme correto, apenas e nada mais.

Por Victor Bruno

* Últimas palavras de Almaron Dickinsoncapitão de artilharia durante o cerco d'O Álamo – para sua esposa, Susannah Dickinson, antes de ir defender a capela no cerco. Dickinson foi um dos últimos defensores mortos em ação.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Enter the Void

Enter the Void, 2010 / Dirigido por Gaspar Noé

Com Paz de la Huerta, Nathaniel Brown, Cyril Roy, Olly Alexander e Masato Tano


(2/5)

A primeira coisa que deve ser dita sobre Enter the Void é que este não é um filme normal. Não. Enter the Void é uma experiência única, para o bem ou para o mal, para qualquer espectador que atreva-se a se aventurar pelas longas duas horas e q uarenta e um minutos de filme. Gaspar Noé, diretor do ledário, bobo, polêmico e violento Irreversível (Irréversible, 2002), prova que o passar dos segundos, o tempo, é totalmente relativo.

Este é um filme ao melhor estilo “ame ou odeie-me”. Para compreender, ou mesmo gostar deste filme, precisamos comprar a ideia de Noé, embarcar em sua viagem lisérgica, e, primo, isso é muito difícil. Noé passou mais de dez anos compondo sua história ácida (no sentido de ácido lisérgico) e transcendental sobre um garoto que morre, mas seu espírito permanece para cuidar da irmã. O problema é que nem mesmo ele sabe como guiar o filme. O diretor aposta tudo nas imagens supercoloridas, verdadeiras aberrações cromáticas. Enter the Void é um soco na retina e no cérebro. Mas é um soco gratuito. Desnecessário.

O filme—conforme o próprio diretor afirma—é uma reunião de várias experiências que teve quando jovem. Sejam elas visuais ou obtidas através de alucinógenos. Sim, Enter the Void é basicamente uma reunião das maiores viagens que Gaspar Noé teve quando era garoto. Não é de se admirar que o filme tem apenas um fiapo de trama: Oscar (o iniciante Nathaniel Brown) muda-se para Tóquio, e vira um traficante de drogas. Após conseguir ganhar algum dinheiro, consegue trazer sua irmã, Linda (Paz de la Huerta), para perto dele. Certa noite, Oscar tem que fazer uma entrega para Victor (Olly Alexander). Há algo de muito errado com a expressão de Victor, que tem a estranha mania de introduzir o dedo no ânus e limpar no cabelo dos outros (o porquê dessa pausa no texto será explicado mais tarde). De repente, a polícia chega no bar onde os dois estão fazendo a transação, chamado “The Void”. Oscar se esconde no banheiro, tenta se livrar das drogas, mas é atingido por um tiro, e morre. O corpo sim, mas não o espírito. Agora ele ficará vagando para proteger sua irmã.

Repetindo, Enter the Void é um soco visual. O filme parece querer viver apenas disso. Tudo aqui foi feito—ao que parece—com a intenção de provocar um ataque de labirintite no espectador. É claro, Noé estava tentando fazer a pessoa que está assistindo embarcar na mesma experiência de Oscar. Isso é uma atitude louvável. Mas para um filme de 161 minutos, torna-se letalmente cansativo.

O impacto que o filme causa é sentido logo nos primeiros segundos de projeção. Os créditos iniciais são apresentados integralmente, logo no início do filme, da forma mais sucinta possível. A música eletrônica marca uma onipresença jamais vista num filme. Aliás, muitas coisas vistas em Enter the Void jamais serão vistas novamente. Por exemplo, testemunhamos uma relação sexual de dentro da vagina de uma das personagens.

O impacto visual se estende na fotografia away do filme. O trabalho visual do diretor de fotografia de Benoît Debie. Ele e Noé apostam tudo numa estética altamente lisergida, tudo brilha, tudo parece ser feito de tubos de neon, e talvez até seja mesmo. Conforme dito em entrevistas, os dois utilizaram muita pouca luz artificial, filmando com o auxilio dos enormes painéis coloridos de Tóquio. Funcionou? Sem dúvidas. Ainda mais impressionante do que essa fotografia escandalosa de Debie, são os enquadramentos do filme. Enter the Void é contado, totalmente, a partir do ponto de vista de Oscar. Antes da sua morte, caminhamos vento tudo do seu globo ocular. Depois da sua morte, vagamos pelos cenários. Nos primeiros minutos isso funciona muito bem. Quando Oscar consome DTM, a viagem que temos (nós acompanhamos da sua mente) é simplesmente espetacular. Não é atoa que muitos críticos compararam esta obra com 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Mais precisamente, com a sequência do wormhole. Realmente parece. Só que Noé não é Kubrick. E isso é um erro grave.

O diretor se afoga num mar de pretensão, e junto com ele, o filme vai junto. Este é um filme perdido dentro de si mesmo. A estética visual adotada por Gaspar Noé se torna vazia, burocrática e aborrecida a medida que o tempo passa. Provavelmente, para um público despreparado (talvez todos nós), estes serão os 161 minutos mais longos das suas vidas. De fato, com uma hora de filme, a impressão que temos é que Noé já passou da conta. O visual regado a LSD, a edição esquisita e os planos irregulares, de cima para baixo, se tornam chatos. Enter the Void se torna, lentamente, uma espécie de lavagem cerebral malfeita. Até os atores parecem saber disso.

O filme nos apresenta uma gama de personagens esquisitos. Lembram-se quando eu mencionei a estranha mania que Victor tem? De colocar o dedo no ânus e... bem, isso é só o começo. Um dos contatos de Oscar faz uma maquete que representa “Tóquio sob LSD”. Ao apagar das luzes, a maquete se ascende. (Foi nesse momento em que comecei a pensar se tudo nesse filme é feito de néon.) Para representar toda essa galera bonita, os atores, salvo Paz de la Huerta, adotam uma postura entorpecida. Nathaniel Brown que o diga. O garoto não aparece quinze minutos em cena e morre. OK, ele reaparece depois, no seu sonho pós-morte. O problema de Brown é que sua atuação é totalmente inexpressiva. Em termos claros e não acadêmicos: Nathaniel Brown age como se tivesse fumado maconha durante 24 horas por dia.

Paz de la Huerta, ao contrário, interpreta uma Linda quase perfeita. Sua expressão passa intensidade e, ao mesmo tempo, sofrimento. A cena em que ela joga as cinzas do seu irmão pelo ralo e diz “Esta coisa não é meu irmão” é um ótimo exemplo do quão boa ela está. Ainda mais, La Huerta se entrega de corpo e alma ao papel. Não são poucas as vezes em que ela mostra coragem se despir e, ainda mais, interpretar cenas de sexo não simulado (a penetração é nítida). Vale lembrar que La Huerta fica constantemente despida na série Boardwalk Empire, produzida por Martin Scorsese.

Gaspar Noé desafiou nossa sanidade mental e nossos olhos em Enter the Void. Um filme dificílimo. Mas afogado em pretensão. Enter the Void é um erro. Bonito, mas ainda um erro.

Por Victor Bruno

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Michael Cera contra o Mundo

Michael Cera é talentoso? Sem dúvidas. Michael Cera tem futuro? Sem dúvidas. Há não ser que ele seja uma espécie de Christian Bale ou David O. Russell da vida. Ou pior, uma espécie de Quentin Tarantino da vida.

Está disponível na Internet um vídeo chamado Michael Cera Flips Out. O conteúdo do vídeo: Michael Cera aborrecido e berrando dentro do set de gravações de Rebelde com Causa (Youth in Revolt, 2009). Bom, não é o primeiro caso de "piti" de ator dentro de um soundstage, e enquanto houverem Christian Bales no mundo, não será o último. Acho que todos nós que acompanhamos o mundo do Cinema nos lembramos de Lily Tomlin e David O. Russell dizendo "Fuck you, your cunt" nos sets de Huckabees - A Vida é Uma Comédia (I Heart Huckabees, 2004). Aliás, inicialmente pensei me postar estes vídeos, mas ver Michael Cera "berrando" com todos soou mais interessante.

Para quem vai ver o vídeo, gostaria que prestassem atenção em duas coisas:
  1. Repare o esforço descomunal que Cera faz para falar como adulto, como homem. Repare em como Cera se esforça para tentar impor respeito. E ainda mais, repare em como Cera falha vergonhosamente nesta tentativa.
  2. Cera diz repetidamente durante o vídeo para quem está escutando seus desaforos que estão agindo imaturamente. Mas veja que ele precisa de alguém para vestir o roupão para iniciar a cena, e veja como ele nunca larga o sorvetinho que está comendo.
Bom, eu quero acreditar que este não é Michael Cera. Ou Scott Pilgrim.



Por Victor Bruno

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Lista - Oscar 2011

Senhoras e senhores, chegamos ao momento mais importante do ano para o cinema, o Oscar 2011. OK, não é o Oscar em si, mas a lista de indicados para a premiação mais importante do ano. Pode ser até que você ignore-o, mas, de todas as maneiras, é importante sim.

Agora, a AMPAS (Academy of Motion Picture Arts and Sciences) divulgou hoje a lista de indicados para o Oscar 2011, ou, como alguns gostam de chamar, o Academy Awards 2011. Vamos lá.

Com comentários do editor, Victor Bruno

Melhor Filme
Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
Minhas Mães e Meu Pai
O Discurso do Rei
127 Horas
A Rede Social
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma

Nenhuma surpresa aqui. Como previsto, Cisne Negro, O Vencedor, A Rede Social e A Origem, os indicados no Globo de Ouro e grandes figuras desta temporada de premiações das associaçõe de críticos (o que é o principal), foram indicados. A disputa principal certamente será entre A Rede Social, O Discurso do Rei e, por fora, Cisne Negro. Ainda mais por fora, Inverno da Alma.

Melhor Diretor
Darren Aronofsky (Cisne Negro)
David O. Russell (O Vencedor)
Tom Hooper (O Discurso do Rei)
David Fincher (A Rede Social)
Joel Coen e Ethan Coen (Bravura Indômita)

Nolan humilhantemente esnobado pela Academia! Fico muito feliz pela indicação dos Coen, mas é improvavel que eles sejam os vencedores. Minha aposta vai para Fincher (e creio que é certo).

Melhor Ator
Javier Bardem (Biutiful)
Jeff Bridges (Bravura Indômita)
Jesse Eisenberg (A Rede Social)
James Franco (127 Horas)
Colin Firth (O Discurso do Rei)

Muito esquisita esta lista de atores. James Franco correndo por fora, com certeza. Detodo modo, Firth ganha.

Melhor Ator Coadjuvante

Christian Bale (O Vencedor)
John Hawkes (Inverno da Alma)
Jeremy Renner (Atração Perigosa)
Mark Ruffalo (Minha Mães e Meu Pai)
Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)

Infelizmente Andrew Garfield não foi indicado, apesar da sua ótima atuação em A Rede Social. Acredito que a disputa fique entre Geoffrey Rush, ou Christian "Jesus" Bale. Provavelmente Jesus ganhe.

Melhor Atriz
Annette Bening (Minhas Mães e Meu Pai)
Nicole Kidman (Reencontrando a Felicidade)
Jennifer Lawrence (Inverno da Alma)
Natalie Portman (Cisne Negro)
Michelle Williams (Namorados para Sempre)

Portman! Portman! Portman! Eu acho que é certo. Se a Academia inventar uma surpresa, provavelmente Annette Bening. Mas é Portman.

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams (O Vencedor)
Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)
Melissa Leo (O Vencedor)
Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)
Jacki Weaver (Reino Animal)

Fico muito feliz com a indicação de Hailee Steinfeld. Como Pablo Villaça já havia apontado em suas previsões para este Oscar, a campanha insistente da Paramount com Steinfeld como coadjuvante, apesar de obviamente ser protagonista. De toda forma, ela não ganhará. Aposto em Bonham Carter, ou em Amy Adams, na disputa.

(Sinceramente, Steinfeld vem habitando meus sonhos há um bom tempo. Só espero que Justin Bieber não marque presença na festa, como fez no Globo de Ouro.)

Melhor Roteiro Adaptado
127 Horas (Danny Boyle e Simon Beaufoy)
A Rede Social (Aaron Sorkin)
Toy Story 3 (Michael Arndt, John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich)
Bravura Indômita (Joel Coen e Ethan Coen)
Inverno da Alma (Debra Granik e Anne Rosellini)

Muito esquisita a falta de Cisne Negro aqui. Extremamente esquisito. Mas tendo a presença de Sorkin, óbvio vencedor, nada mais importa.

Melhor Roteiro Original
Another Year (Mike Leigh)
O Vencedor (Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson)
A Origem (Christopher Nolan)
Minhas Mães e Meu Pai (Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg)
O Discurso do Rei (David Seidler)

Sinceramente, apostaria em A Origem, pela inventividade da história. O Discurso do Rei e O Vencedor são fortes candidatos.

Melhor Animação Longa-Metragem
Como Treinar O Seu Dragão
O Mágico
Toy Story 3

Toy Story é aposta certa. Apesar de poder haver surpresas, mas dificilmente o vencedor será outro.

Melhor Animação Curta-Metragem
Day & Night
The Gruffalo
Let's Pollute
The Lost Thing
Madagascar - A Journey Diary

Day & Night é um curta muito interessante, forte candidato.

Melhor Filme Estrangeiro
Biutiful (México)
Dogtooth (Grécia)
In a Better World (Dinamarca)
Incendies (Canadá)
Outside the Law (Argélia)

Aposto todas as minhas fichas em Biutiful, apesar de poder haver uma briga acirrada com In a Better World, vencedor do Globo de Ouro (não que isso seja grande coisa).

Melhor Documentário Longa-Metragem
Exit through the Gift Shop
Gasland
Inside Job
Restrepo
Waste Land

É realmente surpreendente a ausência de Waiting for "Superman". Eu aposto em Lixo Extraodinário (Waste Land), ou em Inside Job.

Melhor Documentário Curta-Metragem
Killing in the Name
Poster Girl
Strangers No More
Sun Come Up
The Warriors of Qiugang

Melhor Curta-Metragem
The Confession
The Crush
God of Love
Na Wewe
Wish 143

Melhor Direção de Arte
Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

Aqui a disputa fica acirrada entre o design clássico de O Discurso do Rei, o oeste poeirento de Bravura Indômita e o LSD de Alice. Realmente difícil de especular nesta categoria.

Melhor Fotografia
Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Bravura Indômita

Uma das minhas categorias favoritas. Roger Deakins pode levar, pelo seu excelente trabalho em True Grit. Temos também o trabalho excepcional de Jeff Cronenweth em A Rede Social. Matthew Libatique fez um grande trabalho em Cisne Negro. É uma grande disputa este ano.

Melhor Figurino
Alice no País das Maravilhas
I Am Love
O Discurso do Rei
The Tempest
Bravura Indômita

Bom, A Tempestade, da grande Julie Taymor, é um filme bem estilizado, acredito que está dentro da disputa, apesar de termos O Discurso do Rei e Bravura Indômita na disputa.

Melhor Montagem
Cisne Negro
O Vencedor
O Discurso do Rei
127 Horas
A Rede Social

Aqui eu apostaria em A Rede Social, filme de precisão milimétrica, graças ao trabalho de Kirk Baxter e Angus Wall. Eles consegem fazer cenas de datilografia serem emocionantes. (Quem disse isso foi Aaron Sorkin, mas não se referindo aos editores, mas sim para David Fincher.)

Melhor Trilha Sonora Original
Como Treinar o Seu Dragão
A Origem
O Discurso do Rei
127 Horas
A Rede Social

O trabalho de Trent Ranzor e Atticus Ross em A Rede Social é soberbo! Acredito que vençam sim. O Discurso do Rei não chega nem perto de Ross e Ranzor.

Melhor Canção Original
Coming Home (Country Strong)
I See the Light (Enrolados)
If I Rise (127 Horas)
We Belong Together (Toy Story 3)

Melhor Edição de Som
A Origem
Toy Story 3
Tron - O Legado
Bravura Indômita
Incontrolável

Melhor Mixagem de Som
A Origem
O Discurso do Rei
Salt
A Rede Social
Bravura Indômita

Melhores Efeitos Visuais
Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
Além da Vida
A Origem
Homem de Ferro 2

A Origem. Alguma objeção? Sim. Temos Alice na disputa, e Harry Potter em escala menor.

Melhor Maquiagem
A Minha Versão para o Amor
Caminho da Liberdade
O Lobisomen

Interessante a falta de Discurso do Rei aqui. Esquisito, até.

Da Redação

domingo, 23 de janeiro de 2011

Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família

Little Fockers, 2010/ Dirigido por Paul Weitz
Com Robert De Niro, Ben Stiller, Owen Wilson, Teri Polo, Blythe Danner, Jessica Alba, Laura Dern, Dustin Hoffman, Barbra Streisand e Harvey Keitel.


0/5


Indignação. É isso que deve sentir todo cinéfilo com carinho e respeito pelo cinema após assistir a esta catástrofe intitulada Little Fockers, que por essas bandas recebeu o título ainda mais hediondo "Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família". Esta atrocidade em forma de filme é continuação da série começada com "Entrando Numa Fria", já do longínquo ano 2000, que era até uma comédia decente; depois veio o "Entrando Numa Fria Maior Ainda", de 2004, um filme fraco, mas com piadas divertidas. Mas agora o nível caiu de vez: estamos diante de uma aberração cinematográfica da pior espécie.

A década passada foi ,de forma geral, boa em termos de comédia. Tivemos o clã Apatow, com pérolas como "O Virgem de 40 Anos" e "Ligeiramente Grávidos"; Greg Mottola e os hilários "Superbad" e "Férias Frustadas de Verão"; além dos filmes repletos de humor negro de Guy Ritchie, e comédias dramáticas competentes como "Sideways" e "Pequena Miss Sunshine". A década não poderia terminar de forma pior do que com este novo "Entrando Numa Fria" (fazendo uma piada ao nível do filme, nós realmente entramos numa fria ao assistirmos esta ruindade).

Desta vez, o casal Greg (Ben Stiller) e Pam Focker (Teri Polo) vive tranquilamente com seus filhos gêmeos Sam e Henry. Porém, seu sogro Jack (Robert De Niro), com problemas cardíacos, começa a se preocupar com a sucessão da família, e começa a duvidar da capacidade de Greg para liderá-la. Durante o aniversário dos gêmeos, os desentimentos entre os dois sumentam ainda mais com o retorno do ex-namorado de Pam, Kevin (Owen Wilson), a quem Jack sempre teve na maior auto-estima. Greg, então, se vê forçado a provar que é digno de confiança do sogro.
Diante de tal sinopse, já não se dá pra esperar grandes coisas. Mas, diante do elenco pressente no filme, sempre temos a esperança de que podemos assistir a uma obra fútil, mas pelo menos divertida. Não é o caso aqui. As piadas são deploráveis. Praticamente, nenhuma funciona, sendo todas completamente "batidas" e já presentes em inúmeros outros filmes. Temos de novo situaões com o velho remédio pra disfunção erétil, a menina esperta e o menino bobão, suspeitas de traição, supostas confusões na mesa de jantar e dezenas de outras "graçinhas", a maioria de conteúdo sexual. Enfim, um lixo de roteiro.

O diretor Paul Weitz ainda se mostra completamente incompetente em criar qualquer atmosfera de humor. Ou todo mundo já sabe qual a próxima piadinha sem graça que vai acontecer, ou Weitz consegue retirar qualquer humor que certas cenas poderiam ter pela sua incapacidade. Para exemplicar, basta analisar as tentativas de homenagem a dois clássicos, " O Poderoso Chefão" e "Tubarão". Na primeira seqüência, há um diálogo deplorável entre De Niro e Stiller, ao som de uma trilha que lembra a de Godfather, que aqui vira Godfocker (!). Mas o pior de tudo é a cena em referência ao clássico de Spielberg: toda a seqüência se passa em uma piscina de bolinhas, em que Greg e as crianças são as vítimas e Jack (o grande De Niro) é o "Tubarão"! Isso é capaz de dar ânsia de vômitos em qualquer um que aprecie minimamente a Sétima Arte.

Mas o mais deprimente é um dos maiores desperdícios de elenco já vistos na telona de um cinema. Ben Stiller e Owen Wilson são medíocres, mas por vezes acertam (o primeiro o competente "Trovão Tropical", e o segundo participou de bons filmes do diretor Wes Anderson, como "A Vida Marinha com Steve Zissou"). Neste novo Entrando Numa Fria, ambos retornam a sua mediocridade habitual, incapazes de transmitir autenticidade em uma única fala. A linda Jessica Alba está desperdiçada em um papel inútil (mais uma piadinha infame, o nome de sua personagem é "Andi Garcia"). Um Framboesa de Ouro para qualquer um deste trio (ou os três) não seria surpresa. Quanto a Teri Polo e Blythe Danner, ambas continuam tão apagadas quanto nos filmes anteriores, e a elas se sema a presença das duas crianças, que não acrescentam em absolutamente nada a trama (e, inexplicavelmente, o título original é Little Fockers).
O pior é ver o talentosíssimo Robert De Niro, simplesmente um dos maiores atores de todos os tempos, praticamente fazendo "escada" o tempo todo para o Stiller, e protagonizando cenas absolutamente constrangedoras (vide a de "Tubarão", descrita acima). Isso sem falar em Dustin Hoffman no pior papel de sua carreira, protagonizando cenas ridículas de dança flamenca. Barbra Streisand volta com piadas inúteis e sem graça sobre sexo, e Harvey Keitel.....bem, praticamente nem se percebe a presença de Keitel no filme, tamanha sua insignificância. A única que revela um timing interessante pra comédia é Laura Dern, como a diretora da escola para ricos com técnicas de ensino revolucionárias, mas a atriz aparece pouco. Uma pena.

Acrescentar mais algum adjetivo negativo para "Entrando Numa Fria Maior Ainda Com as Crianças" seria uma tentativa inútil, já que praticamente ele é tudo de ruim em um filme só. Fica aqui um aviso deste que vos escreve: evite este filme tanto quanto possível, para não desperdiçar dinheiro em algo que causa puramente ódio a todos que tenham o mínimo de respeito pelo cinema

Por Douglas Braga

sábado, 22 de janeiro de 2011

Corra Lola, Corra

Lola Rennt, 1998 / Dirigido por Tom Tykwer
Com Franka Potente e Moritz Bleibtreu


(4/5)

“Não cessaremos de explorar, e no fim de nossa exploração, voltaremos ao ponto de partida como se não tivéssemos o conhecido”, T. S. Elliot.

“Depois do jogo é antes do jogo”, S. Herberger.

Popularíssimo quando lançado, não é de se estranhar o poder da obra Lola Rennt, um filme alemão sobre um casal que se vê em uma situação desesperadora. Com uma agilidade impressionante, o filme é conduzido de forma envolvente e original, tal como seu tema. A abordagem de algo novo no cinema gerou grande repercussão, inclusive inspirou outras pessoas a fazerem o mesmo. ‘O fim não é o fim, apenas um recomeço ou uma oportunidade de voltar atrás’, assim como mostrado logo de entrada, onde duas mensagens aparecem na tela.

Inovador em todos os aspectos, o filme é uma explosão cinematográfica. O ritmo frenético da corrida de Lola embalado ao som techno é de tirar o fôlego, fora o contexto e o desenrolar do filme, que é realmente algo novo de se ver e bastante envolvente. Tudo aqui é explorado, mesmo que não soe tão bem em alguns aspectos, mas é um toque de originalidade pop pouco visto, uma mistura de técnicas. Há momentos em que os atores são desenhos, outros momentos que ocorrem flashbacks em fotografia, preto e branco, colorido desfalcado e com efeito avermelhado. Há câmera lenta, ângulos vertiginosos e muita, muita adrenalina e correria.

Lola (Franka Potente) recebe um telefonema de seu namorado, Manni (Moritz Bleibtreu), ele está desesperado. Seu chefe mafioso o confiou para vender pedras preciosas fora da fronteira e trazer o dinheiro de volta para ele ao meio-dia. O problema é que ele esquecera o dinheiro, 100 mil marcos dentro do metrô depois de ajudar um mendigo que caíra. Manni teme as conseqüências, teme morrer na mão de seu chefe. Ele precisava de Lola como transporte já que ela estava de moto, só que Lola se atrasou na hora e o fez pegar o metrô. Agora, ele está desesperado para conseguir o dinheiro e é capaz de fazer qualquer loucura para tê-lo de volta. Lola, temendo que algo aconteça com seu namorado, corre para conseguir o dinheiro e encontrar Manni antes do meio-dia. Detalhe: são onze e quarenta. São vinte minutos de uma corrida frenética.

O que, além do ritmo frenético do filme, faz Lola Rennt se destacar é o que o filme propõe. A mesma seqüência, os mesmo vinte minutos são repetidos três vezes ao longo do filme, só que com ações diferentes o que muda seu desfecho e seu desenvolvimento. No fim do primeiro, voltamos e começamos tudo de novo, aparentemente igual, só que alguns detalhes fazer com que tudo mude, como estar alguns instantes mais adiantada que na primeira vez ou alguns instantes mais atrasada. Tudo afeta, desde claro, o filme em si, como até mesmo o julgamento pessoal de Lola contra pessoas.

O filme consegue ser um ótimo passatempo, um entretenimento, ao mesmo tempo em que descompromissado para a maioria das pessoas que assistirão, uma aula de técnicas de câmera e exploração do cenário. Como dito no início, o filme pode ter servido de exploração, ou melhor, o tema do filme, como em The Butterfly Effect (Efeito Borboleta), de 2004, onde um homem consegue voltar no passado e modificar o futuro dependendo das atitudes e escolhas que toma.

Muito mais recompensador que a maioria dos filmes de ação, Lola Rennt não deixa de ter uma protagonista que cativa. Cada situação pela qual ela passa é uma expressão nova. Franka Potente é uma excelente atriz, isso é inegável, tanto que em sua estréia no cinema no filme It’s a Jungle Out There de 1995, recebera o prêmio de Jovem Talento no Bavarian Film Prize, O grito dela explodindo tudo é contagiante e sua energia muda a atmosfera de qualquer lugar.

Por mais que de início possa soar um tanto amador o filme, como a apresentação dos personagens, é de longe algo que deve ser subestimado. Um verdadeiro marco para o cinema moderno, é inteligente e usa da adrenalina ao seu favor. É reflexivo e... simples. É o tipo de filme que é prazeroso de se assistir simplesmente porque é simples e casual, usa de um roteiro inteligente e criativo, uma direção de Tom Tykwer de dar inveja à filmes de gênero e atores empenhados.

Apesar do baixo custo (2 milhões de dólares), o filme conseguiu arrecadar 14 milhões só na Alemanha e, sendo exibido em apenas 5 salas nos Estados Unidos, o filme conseguiu, em duas semanas, arrecadar 1 milhão. Estava assinado o sucesso, não comercial, talvez, mas é um filme que viria a participar de grandes festivais, como o de Sundance onde ganhou o Prêmio do Público.

Por Pedro Ruback

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Antes do Amanhecer

Before Sunrise, 1995 / Dirigido por Richard Linklater
Com Ethan Hawke e Julie Delpy


(4/5)

Richard Linklater é o homem dos filmes que tomam lugar em 24 horas. Não é regra, óbvio. Na verdade, a maior parte dos filmes de Linklater tomam lugar em um determinado curso de tempo, dentro de um dia. No caso de Antes do Amanhecer, o filme dura pouco mais de 12 horas. De todo modo, isso não é importante. O tempo, como Céline (Julie Delpy) diz durante o filme, é relativo. Exatamente.

O diretor Linklater, que também escreve o roteiro, ao lado de Kim Krizan, sua amiga e atriz com pequenos papéis nos dois filmes anteriores do diretor, Slacker (Slacker, 1991) e Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, 1993), adota para seu filme uma trama absolutamente simples. Tão simples que o termo mais apropriado – e artístico – seria dizer que é “uma trama minimalista”. Um jovem chamado Jesse (Ethan Hawke, antes do amanhecer da fama) está viajando num trem que partiu de Budapeste. Seu destino: Viena. No mesmo trem está a supracitada Céline. Os dois estão sentados em assentos distantes. De repente um casal alemão começa a discutir e, junto com isso, a incomodar Céline. Ela muda de assento, sentando-se próxima a Jesse. Eles começam a conversar.

Quando o trem chega a Viena os dois já se tornaram amigos, compartilharam confissões de infância (Jesse afirma ter visto, quando tinha três anos, “ou três anos e meio, não sei direito”, o espírito da sua bisavó morta, entre um arco-íris feito pelo spray da água da mangueira no quintal). Jesse convence Céline a saltar do trem (ela continuaria a viagem até Paris) e caminharem por Viena até o amanhecer, quando o próximo trem chegará. Ela aceita, e os dois começam a desenvolver um amor.

Banal? Sem dúvidas. Não importa. A banalidade é o ponto forte de Antes do Amanhecer. Linklater filma seu roteiro de forma absolutamente simplória. Decisão de mestre. Não é à toa que ele é considerado um dos grandes nomes do cinema independente dos últimos quinze anos.

Mas apesar de toda esta banalidade, o roteiro deste filme é extremamente difícil de acontecer. Por que? Simples. Ao contrário do que diz o primeiro mandamento de todo e qualquer roteirista, Antes do Amanhecer não oferece um arco dramático, como 99.9% dos filmes fazem. O filme caminha apenas num fiapo de trama – dois jovens que começam a se amar durante um período de tempo de doze horas. Apesar dessa “dificuldade de acontecimento”, este fiapo de trama oferece infinitas possibilidades para Linklater explorar um dos seus principais cacoetes, que é exatamente a banalidade. Jesse e Céline discutem durante os 101 minutos de filme coisas que você e eu discutimos durante o dia a dia – isto é, amores, amigos, relacionamentos passados, etc. E como todos as personagens do diretor, eles são semi-intelectuais extremamente inteligentes. Na verdade, Jesse pode ser um revival de um dos estudantes anti-sociais de Jovens, Loucos e Rebeldes. Só que Jesse não é anti-social.

E o diretor adora este seu estilo de roteiro. Na verdade, até trás algumas teorias interessantes. Numa cena, dentro de um bonde, feita com apenas um take, de quase dez minutos, Jesse, em determinado ponto, fala o seguinte:

Jesse – Você acredita em reencarnação?

Céline – Sim. Acho uma ideia interessante.

Jesse – Então você acredita que quando morremos, nossas almas vão para outras pessoas, renascemos, esse tipo de coisa, certo?

Céline – Aham.

Jesse – Mas vamos... vamos partir do seguinte princípio. Há, tipo, 10 mil anos atrás nós éramos, aproximadamente, dois milhões de pessoas, certo? Mas agora, nós somos seis bilhões de pessoas. A minha pergunta é: de onde vieram as outras almas? Huh?

Céline – É uma pergunta interessante.

Jesse – Sim, é. Mas – veja. Olhe, na melhor das hipóteses nós podemos ser... fragmentações das outras almas. Mas mesmo assim não faz sentido. Se nós viemos de uma só alma, por que vivemos tão distantes uns dos outros?”

Esse tipo de conversa, que não tem influência alguma durante toda projeção, é repetida e repetida e repetida. Mas é isso aí mesmo. Quando estamos entre amigos, entre colegas e até entre nossas namoradas, nós não falamos sobre bobagens completas? Eu creio que é exatamente por isso que o filme é tão bem-sucedido, e de fácil apego por parte do público (eu particularmente fiquei bem apegado ao filme.). É por isso – pela sua banalidade. Seu modo simples de enxergar o mundo.

Simplicidade que se estende até a direção. Linklater não é exatamente conhecido por mexer muito na sua câmera, movimentos rebuscados, piruetas visuais impressionantes, como outros cineastas do VCR (turma formada por diretores independentes, nascidos durante a década de 90, que aprenderam seu ofício assistindo a um grande número de filmes, como Quentin Tarantino e – o melhor de todos – Paul Thomas Anderson). O diretor prefere empregar o mínimo de movimentos possíveis. De fato, a câmera só se move enquanto os personagens andam. A utilização do Steadicam aqui é constante, já que estamos falando de um filme que sobrevive de diálogos, e os personagens estão passeando por uma cidade. Fora isso, Linklater nega totalmente a movimentação, inclusive quando a câmera “deveria” se mover. Um exemplo que pode ser citado é a cena em que Jesse e Céline (é interessante por que seus nomes são citados apenas em uma cena) estão dentro de um restaurante, e antes de chegarmos em sua mesa, o filme nos mostram os diferentes aspectos de frequentadores do local. Dois intelectuais discutindo filosofia, dois homens jogando go, uma garota solitária, talvez tendo acabado de romper com o namorado e, finalmente, nosso casal de uma noite.

O filme também mostra a cautela com que Rick Linklater mantém ao filmar sentimentos. Esta fata de movimentação da câmera, e até mesmo a falta de ambição do filme caem como uma luva. Ele é um sujeito sentimental. Não quer nada enorme, de plasticidade visual única. Linklater filma sua obra de modo leve. O primeiro beijo de Céline e Jesse ocorre no alto de uma roda gigante (a Wienese Riesnrad), ao pôr-do-Sol. A maioria dos diretores meteria uma música romântica (ou triunfante), um plano panorâmico de plasticidade inacreditável, e, em segundo plano, o casal. Bonito? Sem dúvidas. Mas comum. O que Linklater faz? Um close. Pouca coisa podemos ver além dos dois se beijando. “Mas é tão... chato”. Chato nada. O beijo não é o principal da cena? É, certo? Por que mostrar outra coisa? E é assim que as coisas correm. Um beijo apaixonado. Apenas sons orgânicos, como a jaqueta de couro que Jesse usa se mexendo. Sem música.

Outra cena que demonstra o talento sem limites que o diretor possui ocorre na cabine de música de uma loja de vinis (lembre-se, estamos falando de um filme de 1995). Ele nos permite ver o exato momento em que os dois se apaixonam, em silêncio, apenas a sensacional Come Here, de Kath Bloom, ao fundo.

Com toda essa qualidade, as atuações de Ethan Hawke e Julie Delpy são de uma qualidade inquestionável. Ethan faz o típico jovem slacker, rebelde sem causa, andarilho, que Linklater tanto gosta de filmar. Julie é uma doce jovem, de beleza incrivelmente comum. Os dois juntos se completam de forma única. São inquestionavelmente uma das grandes atuações da década de 1990.

Richard Linklater percebeu neste filme que a grandeza está na simplicidade das coisas. Nas conversas bobas que nós temos. Você pode até não chorar no fim de Antes do Amanhecer. Mas não pode dizer que não sentiu nada durante o filme. Se disser que não sentiu nada, me desculpe, mas você é um mentiroso. Ou, no mínimo, insensível.

Por Victor Bruno

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Minhas Mães e Meu Pai

The Kids Are All Right/ Dirigido por Lisa Cholodenko
Com Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska e Josh Hutcherson


(3/5)

A questão da união entre homossexuais e da adoção ou criação de filhos por estes é, sem dúvidas, atual e tem levado a diversas discussões no mundo ocidental. Assim sendo, como abordar este tema um tanto quanto delicado no cinema, sem cair na pieguice ou no melodrama? A diretora e roteirista Lisa Cholodenko optou em "Minhas Mães e Meu Pai" por uma abordagem cômica, com contornos dramáticos. O resultado é um filme interessante, bem interpretado e que leva o espectador a questionar detemrinados estigmas, mesmo com alguns pequenos problemas de execução.

No filme, Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) são um casal de lésbicas com dois filhos, cada um gestado por uma de suas mães: Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson). Nic é médica, e também é uma mulher pragmática e controladora, ao passo que Jules está sempre com um novo projeto profissional e se sente um pouco "sufocada" pela sua parceira. Apesar de algumas discussões, a vida segue bem, até que Joni entre em contato com seu pai biológico, Paul (Mark Ruffalo), que havia doado esperma há muitos anos. A partir de então, uma série de novos acontecimentos mexem com o cotidiano de toda a família.
Como já foi dito acima, Cholodenko (que escreveu o roteiro junto com Stuart Bloming) decidiu fazer uma comédia, ao invés do que poderia ter sido um bom drama. Mas, de forma até surpreendente, o humor funciona, e está quase completamente focado na personagem Jules. Desde situações "íntimas" entre o casal (com direito a vídeo pornô gay e tudo), até diálogos ágeis e inteligentes com seus filhos e passando por algumas situações constrangedoras com Paul, Jules é responsável pelas passagens mais engraçadas do filme. Ao memso tesmo, a maior parte da carga dramática fica com Nic, principalmente na segunda metade do filme, em que a relação entre as duas atinge um nível crítico.

Entretanto, apesar do bom roteiro, alguns problemas prejudicam o que poderia ser até mesmo um novo clássico. O filme já foi acusado de ser muito "conservador" em sua estrutura e, de certa forma, é verdade. A montagem é absolutamente linear, sem inovação alguma. Por outro lado, fica também a impressão de que, se o casal protagonista fosse hetero, daria no mesmo, pois Nic acaba parecendo o "homem" da casa, e diversas dificuldades que as duas enfrentam já foram abordadas em diversas comédias românticas fúteis.
O que contribui para elevar (e muito) o nível do filme é a qualidade das interpretações. A talentosíssima Annette Bening tem aqui mais uma excelente interpretação que tem lhe rendido vários prêmios (o mais recente foi o Globo de Ouro de melhor atriz em Filme- Comédia ou Musical). Mas, curiosamente, a igualmente competente Julianne Moore (responsável por uma das melhores atuações da última década, em "As Horas") é que se sobressai em diversos momentos, não somente pelo humor já citado, mas pelo carisma que a atriz consegue transmitir. As duas atrizes brilham nos momentos mais dramáticos, e não será supresa as duas serem indicadas (merecidamente) ao Oscar de melhor atriz. Por outro lado, também é gratificante ver Mark Ruffalo no melhor personagem e na melhor interpretação de sua carreira, transmitindo muita sensibilidade no papel de pai biológico. E Mia Wasikowska (a Alice do horrendo "Alice no País das Maravilhas", de Tim Burton) e Josh Hutcherson também não comprometem como os filhos que cresceram em uma família nada convencional, e que se vêem em sérias dúvidas, comuns a adolescência de forma geral.

"Minhas Mães e Meu Pai" é, portanto, um bom filme, que faz uma abordagem leve, mas muito séria, de uma questão extremamente contemporânea. Fica só uma sensação de pena pela diretora Lisa Cholodenko não ter se arriscado mais, e ter ficado no lugar comum em termos estruturais. Mesmo assim, conseguiu realizar um filme competente e muito bem interpretado, e merece toda a repercussão que vem tendo de crítica e público.

Por Douglas Braga

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sexo, Mentiras e Videotape

Sex, Lies and Videotape, 1989 / Dirigido por Steven Soderbergh
Com Andie MacDowell, Peter Gallagher, James Spader e Laura San Giocomo


(4/5)

O primeiro filme de Steven Soderbergh não poderia ser mais direto, contundente e real. Trata sobre sexo, sobre quatro pessoas próximas envolvidas com o sexo e de alguma forma problemáticas e conflituosas. Sem muito malabarismo, com um roteiro direto e profundo, Soderbergh nos apresenta a vida de um casal, principalmente a da mulher, Ann Bishop (Andie MacDowell), uma pessoa sexualmente frustrada, com um marido desinteressado nela, dona de casa e entediada. Ela tem uma opinião que faz questão de sustentar em que o sexo é algo superestimado, vendo que isso nunca a satisfez. John Mullany (Peter Gallagher) é o marido de Ann, uma pessoa egocêntrica que trabalha como advogado e que não vê interesse sexual na mulher que tem e procura isso em ninguém menos que a irmã de sua esposa, Cynthia Patrice (Laura San Giocomo), uma mulher extrovertida, que trabalha em um bar freqüentado por homens. Completamente diferente de sua irmã, que a julga como uma que dorme com muitos homens, ela vive para o sexo e se sente bem com isso. Apesar das duas viverem em conflito uma com a outra, elas mantém contato, Ann por não ter com quem desabafar e ela por saber como está sendo sustentado o segredo da traição. Nisso entra Graham Dalton (James Spader), um velho amigo de John que é convidado a passar uns dias em sua casa enquanto procura um lugar na cidade para morar. Grahan era um grande amigo de John, tanto que os dois se identificavam muito, mas o tempo fez com que os dois mudassem. John se tornou uma pessoa confiante de si e “galanteador” e Grahan se tornou alguém problemático e fechado, reprimido por si mesmo.

Por mais que pareça enredo de um filme erótico, o filme demonstra ser anos luz mais que isso. Seguindo, John, vendo uma oportunidade de realizar o desejo de Cynthia em fazerem sexo em sua casa, dá a idéia de sua mulher e seu amigo ir procurar um apartamento juntos. Nisso, Ann e Grahan, involuntariamente, acabam se conhecendo melhor, as intimides um do outro. Grahan revela ser impotente e Ann revela ser frustrada. Essa intimidade aumenta a aproximação dos dois, mesmo que não sexualmente, mas como amigos. Ann compreende e escuta Grahan e Grahan faz o mesmo tomando logo a confiança de Ann.

Aos poucos somos levados a descobrir o que Grahan faz e é, mesmo que muitas coisas não sejam reveladas. Grahan é uma espécie de ouvinte para as mulheres, estas que vêm até ele e ele proporciona um momento de “desabafo” ou conversa íntima, onde ele pergunta sobre a intimidade sexual de cada uma gravando tudo com uma câmera. Grahan ganha confiança das mulheres dizendo que estes vídeos nunca seriam reproduzidos por outra pessoa que não seja ele, ou seja, Grahan sente prazer nesses vídeos, vendo que sua impotência só ocorre na presença de outro indivíduo.

Cynthia, interessada em conhecer o amigo do marido da irmã, ouve o que a irmã, após descobrir sobre Grahan, tem a dizer sobre ele e sua surpresa ao descobrir o que ele faz. Cynthia, do jeito que é, ignora os alertas dado pela irmã de que ele pode ser perigoso, vai até a casa dele e grava um vídeo de conversa. Daí para frente tudo é conduzido, mesmo que possa soar previsível, de forma envolvente, fazendo toda a previsibilidade ser nada comparado à trama simples e dramática.

Longe de ser mais um dramalhão americano feito para ganhar Oscar, Soderbergh conduz o filme sem nenhum tipo de moralismo ou vontade de querer abrir os olhos das pessoas sobre o conteúdo do filme e sobre as pessoas à volta. Soderbergh quer mais é mostrar uma situação envolvendo quatro pessoas completamente diferentes, mas com algo incomum, que é o sexo. A ligação entre essas pessoas é somente essa e, se não fosse isso nada aconteceria. É possível perceber também a preocupação em desenvolver sua história de forma direta e não banal, a preocupação em não banalizar o que Soderbergh quer tratar como tema. Não vemos sexo explícito ou então insinuação do acontecimento. Não vemos nudez como de clichê e que é uma ferramenta usada aos montes em diversos filmes de conteúdo “maduro”. “Sex, Lies and Videotape” mostra que para um filme ser maduro não é necessário ter sexo, nudez, ou qualquer tipo de insinuação.

Com esse filme, em sua estréia no cinema em longas metragens, Soderbergh conseguiu tirar uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original, que concorreu com grades filmes como “A Sociedade dos Poetas Mortos” e “Faça a Coisa Certa”. Não só isso, ele recebeu três prêmios em Cannes: a Palma de Ouro, o Prêmio FIPRESCI e o prêmio de Melhor Ator para James Spader, que realmente estava grandioso, assim como todos, até mesmo surpreendendo com a atuação firme de Laura San Giocomo.

Antes que possa ser um mais um filme sobre relacionamentos lançados aos montes, “Sex, Lies and Videotape” é um filme que merece ser visto, mais por conseguir fugir dos padrões moralistas e pelo excelente final, bastante climático e poderoso.

Por Pedro Ruback

Viver e Morrer em Los Angeles

To Live and Die in L.A., 1985 / Dirigido por William Friedkin
Com William Petersen, Williem Dafoe, John Pankow, Dean Stockwell, John Turturro, Darlanne Fluegel, Debra Feuer e Michael Greene


(3/5)

Não por acaso a década de 1980 é chamada de “década perdida” para o cinema norte-americano. Se a década de '60 foi conhecida como a era dos grandes épicos, e a década de '70 foi uma era de filmes mais intimistas e autorais, os anos '80 foram um período de filmes berrantes e dançantes, com protagonistas usando roupas de lycra e poliéster, dançando, fotografia com cores enjoativas e direção exagerada.

Foi nesse período, também, que William Friedkin se encontrou na fase mais delicada da sua carreira. Filhote da Nova Hollywood – movimento que consagrou nomes como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Michael Cimino, John Cassavetes, et alli – Friedkin estava num ponto decisivo. Apesar de ser o diretor de filmes consagrados como O Exorcista (The Exorcist, 1973) e Operação França (The French Connection, 1971), ele não mais conseguia viver destas... “glórias do passado”, digamos assim. Precisava de um sucesso comercial. Inteligente, viu que nos filmes policiais – extremamente populares durante os anos '80 – poderia residir seu retorno triunfal. Só faltava a inspiração – e ele deveria fazer da maneira correta. Foi então que um agente do Serviço Secreto, chamado Gerald Pietevich, lhe entregou o manuscrito de um livro que estava escrevendo. O livro viria dar as bases de Viver e Morrer em Los Angeles.

O filme carrega todos os clichês que um policial pode ter. Na verdade, eu não diria clichê, mas sim elementos. Seriam clichês se, por acaso, fossem mal trabalhados, mas não são. Também não é uma obra-prima, longe disso. Viver e Morrer em Los Angeles é – no mais – um filme correto. Conta a história do policial Richard Chance (William Petersen – sua personagem jamais tem o primeiro nome revelado no filme, mas os créditos iniciais – e o santo IMDb – revelam essa informação). Ele e seu parceiro Jim Hart (Michael Greene) estão na caçada a um falsificador de notas maníaco assassino – Rick Masters (Williem Dafoe). Mas Hart é morto e adivinhe por quem – Rick Masters. A partir daí, Chance fará qualquer coisa, dentro da lei ou não, para pegar Masters. Entretanto seu novo parceiro, John Vukovich (John Pankow), não está lá muito certo de que o que Chance está fazendo, e isso acaba se tornando um obstáculo para o nosso destemido (anti-) herói.

Viver e Morrer... não foi a primeira incursão de Friedkin ao mundo do crime, e com certeza não foi a última. Apenas cinco anos antes ele havia filmado o poderoso e polêmico Parceiros da Noite (Cruising, 1980), filme carregado de polêmica, com altas doses de homossexualidade. Fracassou miseravelmente na bilheteria e foi – de quebra – um duro golpe na carreira de Al Pacino, que só foi se recuperar o seu status no mainstream dez anos depois, em O Poderoso Chefão – Parte III (The Godfather – Part III, 1990). Então, o já experiente Friedkin resolveu copiar quase tudo que havia feito em Operação França para se recuperar com o público. Câmera na mão, policiais que estão se lixando para códigos de conduta, etc. E ele acerta. Sim. A direção de Viver e Morrer em Los Angeles é excelente. O diretor adota um estilo minucioso para filmar cada detalhe da ação. Tudo aqui é extremamente autêntico. Um exemplo claro desta obsessão que William Friedkin adota pela excelência é a – clássica, para falar a verdade – sequência em que Rick Masters está fazendo – literalmente – dinheiro. Repare a minuciosidade de cada frame deste momento do filme. É uma sequência calma, lenta, mas de muita precisão técnica. De certo modo, é também uma sequência tensa, já que o que estamos vendo é completamente ilegal. Quando a música de Wong Chang surge, essa minuciosidade se perde, mas aí nós já passamos do ponto-sem-retorno.

Friedkin, não é novidade, é um bom diretor de sequências de ação, também. E neste filme essas sequências são muito bem trabalhadas, que adotam recursos técnicos interessantes para cativar o público. Vejamos, por exemplo, o momento em que Chance e Vukovich estão perseguindo à pé dois criminosos. A edição intercala momentos em que acompanhamos tudo em plano-geral e depois temos o ponto de vista do policial, filmado com a câmera na mão. É interessante, e até inteligente, por que isso confere um senso de realidade.

Outro momento que podemos destacar e comentar em Viver e Morrer em Los Angeles é a famosa e clássica sequência da perseguição de carros pelas ruas da cidade. É uma sequência que, a primeira vista, é bem divertida, mas mostra-se defeituosa. Exageradamente longa, tomando mais de dez minutos de filme. Nestes dez minutos toda a adrenalina que esse tipo de cena injeta se perde com cinco minutos. Culpa da edição displicente de Scott Smith.

Esta sequência carrega dois erros que permeiam o filme inteiro. O primeiro é o supracitado erro da edição. O segundo é a trilha-sonora pegajosa e nauseante composta por Wong Chung (que, na realidade, é uma dupla inglesa, formada por Nick Feldman e Jack Hues, muito popular durante os anos '80, que, não por acaso, se acabou em 1990, retornando apenas sete anos depois). A trilha envelheceu mal – assim como todo o filme. Exageradamente oitentista, abusando da cacofonia eletrônica, e tocada sem dó nem piedade durante todo o filme. Inclusive nos momentos em que o silêncio é o melhor, ou quando os sons orgânicos e diegéticos seriam mais adequados, lá está o tema composto por Wong Chung marcando presença.

Mas, Viver e Morrer em Los Angeles é como eu falei ali atrás – envelheceu mal. A trilha sonora que mais se parece com hits do Bananarama, vocais gemidos, edição lenta (fora as sequências de ação, que são bem dirigidas e editadas), etc. Não podemos nos esquecer também do roteiro escrito pelo próprio diretor e pelo próprio autor do livro que deu origem ao filme. Friedkin e Pietevich não elaboraram algo orgânico e bom. Personagens unidimensionais, como o próprio Richard Chance povoam a trama. Eles incluem uma relação mal explicada entre Chance e uma informante, nunca explicam por que Masters tem o costume de gravar suas transas com sua namorada, Bianca (Debra Feuer). Talvez seja só um modo de acentuar o comportamento maníaco que o vilão adota durante todo o filme. Vai saber, né?

Entre os acertos de Viver e Morrer em Los Angeles, além da boa – e ousada – direção de Friedkin, o elenco também se comporta de uma boa maneira. O interessante é que estavam todos aqui em início de carreira. Williem Dafoe, ótimo, como Rick Masters, viria interpretar, dois anos mais tarde, Jesus Cristo em A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, 1988), um marco na carreira de Scorsese, e ganharia a vida no mainstream de Hollywood. William Petersen conquistaria a fama mais tarde, quando passou a encabeçar o elenco da popular série criminalística CSI. O que significa que este filme deve ser visto não apenas pela qualidade da direção de Friedkin, mas pelo seu caráter histórico. Grandes atores antes da fama.

Bom, acho que vou ter que retirar algo que eu disse anteriormente. Retirar não, mas dar explicações. As falhas do roteiro, aquelas que apontei ainda há pouco, não devem ser levadas à sério. Este é um filme de ação, para se divertir. Não deve muitas explicações. Como diria aquela música, isto é entertenimento.

Por Victor Bruno

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sobre Rick Gervais e Sinéad O'Connor

Ontem à noite, antes do fim da festa do Globo de Ouro, Rick Gervais disse algo de tirar o sono de qualquer padre, pastor, freira, fiel, crente... enfim, de dar pesadelos ao papa. Gervais, um comediante ateu, cáustico e anárquico, disse “Obrigado Deus por me fazer ateu.”

Na verdade a frase quase passou despercebida para quem – assim como eu – assistiu na TV. A NBC tentou cortar o áudio e as imagens da festa antes que Gervais pudesse concluir a frase, mas ainda bem que existem os anunciantes e toda a frescura “de gala” que existe nesse tipo de cerimônia, e nós pudemos escutar (e até rir, por que não?) da fala do mestre de cerimônia Gervais.

Agora, isso revela um tipo de comportamento preconceituoso e recalcado da rede de televisão NBC. E não somente da NBC, mas do povo norte-americano em geral. Se fosse no Brasil, Gervais provavelmente seria linchado. E por um motivo tolo e infantil. “Meu Deus, Deus foi ofendido! Queima!” Assim falaria 70% da população brasileira. Tsc, tsc. Isso é uma vergonha. Eu achava que o comportamento recalcado da HAFP pararia apenas nas indicações. Não parou. Agravou-se para as premiações e culminou nessa cena deprimente que nós – telespectadores – fomos obrigados a testemunhar.

Tudo bem, temos algo para pensar. Não foi a primeira vez que um comportamento “anti-cristão” (seja lá o que isso for) foi transmitido em rede mundial. Na verdade, não foi a primeira vez que um pensamento contra os dogmas da Igreja causou polêmica. Na verdade Sinéad O'Connor, em 1992, deixou qualquer um – ateu ou não – de cabelo em pé. A talentosíssima cantora irlandesa foi convidada para ir ao Saturday Night Live (programa que, por acaso, é transmitido pela mesmíssima NBC) como atração musical. Em dado momento do programa ela cantou uma versão a cappella de “War”, de Bob Dylan. O'Connor tem em sua mente, conforme ela mesma já disse, que a canção de Dylan é uma crítica à Igreja Católica e os seus famosos abusos infantis. OK. Sinéad fez algumas mudanças na letra, para se ajustar a sua visão e...

No fim da música Sinéad O'Connor saca uma foto do papa João Paulo II e a rasga enquanto diz “Let's face the real enemy”. (Vamos encarar o inimigo real.) Preciso dizer que esse ato causou um alvoroço entre as pessoas? Isso é claro, óbvio e notório. Não me admiraria se durante as pesquisas que fiz para escrever este texto, soubesse que pessoas foram as ruas chamando a cantora de “Anticristo”, ou se explodissem bombas na frente da sua casa. De fato, achei um vídeo de um show de Kris Kristofferson em que Sinéad é convidada para cantar “Sister Sinéad”. Enquanto ela entra no palco, alguns aplaudem, outros vaiam.

Essas vaias representam, mais uma vez, o comportamento “moralista” que as pessoas, às vezes, insistem em ter. Mas, Sinéad realmente deu o que falar. Ao rasgar a foto de um Papa como João Paulo II ela está apenas ofendendo milhões de pessoas mundo afora. O'Connor foi, a vida inteira, uma pessoa de comportamento forte. Ela é careca por opção. Uma pessoa que adota esse visual por puro e simples gosto deve ser – no mínimo – respeitada. Mas, OK, não vou discutir o visual que ela adota. Vou discutir sua ação. A Igreja Católica tem todo um histórico de abuso infantil e pedofilia. Não começou ontem, nem no século passado. Isso vem desde os tempos remotos da Idade Média. (Dois livros do autor de ficção John Sack abordam esse tema.) Sinéad tem todo o direito do Mundo de criticar essas ações nojentas da Igreja. Mas o problema foi como ela resolveu dar o puxão de orelha no clero. O'Connor simplesmente resolveu rasgar a foto do papa mais influente e popular de todos os tempos, como se ele tivesse alguma culpa de seus padres e cardeais, bispos, etc, serem canalhas bastardos pedófilos. (Certo, ele tem, mas isso não importa.) É óbvio que quando ela rasga essa foto, Sinéad está fazendo uma metáfora a toda a corrupta Igreja Católica. É só uma questão de raciocínio. Mas quem diz que o povo cego, xiita, alienado pelas ideias que a TV sensacionalista passa, vai conseguir compreender isso? Sinéad passou anos e anos sendo açoitada por essa ação que ela tomou. O fato de criticar a pedofilia... é louvável, mas a maneira inconsequente que ela tomou, foi – praticamente – um suicídio.

O que eu quero dizer com isso? Muito simples. A televisão, quando muito, é incrivelmente recalcada e moralista. Isso não é de hoje. O que vimos ontem, com Rick Gervais, não é nenhum tipo de novidade. É um fato alarmante e triste. Mentalidade ridícula. E só quem perde com isso são as pessoas, cada vez mais alienadas.

Fui claro? Óbvio que não.

Por Victor Bruno

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