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Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

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Especial David Fincher: A Rede Social

Na última parte do Especial, relembre o que Victor Bruno escreveu sobre A Rede Social, mais recente filme de David Fincher

Especial David Fincher: O Curioso Caso de Benjamin Button

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Especial David Fincher: Zodíaco

O nosso especial sobre David Fincher continua com Douglas Braga falando sobre Zodíaco, mais um thriller investigativo do norte-americano

domingo, 31 de outubro de 2010

O Talentoso Ripley

O Talentoso Ripley
The Talented Mr. Ripley, 1999
Dirigido por Anthony Minghella
Roteiro de Anthony Minghela (baseado no livro de Patricia Highsmith)
Com Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Philip Seymour Hoffman, Cate Blanchet, Jack Davenport

Em tempos de eleições é sempre bom rever filmes sobre mentirosos. Obras primas ou não, este tipo de filme sempre é muito interessante, até por que instiga a mente do espectador, fazendo-nos julgar a pessoa que está contando a lorota. Neste tipo de filme nós praticamente saltamos da cadeira e dizemos para o ingênuo moço que está acreditando na mentira "Ei! Não confie nele! Ele está mentindo!"

Mais interessante ainda é quando o filme não retrata o mentiroso como um crápula, sem-vergonha e amoral. Filmes que retratam mentirosos como verdadeiros demônios podem soar quase ofensivos, porque, como diz o filósofo "Todo mundo mente." Só que é muito difícil existir um filme assim, por que os mentirosos -- principalmente os compulsivos -- são crápulas, sem vergonhas e amorais. Melhor é o mentiroso que conta um engodo por ser vítima das circunstâncias. Normalmente são eles mesmos que criam estas circunstâncias, por suas próprias mentiras. Mentirosos como Frank Abagnale, Jr e este mesmo Tom Ripley são adoráveis e cativantes. Cada um ao seu modo.


O ótimo (e saudoso) cineasta inglês Anthony Minghella (de O Paciente Inglês e Cold Mountain) faz um minucioso retrato da mente te um mentiroso. Baseado no primeiro dos cinco livros da série "Riplied" (que ainda não li) da escritora Patricia Highsmith, o filme conta a história do tímido Tom Ripley, que trabalha como pianista em Nova York. Tom tem também uma incrível habilidade para mentir, copiar a caligrafia e a voz das pessoas.. Certo dia, após tocar para a a família Greenleaf, o rico Hebert pergunta se Tom estudou em Princeton. Tom, obviamente mentindo, diz que sim. Herbert rapidamente propõe que Tom deva viajar para a Itália para convencer seu filho Dickie à voltar para casa. Tom aceita. Ao chegar lá ele se torna obsessivo por Dickie, e essa obsessão acaba por ativar um lado psicótico de Tom e ele mata o rapaz. Isto o leva à contar um emaranhado de mentiras e ainda por cima algo mais horroroso: assumir a identidade de Dickie.

Matt Damon interpreta seu personagem de modo honesto e eficiente. Seu Ripley é um garoto inicialmente tímido, mas que não exita em mentir e enganar. Entretanto é tolo. A primeira coisa que escutamos no filme vinda da sua boca é "Se eu pudesse voltar ao passado e mudar algo, eu começaria pelo empréstimo de um paletó." Ele é tolo ao dizer que a culpa é do paletó. A culpa é de Ripley ao mentir dizendo que havia estudado em Princeton. Esta é a primeira mentira de uma série de outras que cuminam em uma desgraça arrasadora. O resto do elenco está igualmente bom. Jude Law explosivo, Gwyneth Paltrow apagada e confusa... a única falha é, estranhamente, de Philip Baker Hall (!), que faz uma interpretação de amargar.

O roteiro de Minghela é muito bom, assim como sua direção, é ótimo. Eu estranhei um pouco pelo fato de Minghella não ceder seus primeiros minutos para nos apresentar a personagem, suas características e seu "talento". Minghella vai direto ao ponto, empurrando Ripley direto para a Itália. É durante o próprio filme que o diretor-roteirista desenvolve e nos apresenta o talento de Ripley. Ele não mede esforços para mentir quem é.


Quanto a direção, Minghella apresenta interessantes ironias. Ao mostrar alguém sendo quem não é, com 18 minutos estamos dentro de um bar vendo Ripley cantar Tuo Vuo Fa 'Ammericano, em português "Você Finge Ser Americano". Fingir. Verbo que vai sendo cada vez mais utilizado e mostrado durante todo filme. Com sorte a direção de Minghella se mostra absolutamente acertada, principalmente no que diz respeito ao mostrar o homossexualismo com respeito, e não como algo sodômico. (Brokeback Mountain? Alguém?)

Entretanto O Talentoso Ripley tem, naturalmente falhas. Infelizmente é aonde mais admirei o filme: no seu roteiro. Minghella coloca alguns fatos como se fossem relevantes, ou às vezes tenta enganar o espectador. Um exemplo: a morte da personagem Silvana (uma mulher por quem Dickie tinha um affair) serve apenas para mostrar um pouco da obsessão de Ripley, coisa que poderia ter sido feita sem esta morte. Mas isso não atrapalha muito.

Como outros acertos podemos citar o excelente som e edição do mestre Walter Murch, que editou filmes do super-calibre de O Poderoso Chefão - Parte II e Apocalypse Now. A direção de arte (Roy Walker) e a fotografia do mestre John Seale estão igualmente lindas. A música de Gabriel Yared é muito boa também.

É interessante o fato da personagem ler Shakespeare, pois sua trama lembra muito as mais tristes tragédias do autor inglês. Lembra Otelo com o jogo de mentiras, Romeu e Julieta com um amor impossível, A Tempestade com suas personagens traidoras, e por aí afora. Minghella mostra brilhantemente que mentir não compensa.

Mas isso importa para alguém como o talentoso Ripley?

Nota: 4 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

sábado, 30 de outubro de 2010

Videocast Ornitorrinco Cinéfilo - Stanley Kubrick's Napoleon (Parte I e II)





Por Victor Bruno

O 2001 do Pink Floyd

Existe por aí o boato que o Pink Floyd, uma conhecida banda de rock progressivo inglesa (mas será que exista alguém que não saiba o que é o Pink Floyd?), sincronizou duas músicas com dois filmes distintos. Aliás, uma dessas músicas sincronizadas nem é música, mas sim um álbum inteiro: The Dark Side of the Moon. Um jornal de um fim de mundo chamado Fort Wayne publicou uma artigo... esquece. Não é esta lenda urbana sobre o Pink Floyd que estudaremos aqui.

A segunda música (esta sim uma música) que o Pink Floyd teoricamente teria "sincronizado" com um filme é a chamada "Echoes". A música dura pouco mais de 20min. Para ser mais preciso: 23:30min. Este é quase exatamente o tempo do segmento "Júpiter e Além do Infinito", de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick.

O Pink Floyd nega todas as duas sincronizações. Mas isto não é importante. Observe a sensação de solidão que a música traz. Se o filme já lhe traz este sentimento, assista este vídeo abaixo e veja-a aumentada 35 vezes.



Por Victor Bruno

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Our comming presentation

Os trailers são uma força da natureza no grande cosmo dos cinéfilos. Um trailer pode construir grandes esperanças (sem trocadilhos com o filme, por favor) acerca de um determinado filme. Dependendo do trailer, obviamente (mas, claro, disso você já sabia), o espectador pode julgar um filme como bom ou ruim. Mas, sinceramente, não há nada mais tolo, idiota, do que dizer "Esse filme é do caramba!" assistindo os 1:30min de um preview.

Os trailers foram inventados para duas coisas: 1) Mostrar um pouco do filme. 2) Atrair e/ou enganar o público (normalmente a segunda opção). Um excelente exemplo de trailer que atrai e engana o espectador é o trailer do filme de Steven Spielberg lançado em 2005: Guerra dos Mundos. Aliás, o trailer em si é melhor do que o filme inteiro. Neste pequeno preview existe suspense, ação, romance, etc. Coisa que... o filme não tem. (Clique aqui para assistir o trailer.)

Mas há um tipo de trailer que me atrai mais. Eu sou um grande fã da criatividade. Eu acho que apenas o ser humano tem a capacidade de criar coisas fantásticas e surpreendentes. E adimiro mais quando esta capacidade consegue ser demonstrada em menos de dois minutos. Veja, por exemplo, os trailers de ...E o Vento Levou (mais um exemplo de trailer que é melhor que o filme) e Cidadão Kane. No primeiro exemplo nós não temos uma imagem sequer de locação nenhuma do filme. Apenas um livro, ricamente ornamentado, mostrando os nomes dos atores, do diretor, produtor (principalmente este, já que estamos falando de um filme de 1939, época em que o sistema de produção hollywoodiano prezava mais os produtores que os diretores). (Clique aqui para assistir.)

O segundo exemplo, de Cidadão Kane, é ainda mais genial. O trailer para a obra-prima de Orson Welles é quase tão genial quanto o filme. Novamente nenhuma cena do filme é mostrada. Em compensação nós temos amostras de alguns efeitos técnicos que eram inovações quando o filme foi realizado, e até hoje o filme é absurdamente encantador. Welles em seu trailer prefere dar ênfase aos seus atores (e, inconsientemente, à sua belíssima voz). (Clique aqui para assistir.) (Uma pequena e interessante observação: o trailer de Indiana Jones e a Última Cruzada é relativamente parecido com o de Cidadão Kane. Clique aqui para assistir.)

Existe um terceiro tipo de trailer, da época das apresentações em roadshow, que é interessante também. Ele aguça o apetite do espectador. Dois excelentes exemplos são os trailers de Lawrence da Arábia e de Doutor Jivago, ambos do excelente cineasta inglês David Lean. (Aqui para o trailer de Lawrence e aqui para o de Jivago.)

Mas nenhum desses citados acima supera o poder deste aqui. E nenhum superará.

Por Victor Bruno

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Simpsons: um caso de amor com o cinema

Os Simpsons, a série, costumava ser melhor. Hoje em dia a série anda cada vez mais decadente, com um humor que se resume, basicamente, a ver o Homer apanhando e fazendo suas bobagens. Desculpem-me, fãs da série, mas esta é a dura e triste realidade.

Felizmente a série respeita o cinema (apesar de não ter demonstrado isso no horroroso Os Simpsons: O Filme (2007)). Desde seu início, há mais de 20 anos, a série de Matt Groening (também criador do fraco Futurama) faz referências à filmes clássicos -- e outros nem tanto. O site neeja.com montou um acervo com 40 filmes que já foram referenciados pelos amarelos. Só é estranho eles terem deixado de fora a memorável referência há 2001, entretanto o acervo convence:

Clique aqui para ver o acervo.

Por Victor Bruno

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Eichmann

Eichmann
Eichmann, 2007
Dirigido por Robert Young
Roteiro de Snoo Wilson
Com Thomas Kretschmann, Troy Garity, Franka Potente, Stephen Fry

Durante a história, determinados indivíduos foram decisivos no curso dos acontecimentos humanos. Muitos são conhecidos por todos, como Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler. Outros se escondem nas sombras da história, e em geral só são lembrados por estudiosos determinados assuntos. Um destes homens é Adolf Eichmann. Para quem não ligou o nome à pessoa, Eichmann foi um dos principais idealizadores e realizadores da Solução Final durante a Segunda Guerra Mundial, momento a partir do qual, no ano de 1942, foi acelerada a política de extermínio nos campos de concentração.

O filme de Robert Young aborda um determinado momento na vida deste homem, quando ele é capturado na Argentina, aonde vivia escondido com sua família como apátrida (um homem sem nacionalidade), e levado para ser julgado em Israel. Durante o filme, acompanhamos todo o processo do interrogatório deste homem. Por um lado, seus argumentos absurdos, na tentativa desesperada de se defender de um crime indefensável; por outro, o despsero por parte das autoridades israelenses, e principalmente do interrogador Avner Less, em conseguir uma confissão o mais rápido possível, que o pudesse condenar a morte, como de fato foi.



A estrutura em si do filme é absolutamente burocrática. Temos três eixos de ação: o interrogatório de Eichmann; os flashbacks muito breves de acontecimentos anteriores da vida do oficial nazista, que não acrescentam praticamente nada à trama; e os conflitos pessoais do interrogador Avner com sua família (sua esposa, por exemplo, descobre que sofre de paralisia) e as autoridades de Israel. O diretor Robert Young não propõe nehuma inovação, e insiste bastante nos zooms nos rostos e nas expressões dos atores.

Entretanto, se a direção é apenas regular, o roteiro de Snoo Wilson é interessante. Baseado em relatórios oficiais do interrogatório e do julgamento de Eichmann (que também foram utilizados em uma das maiores obras-primas do pensamento político da humanidade, "Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a Banalidade do Mal", de Hannah Arendt), ficamos de certa forma espantados com a hipocrisia deste homem em sua defesa. É de fato notável que, mesmo diante de provas contundentes (assinaturas em documentos oficiais, por exemplo), de seu envolvimento no Holocausto, Eichamnn continua utilizando um argumento que foi muito comum também nos julgamentos de Nuremberg: afirma que apenas cumpriu ordens superiores, de Hitler. É claro que este merece a alcunha de um dos maiores monstros que já exisitram, mas o interrogador Avner mostra claramente que, por diversas vezes, Eichmann agiu com completa autonomia em relação ao ditador e também em relação ao seu chefe direto, Heinrich Himmler, chefe das SS. Assim, o filme nos possibilita perceber até onde vai o cinismo e a hipocrisia do ser humano.




A atuação do competente Thomas Kretschmann (talvez mais conhecido por aqui pelo seu papel em "O Pianista") nos permite delinear algumas facetas deste personagem. É claro que há um total esforço do filme em mostrar a crueldade deste homem, ao mesmo tempo em que ele aparece como alguém capaz de manter um relacionamento com uma judia! Kretshmann, talvez um dos melhores atores alemães em atividade, investe nas expressões carracundas, com poucos sorrisos, apresentando Eichamnn como um indivíduo calmo durante o seu interrogatório, apesar de tudo (como de fato, ele permaneceu também durante todo seu julgamento). Do restante do elenco, temos o desconhecido Troy Garity, que é totalmente ofuscado por Kretshmann em todas as suas cenas juntos; e os conhecidos Stephen Fry ( de "V de Vingança") e Franka Potente (de "Corra Lola, Corra"), como o Mininstro Tomer e Vera Less, sem muito espaço para se destacarem, mas apresentando atuações convincentes.

Assim, o filme "Eichmann" não deixa de ser uma biografia quase convencional, abordando um determinado momento na vida deste personagem histórico. Entretanto, apresenta reflexões interessantes sobre a natureza do ser humano e os limites (ou melhor, a falta destes) de suas ações. Merece ser conferido.

Nota: 3 estrelas em 5

Por Douglas Braga

Roteiros - Forrest Gump


Alguns consideram-o um filme absurdamente melancólico e chato. Outros vão além e o consideram a história de um retardado mental que estava na hora certa e no lugar certo. Nada além disso. Eu considero uma das críticas mais ácidas e perfeitas da sociedade norte-americana.

Clique aqui para baixar.

Por Victor Bruno

domingo, 24 de outubro de 2010

Minha pequena obsessão

Eis a foto citada na crítica de Na Natureza Selvagem. (Clique aqui para ler a crítica.)

Não preciso nem dizer que a Tracy T. do filme (interpretada por uma Kristen Stewart estranhamente eficaz) é mais bonita.


"Se deseja algo na vida, não se esqueça disso: vá atrás."
-- Christopher McClandless

Por Victor Bruno

Na Natureza Selvagem

Na Natureza Selvagem
Into the Wild, 2007
Dirigido por Sean Penn
Roteiro de Sean Penn (baseado no livro "Into the Wild" de John Krakauer)
Com Emile Hirsch, Catherkine Keener, William Hurt, Marcia Gay Harden, Vince Vaungh, Brian Dierker, Jena Malone, Hal Holbrook, Kristen Stewart

Christopher McCandless foi acima de tudo um filósofo. Impulsionado por uma sede de liberdade insaciável ele fez a viagem da sua vida. Uma viagem de auto-conhecimento e desespero pelos Estados Unidos. Quando termina-se de ver uma das obras-primas da primeira década do século XXI, este Na Natureza Selvagem, você se pergunta "O que foi isso?!" Pelo menos foi o que aconteceu comigo. O roteirista e diretor Sean Penn nos presenteou com um filme de 2h20 coisas quase raras de se encontrar no cinema atual: belas imagens, que nos são apresentadas sem pressa alguma, e um filme filosófico que ousa descascar seu protagonista. Estes dois fatores são quase uma receita para o desastre que nenhum produtor nem ousa sonhar nos seus piores pesadelos: fracasso de bilheteria. Não foi o caso aqui.

Ao meu ver, apenas dois diretores conseguiram filmar cenas da natureza com perfeito brilhantismo: o inglês David Lean e o americano Terrence Malick. Sean Penn (que trabalhou com Terrence no monumental Além da Linha Vermelha) bebe da mesma fonte deste último e pincela com profunda melancolia um filme quase perfeito. Na última década pouquíssimos filmes puderam nos brindar com belas imagens. Alguns deles são O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, O Novo Mundo e olhe lá. Só que mais raro ainda é nos trazer imagens belíssimas com algum conteúdo. Dos dois, apenas O Novo Mundo consegue isso (O Assassinato... é uma obra-prima por outros méritos). E O Novo Mundo é do supracitado Terrence Malick.

Mas por que estou iniciando esta crítica já enchendo o filme de elogios sem ao mesmo lhe dizer qual a trama desta obra? Por que o filme é bom, ora bolas! Mas, vamos aos fatos: Into the Wild nos trás a história verídica do jovem Christopher McCandless. Ele se forma na Universidade Emory e, quase imediatamente, doa tudo o que tem -- 24 mil dólares -- para a caridade e parte numa viagem de auto-conhecimento pelos EUA em um Datsun ferrado.

Deste jeito o filme parece bobo. Quantos mil filmes já não foram feitos com pessoas atrás de auto-conhecimento? Neste ano mesmo houve o lançamento de um filme de auto-conhecimento -- este sim bobo: Comer, Rezar, Amar. A diferença deste filme para qualquer outro sobre este assunto é que Christopher não vai atrás de uma filosofia, mas sim a sua filosofia idiosincrática o impulsiona nesta jornada. Ele quer se livrar de todo o materialismo -- estúpido, ao seu ver -- do mundo moderno. Ele quer seguir as sugestões e as filosofias de autores como Tolstói, Thoureau e London. Todos os três pregavam uma filosofia de vida em que a natureza deve ser o centro do mundo.


Agora sua visão do filme deve ser outra. "Poxa, deve ser um filme chato pra caramba... filosofia... essas coisas... pra quê nós vamos precisar disso na vida?", certo? Errado. O filme não é chato em nenhum segundo. Sean Penn mostra-se um diretor talentosíssimo neste filme. Penn consegue carregar nas costas um filme que se tornaria uma experiência massacrante nas mãos de outro diretor. Ele com sua direção mágica e um roteiro maravilhoso desvenda magistralmente as camadas psicológicas de McCandless. Seus pensamentos, suas virtudes, seus defeitos... Os voice-overs que se alternam entre Chris e sua irmã Carine são carregados de emoções e filosofia. O filme já valeria só por eles. Aliás, as narrações compartilhadas entre várias personagens foram mais um fator que me recordaram os filmes de Terrence Malick.

Outro fator que deixa o filme ainda melhor, e mais rápido, é a edição excelente de Jay Cassidy, que foi indicado ao Oscar em 2007, mas perdeu para um filme igualmente belo e bem editado: Sangue Negro do mestre Paul Thomas Anderson. Além disso, como já dito, a fotografia de Eric Gautier é perfeita. Primeiramente ela é bem documental -- principalmente nas cenas no Ônibus Mágico. Depois ela se torna contemplativa... contemplativa... contemplativa... e desesperadora.

Emile Hirsch está no papel da sua vida. Eu nem precisaria comentar o quão bom ele está aqui. Hirsch está absurdamente autêntico como Christopher McCandless (ou Alexander Supertramp, depende da cena). Suas falas, quase sempre poéticas, não se tornam mortas ou teatrais, mas sinceras em sua proposta. Na cena em que cita Thoreau sente-se a força da sua atuação. "Mais que amor, dinheiro, fama, justiça; dê-me a verdade." É bom frisar que Hirsch teve o acompanhamento da família McCandless na composição da sua personagem. Outra coisa interessante de se observar é como a aparência de Hirsch muda ao decorrer do filme. Nas cenas da praia e do reencontro com Jan, ele parece mais jovem. Depois, nas cenas em que está faminto e sofrendo -- e ele sofre pra caramba --, Hirsch lembra as feições de... Cristo (!).


Para acompanhar Hirsch/McCandless em sua jornada, o filme tem coadjuvantes com nomes de peso e interpretações igualmente fantásticas. Marcia Gay Harden faz uma ótima Billie McCandless, a mãe de Chris. Uma mulher oprimida pelo marido arrogante e violento. Este monstro é interpretado eficientemente por William Hurt. No seio familiar ainda temos a irmã de Chris, Carine, que não aparece muito na trama, mas tem uma participação de peso na narração. Carine é, sem dúvida "a única pessoa que poderia compreender Chris." Vince Vaungh nem de longe lembra o péssimo comediante que é, Keener está excelente como Jan, a personificação hippie da mãe do protagonista, que também tem um filho que fugiu de casa.

O bom de ser cinéfilo é que você pode ser surpreendido com os filmes. Eles podem influenciar seu modo de vida (e este foi um deles para mim). Ou simplesmente por atuações e atores. Este aqui me reservou uma grata surpresa: Kristen Stewart. Como assim?! A menina mordedora de lábios de Crepúsculo pode me agradar? Ela pode ter uma boa atuação?! Claro, filho! Seu jeito apagado e tristonho cai como uma luva na jovem cantora Tracy T. Aliás, Kristen está tão doce e adorável aqui que eu fiz questão de pesquisar sobre a real Tracy T. na Internet e achei uma foto dela no set de gravações. (Post acima.)

No cinema recente poucos filmes tem a ousadia de pesquisar a psicologia das suas personagens. Neste filme podemos ver como a maldade e a má criação que os pais podem dar ao filho influenciam-no nas decisões a serem tomadas em seu futuro. É este o caso aqui. Chris quer a liberdade que não teve, e a vida que lhe foi negada pelos pais -- ou melhor, o pai -- na sua infância. Sua jornada beira a crueldade, por negar, agora ele, notícias. Uma jornada trágica, mas que muda. Quando, na cena do rafting, um turista diz "Ponha o capacete!" e Chris não dá ouvidos, a justificativa é única e simples: Ele quer sentir o vento nos cabelos, droga!

Nota: 5 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

P.S.: No filme, Christopher sente saudades da linda e adorável Tracy T. interpretada por Kristen Stewart. Somos dois. Mas eu sinto falta mesmo é da boa atuação (que aparentemente nunca mais voltará) de Kristen neste filme. Ela faz basicamente a mesma coisa aqui e em Crepúsculo, com uma única diferença: ela deixou de se oferecer para mochileiros-filósofos e foi tentar a sorte com vampiros e lobisomens.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Videocast Ornitorrinco Cinéfilo - David Lean (Partes I e II)





Por Victor Bruno

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Donnie Brasco

Donnie Brasco
Donnie Brasco, 1997
Dirigido por Mike Newell
Roteiro de Paul Attanasion (baseado no livro de Joseph D. Pistone e Richard Woodley)
Com Al Pacino, Johnny Depp, Michael Madsen, Anne Heche, Bruno Kirby, James Russo

Desde que Os Bons Companheiros (Martin Scorsese, 1990) foi lançado, ficou mais difícil de se tratar do tema "máfia" de um modo original e convincente. Depois deste filme, todos os outros parecem meras cópias do brilhante filme de Martin Scorsese. A violência que acontece lá dentro nunca foi retratada de maneira tão convincente, e o poder mafioso nunca foi tão bem destrinchado e exposto em celulóide.

É óbvio que nem todos os outros filmes lançados pós-Goodfellas são somente cópias deste primeiro, mas falar de máfia ficou... "desoriginal". Alguns filmes pós-Goodfellas são apenas filhotes cujo diretores fizeram bem a lição de casa e aprenderam as técnicas de se contar uma boa história de máfia. Felizmente este "Donnie Brasco" está entre eles.

Na década de 70 o policial Joseph "Joe" D. Pistone, sob o codinome de Donnie Brasco (Johnny Depp), se infiltrou na máfia novaiorquina. Ele conhece o mafioso fracassado Lefty (Al Pacino, excelente), que se interessa por ele e o introduz aos outros mafiosos, como Sonny Black (Michael Madsen), Nicky (Bruno Kirby), Paulie (James Russo). Pouco a pouco Donnie vai ganhando a confiança de todos, pelo seu jeito boa praça e sua lealdade, até que finalmente vira uma espécie de filho-que-o-pai-não-teve para Lefty. A partir de então, assim como Goodfellas, o filme acompanha a trajetória deste policial infiltrado.

Ao contrário do seu "progenitor", "Donnie Brasco" não dá ênfase nos altos e baixos que os mafiosos (no caso de Goodfellas é o mafioso) têm em sua carreira. "Donnie Brasco" tenta (ênfase em "tenta") dar uma abordagem na psicologia da sua personagem principal, em seus transtornos emocionais e, principalmente nas suas relações, destacando-se a com Lefty. Filme realmente anseia por mostrar esta relação. Aliás, arrisco-me a dizer ainda que a personagem Donnie Brasco é uma ponte para mostrar o fracasso que é a vida de Lefty.

Mesmo que não seja isso, o filme conta com uma interpretação excelente de Al Pacino. Interpretação esta que está em harmonia com o resto do elenco. Pacino, que sabe muito bem interpretar um mafioso (Michael Corleone, alguém?) faz o exato inverso de uma personagem como Tony Manero, de Scarface. Se no filme de Brian De Palma a personagem que o ator de Serpico era alguém poderoso, que se vestia bem, neste filme de Mike Newell o homem é um desastre. Usa costeletas, ternos surrados... enfim, mas mesmo assim ainda é um sujeito que se possa confiar.

Johnny Depp faz uma interpretação segura e madura como o policial Joseph Pistone (que realmente existiu e passou quase cinco anos infiltrado na máfia novaiorquina. É interessante notar que o filme termina exatamente do mesmo jeito que começou: com um close nos olhos de Joseph. Entretanto há uma ponte enorme ligando estes dois extremos. No decorrer desta ponte, Pistone/Brasco enfrenta uma enorme transformação. Observe que a medida que o tempo passa seus olhos ficam cada vez mais cansados, ele quase perde a sanidade e a confiança da sua própria família. Uma ótima interpretação que infelizmente, assim como a de Al Pacino, não teve o devido reconhecimento da Academia. Assim como Depp, Donnie Darko -- digo, Brasco tem ótimas interpretações dos coadjuvantes, como Michael Madsen, Bruno Kirby e James Russo (com uma cara de mal terrível...). Infelizmente Anne Heche não está eficiente como o resto do elenco, mas não estraga com tudo. Ela está "invisível".

Mike Newell mostra uma interpretação eficiente. Não é uma maravilha, mas é bem eficiente. No início do filme o diretor não sabe se vai fazer um filme ao estilo tarantinesco (diálogos irrevelantes) ou se segue o que o filme pede. Felizmente o diretor caminha pela segunda opção. Claro que a culpa disso não é totalmente de Newell. O roteirista Paul Attanasio tem culpa no cartório. No início o roteirista aposta em diálogos tarantinescos e vê que isso não dá certo. Depois aposta em cenas rápidas, que funcionam, mas vão exageradamente rápidas, confundindo o espectador. Finalmente ele se acerta, com 30 minutos de filme. Um pecado grave. A sonoplastia do filme também não é muito eficiente (o som dos disparos das armas são totalmente falsos).

Falando em disparos, é interessante notar que o filme só tem um tiroteio, e nem tiroteio é. É uma chacina. O filme que vinha se mantendo tão bem peca de novo por fazer mortes exageradamente gráficas e toscas (uma das vítimas caminha pelo porão onde a chacina é realizada caminha berrando e gritando como um zumbi de A Morte do Demônio).

Enfim, Donnie Brasco se mostra um bom exemplar de filme de máfia, ainda que não chegue perto do talento de um filme como Cassino ou Os Bons Companheiros. É um exemplo bem didático da força da máfia e do poder da amizade nas horas difíceis. E o emblemático olhar final de Johnny Depp é a cereja do bolo.

Nota: 3 estrelas em 5

Por Victor Bruno

domingo, 17 de outubro de 2010

Hamlet

Hamlet
Hamlet, 1996
Dirigido por Kenneth Branagh
Adaptado para as telas por Kenneth Branagh (baseado na peça de William Shakespeare)
Com Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Julie Christie, Nicholas Farrell, Kate Winslet

É interessante. Desde que existe o cinema existem adaptações de livros e peças (sendo o mais comum as adaptações do primeiro ítem citado). Aliás, o cinema como entretenimento nasceu nas adaptações feitas pelo mágico-cineasta George Mélies. Desde então vão-se aí milhares de obras transpostas para o cinema pelos mais variados cineastas. Mas com certeza nenhuma peça ou filme foi tão mal adaptada para o cinema como a obra-prima de William Shakespeare, Hamlet.

A obra já foi passada para o cinema por seis vezes pelos seguintes diretores: Lawrence Olivier, Grigori Kositsev, Tony Richardson, Franco Zefirelli, Kenneth Branagh e Michael Almereyda. Nenhum dos diretores acima, salvo Brannagh e Olivier (dois especialistas em Shakespeare), tratou a peça do modo como ela deva ser tratada: preservando os monólogos existencialistas que suas personagens travam consigo mesmas e dirigindo com a delicadeza que deve ser tomada. Zeffirelli, grande cineasta italiano, que já tinha dirigido um filme baseado em peça de Shakespeare (Romeu e Julieta, 1968), fez em 1990 uma adaptação horrorosa, estrelada por Mel Gibson e Glenn Close. Como já dito, Branagh e Olivier são os únicos que realmente fizeram um serviço bonito para a mais bela obra de Shakespeare.


Mas... estou divagando. Vamos à história. Hamlet (Branagh) é o jovem príncipe da Dinamarca. Seu pai morreu há quatro meses de uma forma misteriosa. Seu tio, Claudius (Derek Jacobi), casou-se sua mãe (o que caracteriza-se como incesto) e agora é o rei do país. Os problemas aumentam quando o espírito do pai de Hamlet passa a fazer aparições noturnas, assustando os guardas. Quando o jovem príncipe vai averiguar o que está acontecendo, ele descobre que seu pai foi, na realidade, assassinado pelo irmão. De quebra, o espírito ainda pede que Hamlet mate o seu assassino. (OK, vai dizer que ninguém sabe qual é a trama da peça?)

É muito difícil comentar o filme já que... já que Branagh basicamente copia e cola o texto de Shakespeare. Texto, aliás aberto a diversas interpretações. Shakespeare critica os ricos e poderosos, os casamentos arranjados. Se nós formos aqui comentar o roteiro do filme, estarei comentando a peça. O que, obviamente, não é nosso objetivo aqui. (Até por que é doloroso falar mal de Shakespeare.)

O filme apresenta uma direção grandiosa por parte de Kenneth Branagh. Mas ele não é de todo perfeito. Aliás, durante os 30, 40 primeiros minutos Branagh peca insessantemente na direção. A impressão que passa durante este tempo é que ele, sinceramente, não sabia o que fazer (!). Mas num filme que dura quase quatro horas isto não é um pecadilho. Branagh dirige com uma elegância soberba. As imagens são de uma elegância única e o diretor mostra grande respeito e adimiração para a obra do maior dramaturgo que jamais existiu. A fotografia em 70mm é grandiosa. Branagh força os atores à voltar para as origens teatrais, fazendo-os recitar (sim, eles recitam, literalmente) o texto em um único take.


O próprio diretor encabeça um elenco de luxo, seguido por Kate Winslet, Derek Jacobi, Julie Christie. As interpretações são magníficas. Num texto difícil e cheio de monólogos existencialistas, nenhum dos atores fazem as palavras soarem falsas. Culpa da abordagem essencialmente teatral do diretor (ponto para Branagh). Julie Christie carrega durante o filme inteiro um olhar pesaroso, carregado de culpa. Winslet faz uma Ofélia excelente (as cenas em que ela está fora de si são as melhores dela no filme). Derek Jacobi está melhor do que nunca, construindo um Claudius que... bom, mais canalha impossível. E finalmente chegamos a Branagh... ah... o que é Branagh neste filme! O melhor Hamlet no cinema desde Lawrence Olivier, e olha que ser comparado a Sir Lawrence não é pouca coisa.

William Shakespeare's Hamlet, como nos informa o título completo da obra, tem outros fatores que nos leva a adimirar esta maravilha de quatro horas. A direção de arte é soberba. Só o salão do trono, onde boa parte do filme acontece, é de encher os olhos. Observe o cuidado com que o set foi construído. O piso xadrez, as portas espelhadas... lindo. Lindo. A fotografia de Alex Thomson, como já dito, também é maravilhosa. Volto a repetir, Branagh não poderia ter feito escolha melhor quando decidiu gravar em 70mm (às vezes emulando o mestre David Lean). Infelizmente o filme não é perfeito (como é difícil se alcançar a perfeição!). O único defeito realmente considerável é a trilha sonora de Patrick Doyle que, por vezes, aparece quando deveríamos ouvir o som do silêncio. Outro problema do filme também é a personagem Fortimbrás, que não faz diferença alguma na trama. Poderia ser perfeitamente cortada, mas, como já dito, Branagh faz um CTRL+C, CTRL+V da peça.

Para amantes de Shakespeare ou não, é um filme obrigatório para quem quer conhecer o bom cinema. Nada pode se comparar a escutar "Ser ou não ser. Eis a questão" em Super Panavision 70.

Nota: 5 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

David Lean's unrealised films

Sou um grande fã do cinema de David Lean. Como todos sabem, o cineasta inglês construiu alguns dos épicos mais fabulosos, grandiosos, espetaculares de todos os tempos, como Lawrence da Arábia (1962), Doutor Jivago (1964) e Passagem para a Índia (1984).

Entretanto, assim como todos os cineastas, Lean teve alguns projetos que infelizmente não foram realizados. O site do British Film Institute (clique aqui para acessar) reserva uma página para o cinema de David Lean. Dentro desta página nós temos o arquivo de filmes não-realizados do cineasta (Nostromo, The Wind Cannot Read e The Bounty).

Na página de The Wind Cannot Read você pode encontrar uma infinidade de miscelânias, como cartas escritas por Lean, algumas páginas do shooting script e até mesmo anotações manuscritas do próprio Lean. (Sinceramente eu quase entrei no computador quando as vi, e fiquei berrando "AAHHHHH!!!! É A LETRA DO LEAN! AHHHHH!!!!)

Link para a página de Lean no BFI: aqui.

Por Victor Bruno

P.S.: O pessoal do BFI poderia ter ao menos a decência de colocar estes arquivos para download.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Videocast Ornitorrinco Cinéfilo - Blockbusters



Por Victor Bruno

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Roteiros - Passagem para a Índia

"Mrs. Moore!"

Clique aqui para baixar.

Por Victor Bruno

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

12 Homens e Uma Sentença

12 Homens e Uma Sentença
12 Angry Men, 1957
Dirigido por Sidney Lumet
Estória de Reginald Rose
Roteiro de Reginald Rose
Com Henry Fonda, Joseph Sweeney, Lee J. Cobb, Martin Balsam, John Fiedler, E.G. Marshall, Jack Klugman, Edward Binns, Jack Warden, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber

Ah, as diferenças do Mundo... como nós seríamos sem elas? O Mundo seria um lugar muito chato de se viver. Seríamos patéticos, uma chatice completa. Não daria para dizer se uma miss é realmente bonita ou não, por que elas seriam exatamente iguais. Seria como naquela música do Pink Floyd, nós seríamos outro tijolo na parede. Consequentemente nós não teríamos livros e filmes, principalmente esta última mídia. E se, por uma razão improvável, nós tivéssemos isto, não teríamos um exemplar como este primeiro filme de Sidney Lumet (Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, Um Dia de Cão). Poucas vezes as diferenças entre os humanos foram tão bem exploradas em celulóide quanto aqui.

As maravilhas das diferenças são testadas em uma experiência bem simples: doze homens são convocados para serem jurados num curioso julgamento. Um jovem é acusado de ser o assassíno do próprio pai. Fica na mão destes doze homens a inocência ou culpa (e, consequentemente, sua morte) deste rapaz. Bem simples certo? Errado. Se, pelas provas, o rapaz é claramente culpado, os jurados levam a decisão durante horas a fio, afinal é uma vida que está em jogo.


É como uma experiência com nitroglicerina, algo extremamente instável, volátil. Como diz a tagline do pôster original, explode como doze bananas de dinamite. Este duelo de idéias e palavras explosivas é magistralmente capturado pelo estreante Sidney Lumet. Num cenário absurdamente simples (uma sala de juri), Lumet utiliza todos os recursos possíveis para que o público embarque nesta jornada fascinante de uma hora e meia. Ele e o fotógrafo Boris Kaufman (Sindicato de Ladrões, O Homem do Prego) utilizaram-se uma inteligente estratégia para que o público embarcasse na história: no início os planos são filmados na maioria das vezes sem cortes, ao nível do olho. Com o passar do filme nós vemos mais closes e uma edição mais entrecortada. Nos últimos instantes tudo o que há no filme são extreme close-ups e cortes. Uma estratégia perfeita.

Aliado a isso, o roteiro de Reginald Rose é rápido e impactante. O importante nessa história não é o julgamento, ou quem está sendo julgado e, no futuro, qual será o veredito. O importante de verdade nesta história são os jurados. Como cada ser humano reage à uma situação difícil como essa. Qual a personalidade ideal de lidar com essa situação? E, no final, qual é o veredito certo a ser dado. O roteiro de Rose me lembrou vagamente a obra-prima recente Dúvida, de John Patrick Shanley. Se no filme de Shanley as personalidades das personagens eram um instrumento importante para a verdade a ser descoberta, aqui o nervo exposto das personagens são a verdade descoberta. Tudo isso interpretado com maestria por Henry Fonda e seus onze auxiliares. As interpretações são magistrais. Fonda (Guerra e Paz, Era Uma Vez no Oeste) interpreta seu jurado número "8" com uma competência inigualável, assim como Lee J. Cobb (de Exodus e Como o Oeste Foi Conquistado, o ator mais explosivo do cinema norte-americano, ao lado de Al Pacino), interpretando a personagem mais difícil e complexa do filme (um homem emocionalmente instável, estourado, mas que se arrepende, bancando sempre o idiota). Aliás, a interpretação de Cobb é a cereja do bolo deste filme magnífico.


Mas seria hipocrisia; um erro terrível, dizer que o filme se resume à esses dois. Não há palavras, realmente, para descrever as emoções desta viagem pela mente humana. Nervos expostos, os preconceitos revistados de uma forma única. Como as coisas realmente desimportantes, como o time de baseball que uma pessoa torce sendo usado contra você (assim como os jurado 7 faz), sendo elevadas. Miopia como prova de um crime. O filme tem cenas lendárias, absurdamente geniais, mas extremamente simples e tocantes. Veja a cena, por exemplo, em que o jurado 10 explode num discurso vazio e cheio de preconceito (quase um hitlerista, coitadinho...). Imediatamente todos os outros onze homens dão as costas, independente de terem votado "culpado" ou "inocente".

O filme é mais que uma viagem por uma sala do juri. É uma viagem fascinante pela mente de 12 homens em fúria.

Nota: 5 estrelas em 5

Por Victor Bruno

sábado, 9 de outubro de 2010

Waking Life

Waking Life
Waking Life, 2001
Dirigido por Richard Linklater
Escrito por Richard Linklater
Com Milley Wiggins, Ethan Hawke, Julie Delpy

Assistir Waking Life lembrou-me uma experiência que tive quando era mais novo. O sonho de todo garoto é ganhar um video-game, e nele jogar até que a ponta dos dedos só interessem aos historiadores, por que elas não estão mais lá. Um dia eu -- até que enfim -- ganhei o video-game. O que eu queria era a nova febre, um PlayStation 2. Eu me lembro perfeitamente: Estava no quintal de casa, onde um dia fora um campo de futebol. Minha mãe me chamou. Eu fui para a sala de estar, decorada com adereços natalinos. Estava embrulhado num papel de presente. Abri, e lá estava o PlayStation! Imediatamente, sem ao menos dizer "Obrigado", instalei o aparelho na TV, quando fui jogar, do nada apareceu o CD para inserir no console. Ué? Meus pais não compraram nenhum jogo, e se compraram, aonde eles estavam? Dentro do embrulho é que não é. Depois reparei que a luzinha que sai de dentro do botão resert era azul. Impossível. A luzinha do botão de resertar ou é verde ou vermelha, mas nunca azul.

E então eu acordei. Foi apenas um sonho. E uma das experiências mais frustrantes da minha vida. E olha que nem foi real.

Ou será que não? É isso que Linklater quer descobrir em sua pequena obra-prima Waking Life. O que é sonho? O que é realidade? Será que sonho e realidade são duas coisas em uma só? Como diriam em Além da Linha Vermelha (Terrence Malick, 1998), "Duas faces do mesmo rosto?" É impossível saber, mas mesmo assim ele nos convida a embarcar numa viagem com uma atmosfera "übermente" inteligente pelos sonhos de um garoto cujo nome nunca descobriremos -- assim como os nomes de todos as personagens da obra. Dentro dos sonhos, que são um território sem leis, completamente nonsense, nós vemos as personagens discutindo religião, filosofia, leis, a ordem, o caos, a morte e a vida. O filme não apresenta nenhuma trama, é só isso.


Linklater é extremamente ousado ao adotar esta estratégia para o seu filme. Filme que, aliás, me lembrou muito o supracitado Além da Linha Vermelha. Em ambos os filmes as personagens filosofam sobre a vida e a morte. A diferença é que Terrence Malick conseguiu encontrar uma história (no caso, a Batalha de Guadalcanal) para a sua obra. Linklater não. Se observado mal, o isso é uma infração gravíssima do diretor, 12 pontos na carteira. Mas, com um pouco mais de reflexão, você encontra uma justificativa: quando, homem, um sonho tem história? Você nunca percebeu que às vezes você está em uma determinada situação e, do nada, está em outra? Linklater percebeu isso, e inseriu com maestria em sua obra.

Entretanto isso mata totalmente o rítimo do filme, transformando-o em um filme para leão, maçante. Mas, isso não é problema, já que o filme está ali para reflexão, não para entretenimento. (O que explica perfeitamente o arrecadamento do filme: US$ 2.892.011,00.) Outro fator que leva o filme a ser ainda mais árduo é a utilização do Rotoscope, fazendo do filme uma animação gráfica. Pseudo-animação, aliás. Entretanto, apesar de tornar o filme árduo, como dito, é um grande acerto de Linklater. Nunca vi os sonhos serem tão bem representados em um filme (nem mesmo em A Origem). Pode até dar dor de cabeça, mas é um visual incrível. Onírico. Inconsistente. Dos sonhos.


Waking Life é um mosaico impressionante do nosso subconsciente. Nossas principais idéias vêm à tona quando estamos dormindo. Os nossos anseios e dúvidas só tem espaço na nossa vida quando estamos relaxados. É o supremo pensamento. Nós não gostamos de nos ouvir. Imagine quando você está nesta turbulência de pensamentos e não consegue sair, o que é o caso da personagem sem nome (Milley Wiggins). Ele vê as coisas mais sem sentido do mundo: um cara tocando fogo em si mesmo, filósofos, filmes sem sentido, etc. Milley interpreta com perfeição. Um rosto com a expressão de "Mas o que é isso?" Milley é o público que não aguenta aquela carga de informações voando em nossa direção.

Apesar de tudo o filme contém falhas, principalmente no que diz respeito às atuações e no Rotoscope. Observe a cena em que dois caras estão falando num filme que a personagem principal assiste: repare bem como Caveh (o cara da direita) gesticula exageradamente. Isso se deve ao fato dos efeitos inseridos durante suas gesticulações. Quando os efeitos param, ele continua com os exageros. Isso torna-se chato e desgastante, num filme que é desgastante por si só. Quanto ao Rotoscope, existem momentos em que as imagens são impossíveis de se compreender. Mas faz parte da experiência que é Waking Life.

No todo, o filme apresenta uma narrativa que deixaria Franz Kafka feliz. E se deixaria Kafka feliz, quem somos nós para criticar? Sinceramente, eu não sei. Só sei que da próxima vez que estiver dormindo, tente desligar um interruptor.

Nota: 4 estrelas em 5

Por Victor Bruno

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Fim da Escuridão

O Fim da Escuridão
Edge of Darkness, 2010
Dirigido por Martin Campbell
Roteiro de William Monahan e Andrew Bovell (baseado na série escrita por Troy Kennedy Martin)
Com Mel Gibson, Ray Winstone, Bojana Novakovic, Danny Houston, David Aaron Baker

Poucas vezes na minha vida pude ver um exemplar cinematográfico como este O Fim da Escuridão. É um exemplo perfeito, mas perfeito, de como uma pessoa pode pegar todo um potencial de um projeto e jogar pela lata de lixo como se fosse qualquer coisa. Faltou pouco, mas muito pouco, para este filme entrar na minha lista de horas perdidas (e olha que eu já vi muito filme que poderia entrar para este "grupo de seletos").

Fui asssistir este retorno de Mel Gibson (Mad Max, O Patriota) ao posto de ator com grandes esperanças. 1) É o retorno de Mel. 2) Escrito pelo ganhador do Oscar William Monahan, de Os Infiltrados (Martin Scorsese, 2006). Sem contar no sempre eficiente Ray Winstone. Apesar de tudo isso, com uma hora de filme eu já olhava para o meu relógio me perguntando "Por que, meu Deus, por que?". Bem, eu não posso me culpar. Fui uma vítima das circunstâncias. Na vida minha de cinéfilo e de crítico (e na de todos os cinéfilos e críticos) assistir a filmes ruins são ossos do ofício. E eles sempre estarão lá.

Mas estou divagando. A trama deste filme é incrívelmente clichê, mas, paradoxalmente interessante. (O clichê só vira clichê quando mal utilizado.) A obra tinha tudo para ser um thriller inteligente, interessante, mas... bom, virou o que é.


Thomas Craven (Gibson) é um policial que está recebendo sua filha Emma (Bojana Novakovic) formada no MIT de visita, após muito tempo. Ela está trabalhando para uma grande empresa que mexe com energia nuclear e está sempre pronta para "abastecer o presidente quando ele precisar". Ao chegar em casa Emma passa mal, vomita e tem de ir ao médico. Quando pai e filha estão na varanda, um sujeito grita "Craven!" e dispara com uma escopeta. O tiro atinge Emma, que voa (literalmente), e morre. A partir de então Craven vai lutar para descobrir o que aconteceu com sua filha, quem, supostamente, tentou lhe matar. Quanto mais Craven avança em sua investigação, mais ele descobre que tudo aquilo foi uma sucessão de erros e um enrolado sistema de maracutaias.

Como dito anteriormente, o filme é um clichê de primeira. Não há absolutamente nada aqui que já não tenha sido explorado anteirormente por qualquer outro filme de ação, suspense, etc. "Um homem tem que enfrentar um pesado sistema de fraudes dentro do Governo." "Homem perde sua família e vai em busca de vingança." Todas essas bobajadas já foram vistas e re-vistas à exaustão por Hollywood, o que apresenta uma dificuldade ainda maior para Hollywood fazer algo interessante e convincente. Ou, ao menos, que não seja entretenimento descerebrado para as massas. O povo merece mais que pão e circo.

Mas o interessante é que nem mesmo entretenimento descerebrado o filme consegue ser. Culpa do roteiro mal escrito por Monahan e Bovell. Monahan acabara de sair do Oscar de Melhor Roteiro por um filme com uma temática parecida, mas que explora muito melhor as personagens do que a história em si. Estou falando de Os Infiltrados. Se Monahan tivesse feito aqui o que fez com o filme dirigido por Scorsese... ah, meu jovem, o resultado seria bem diferente...


Bom, já que Monahan não o fez, Martin Campbell (A Máscara do Zorro, Cassino Royale), o diretor, poderia ao menos ter a decência de melhorar o que tinha em mãos, fazendo um filme mais ágil e interessante. Entretanto...

...Entretanto o filme é lento, chato, desenvolvimento arrastado... arrastadíssimo, aliás. Nada está em harmonia em O Fim da Escuridão. E quando eu digo nada, é nada mesmo. Mesmo quando havia uma salvação para a direção pedestre de Campbell, isso não foi feito. A edição de Stuart Baird é uma das coisas mais horrorosas que já vi. A impressão que dá é que tudo foi editado no Movie Maker, e que não passou de uma simples colagem das imagens na ordem em que elas foram filmadas.

Eu poderia me estender muito mais aqui... ainda há muito o que ser criticado. Exempli gratia: As mortes extremamente exageradas deste filme. Olha só o pulo que Emma dá quando recebe o tiro fatal. Ou no final do filme, quando a personagem de Winstone atiram alguém: a vítima dá um giro de 360º em cima do sofá!

Felizmente tudo tem seu lado oposto. Neste caso são as atuações, principalmente a de Ray Winstone, fazendo um misterioso Jedburg. Um sujeito misterioso, que sempre está nos lugares, chegando como uma raposa silenciosa. Um rapaz quase onisciente. Tudo bem, às vezes dá a impressão que ele esta imitando o Marlon Brando em O Poderoso Chefão (Francis Ford Coppola, 1972), mas já que é para imitar, imitemos do melhor.

Mel Gibson está longe, muito longe, de estar ao seu nível. OK, ele nunca foi grande ator. Teve boas personagens, e, em sua grande maioria, eram homens parecidos com este Craven. Mas nem de muito longe este rapagão que ele interpreta vai nos lembrar de um Mad Max (numa má comparação). Lamentável retorno para Gibson.

O fato é que O Fim da Escuridão nasceu para nos dar uma única lição: Tudo é proibido em Massachusetts.

Nota: 2 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

Elizabeth - A Era de Ouro

Elizabeth- A Era de Ouro

Elizabeth - The Golden Age, 2007
Dirigido por Shekhar Kapur
Roteiro de William Nicholson e Michael Hirst
Com Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Jordi Mollà, Clive Owen, Samantha Morton







A vida de personagens históricos é constantemente abordada no cinema, em filmes de cunho biográfico, mas que, de forma geral, não têm qualquer tipo de compromisso com os fatos. Algumas vezes, temos bons resultados, como "O Homem que não Vendeu sua Alma" e, em outros, resultados absolutamente medíocres, caso deste "Elizabeth- A Era de Ouro", de Shekhar Kapur.

A trama deste filme aborda a fase intermediária do governo de Elizabeth I (a primeira foi abordada no bom filme "Elizabeth, de 1998, do mesmo diretor e com a mesma Cate Blanchett). Estamos aqui no ano de 1585, período marcado por conflitos religiosos de todos os lados. E ao mesmo tempo em que a Inglaterra da rainha protestante Elizabeth se vê em ameaça pelo Império Espanhol do rei católico Felipe II, a mesma rainha se encontra envolvida em um pretenso caso amoroso com Walter Raleigh, um conquistador e navegador inglês.



Por essa sinopse, percemos que Kapur poderia ter feito um filme, no mínimo, razoável. Mas não é o caso. O roteiro é extremamente capenga e tendencioso; temos aqui a grande estadista Elizabeth, defensora do seu povo, eda liberdade religiosa,e é, de certa forma, divinizada! Do outro lado, temos Felipe II, um rei extremamente devoto ao catolicismo, que o leva a tomar decisões absurdas; de andar torto e expressões insanas, o rei é absolutamente ridicularizado.  Assim, o reino de Elizabeth aparece sempre em meio à claridade; em determinadas cenas, parece mesmo que a rainha emana uma espécie de luz própria. Por outro lado, o reino da Espanha aparece sempre na penumbra; Felipe e seus conselheiros são carracundos, e andam sempre em vestes negras. Até mesmo a filha de Felipe apresenta uma expressão sorumbática e enigmática absolutamente irritante. Mary Stuart, prima de Elizabeth, que trama contra a rainha inglesa, também aparece como uma fanática sem escrúpulos, armando contra a soberana monarca!



Não me ficou claro qual era o objetivo central dos roteiristas e do diretor, mas parece que se coloca uma espécie de superioridade do protestantismo sobre o catolicismo. E aí entram incoerências absurdas; em determinado momento, Elizabeth exclama que os navios espanhóis estão vindo e trazendo consigo a Inquisição, para acabar com a liberdade de pensamento na Inglaterra. Oras, o próprio filme mostra que os ingleses também estavam imersos em guerras religiosas, e católicos são espancados e executados! Não tomo partido aqui de nenhuma religião, mas mostrar a relação entre ambas de forma tão unilateral é constrangedor.

A tudo isso se soma a direção incompetente de Kapur,que elaborou cenas risíveis. Poderiam ser listadas dezenas, mas duas chamam a atenção: a cena da batalha entre os navios, absolutamente sem graça, com Clive Owen despontando como grande herói, é de dar nos nervos; e, quando toda a situação se resolve, vemos um Felipe desesperado, com todas as velas de seu palácio se apagando, e símbolos católicos caindo ao mar (sinos, terços), ao passo que a Rainha Virgem Elizabeth aparece "girando" (isso mesmo, um jogo de câmeras ridículo!), com as mãos abertas e toda iluminada, quase como uma santa.



Se passarmos para as questões "amorosas", que dominam 2/3 do filme a situação só piora. Como já foi dito, aturar o Clive Owen como grande galã e mais canastrão do que nunca, é difícil; e o roteiro se perde em longas seqüências completamente desnecessárias (vide a cena da dança), que resultam em algo já esperado por todos. Além disso, a tão elogiada parte técnica do filme é irregular. A fotografia, por exemplo, contribui para cenas belíssimas visualmente (todas na corte inglesa), e outras de uma artificialidade extrema (todas as da seqüência da guerra).

A única que se sai incólume é Cate Blanchett. Nem de longe a atriz tem aqui uma de suas melhores atuações, mas ela consegue o máximo de uma personagem sem muita profundida, e se destaca em meio ao "show de horrores" que é o filme. De Owen, tudo já foi falado; Jordi Mollà constrói uma caricatura do rei Felipe; e atores talentosos como Geoffrey Rush e Samantha Morton ficam completamente apagados, em papéis secundários que não lhes dão muito espaço.

Assim, "Elizabeth- a Era de Ouro" é um filme completamente inferior ao que lhe precedeu, abosultamente medíocre em termos de roteiro e direção, e que nem o talento de Cate Blanchett salva do fiasco. Mas, o que mais assusta é saber que Shekhar Kapur prepara mais um filme sobre a rainha, abordando seus últimos momentos no governo. Se for do mesmo nível deste, teremos mais um fracasso pelo caminho.


Nota: 1 em 5 estrelas

 Por Douglas Braga






quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pinkville quando?

O título do post é uma referência a como os jornalistas se referiam ao filme de Francis Ford Coppola Apocalypse Now. "Apocalypse when?" Hoje em dia temos um caso parecido.

Navegando Internet afora, me deparei com o roteiro do filme "Pinkville", que Deus sabe quando será lançado. Eu já conhecia o projeto, que, até a famosa Greve dos Roteiristas de 2007-2008, seria dirigido por Oliver Stone, baseado num roteiro de Mikko Alanne (quem é esse cara, José?).

O projeto vem se arrastando ao longo dos anos, já teve Bruce Willis e Woody Harrelson no elenco, Oliver Stone -- como dit0 -- como diretor, mas nunca saiu do papel. Vai ver isso se deva à uma série de fatores que ninguém saberia explicar, mas talvez, acima de tudo, por se tratar de uma ferida histórica, inexplicável, bizarra e grotesca que foi adquirida pelos norte-americanos durante a famigerada Guerra do Vietnã (1959 - 1975).

O filme aborda(ria) o famoso (contudo, mal explicado) Massacre de My Lai: em 1968 a Companhia Charlie, durante a Ofensiva do Tet, invadiu uma vila chamada Son My, que, supostamente abrigava vietcongs. As ordens eram claras: "Sejam agressivos." O 2º Tenente William Calley seguiu a ordem à risca e, em poucas horas, dizimou, segundo os números oficiais "128 vietcongs e 22 civis".

Após ter lido o roteiro... bem Mikko adotou uma narrativa jornalística, interessante (me lembrou JFK). Não dá para dizer como seria, de fato, mas, já que seria Oliver Stone o diretor... droga, cuidado para não massacrar My Lai de novo.

Por Victor Bruno

Tango


Tango
Tango, no me dejes nunca, 1998
Dirigido por Carlos Saura
Roteiro de Carlos Saura
Com Miguel Ángel Solá, Cecilia Narova, Mía Maestro, Juan Carlos Copes, Carlos Rivarola e Sandra Ballesteros

O prestigiado cineata Carlos Saura resolveu fazer um filme que abordasse o tema do tango. Para tanto, ele escolheu uma trama, escrita por ele próprio, onde é narrada a história de um diretor que para seu próximo filme escolhe abordar o tema do tango. Nesse momento já é perfeitamente visível onde Saura pretende nos levar com sua obra. Porém, mais do que um filme sobre o tango ou sobre o filme dentro de um filme, a parceria entre Carlos Saura e o diretor de fotografia Victor Storaro torna de Tango um manifesto sobre a arte como um todo, em seus mais diversos aspectos.

A começar pelo cinema. Cinema esse que, tal como devido, tem o lugar de destaque na obra. Desde a primeira cena, em que o personagem Mario Suárez, visível alter-ego de Carlos Saura narra os acontecimentos ao mesmo tempo em que eles se sucedem sobre ele próprio, esse papel do cinema fica claro. Por toda a extensão da obra temos diálogos e monólogos de Suárez onde sentimos que sob aquela pele, na realidade se encontra o próprio Saura, em toda sua magnitude.

Desse ponto vamos para a dança, também foco do filme, tal como nota-se pelo título. Porém, ao invés da dança como uma mera representação corporal tal qual estamos habituados, temos aqui uma dança exercendo um verdadeiro papel como arte, na forma de expressão dos personagens através dela e na crítica social inserida na mesma. Vale ressaltar que todos os números musicais do filme se tratam nada mais do que ensaios para o filme dentro do filme.


Daí partimos para a música. Música essa que tem um foco, não de servir como suporte para a dança, mas sim de se expressar em conjunto com a mesma, em uma harmonia perfeita na qual uma vem complementando a outra. Uma demonstração de exímio artístico que se torna um deleite para qualquer espectador.

Outra arte de destaque é a arquitetura representada pela cenografia de estúdio e complementada pelo jogo de luz e sombra de Storaro, onde há um predomínio de cores quentes e fortes formando um contraste com tons mais frios, dando um tom todo especial e à parte ao filme.

A literatura vem representada através do drama presente na obra. Drama esse cujo foco principal é o triângulo amoroso entre o diretor e seu investidor e sua amada/protegida. Um triângulo amoroso até que comum, mas que ainda rende belos e profundos momentos.


O teatro surge tanto por ser a alma do cinema, centralizando todas as atuações, quanto pelo tom realmente teatral que a obra tem, ao se passar quase que inteiramente dentro de um estúdio de filmagem, durante ensaios para um filme.

Até mesmo as artes plásticas tem seu espaço na obra por meio das gravuras de Goya que servem de inspiração para o penúltimo ato musical do filme, onde é feita uma representação direta do terror infligido pela ditadura militar ao povo argentino.

Por se tratar de um filme com uma metalinguagem bem reforçada, Tango acaba por se tornar uma obra extremamente ousada. Um filme no qual seus simbolismos são explícitos, com os seus personagens discutindo as mensagens que o filme busca passar. Uma obra de arte no melhor sentido da palavra e uma das melhores abordagens sobre o real papel da arte no ser humano já feitos, Tango é uma obra essencial e uma excelente demonstração de como Carlos Saura é um dos grandes nomes do cinema mundial.

Por Jorge Balseiros *

Jorge Balseiros é um free-lancer para o Ornitorrinco Cinéfilo

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

The Social Network - 176/5

Em 26 de setembro foi lançado -- durante o Festival de Nova York -- o filme The Social Network, do cineasta David Fincher, a esperada adaptação para os cinemas do livro The Accidental Billionaires. Agora que o filme foi lançado para o grande público, temos mais críticas, e finalmente posso postar como o aguardado filme foi recebido pela imprensa.

Vamos para o Rotten Tomatoes: o "tomatômetro" marca neste exato instante, 22h34, 97%. De 186 críticas agregadas pelo site, 176 foram positivas, contra 5 negativas. Das duas uma, ou os cinco críticos que não gostaram do filme estavam chapados, ou o mundo inteiro está cometendo um erro terrível (e a segunda opção não é tão incrível assim, isso já aconteceu antes).

Mas, enfim. Se você é um dos que não confiam no Rotten, vamos para o Metacritic (se é que alguém confia nele, enfim). Num número bem (e bota "bem" nisso) menor de críticas, 41, o marcador aponta 95% de aprovação, com 40 críticas positivas contra uma média.

Sendo assim, David Fincher detona. E nós temos que esperar até o dia 3 de dezembro para assistir. Até lá, eu engulo Harry Potter.

Por Victor Bruno

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Videocast Ornitorrinco Cinéfilo - Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock Presents rules!



Por Victor Bruno

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

E ela falou: "Digamos que este não é um filme clichê"

Nesta sexta feira tive uma pequena experiência. Eu diria que foi no mínimo estranha. Duas garotas -- minha prima e uma amiga nossa -- estavam aqui. Papo vai, papo vem, minha prima acabou se lembrando de uma passagem de Os Infiltrados (Martin Scorsese, 2006). Era a cena em que Costello (Jack Nicholson) "interroga" o Costingan (Leonardo DiCaprio), utilizando "métodos não convencionais". Como bom fã de Scorsese, disse que era um dos meus prediletos dele (foi o calor do momento), e que tinha o DVD em casa.

Fomos assistir o filme.

Não poderia ser uma experiência mais estranha. Elas são fãs da "Saga" Crepúsculo.

O horror. O horror.

Mas o que eu poderia fazer? O filme tem um grande atrativo para essas duas meninas em questão: o fator Leonardo DiCaprio. De quebra tem Matt Damon.

Fomos assistir no quarto. Liguei a TV, o home theater. Assistimos a abertura...

Honestamente eu estava tenso. Duas fãs de Crepúsculo do meu lado, assistindo um Scorsese. Mesmo que não seja o melhor do Scorça, é um grande salto, como diria Neil Armstrong. Não só para elas, mas como para humanidade. Uma nova experiência para duas fãs de um cinema... OK, Twilight não é cinema. (Sinto muito, crepusculetes.)

Eu devo dizer que subestimei a inteligência, intelecto e capacidade de interpretação das meninas. Aliás, subestimei tudo o que poderia ser subestimado nelas. Mas o que eu posso fazer, não tem o Robert Pattinson e o Taylor Lobão passando no aspect ratio de 2:35.1 do filme. Salvo algumas partes que tive que explicar calmamente o que não ficou compreensível para elas (embora estivesse extremamente claro, claro como o dia, para mim), e outras que eu precisei acorda-las. Fora isso, tudo bem.

Esse tudo bem, aparentemente tão banal agora, me pegou de surpresa. A primeira experiência delas com um Scorsese não poderia ser assim tão boa. Tem que ter algo errado nisso!

E teve. A cena do elevador.

Eu fui me lembrar disso tarde demais.

Quando a porta do elevador que DiCaprio estava com a personagem do Damon se abriu e a sua cabeça explodiu foi um ponto de virada na minha experiência. A princípio eu escutei um suspiro de surpresa, da nossa amiga. Depois a voz da minha prima "tocou o som do silêncio", como diria a música.

"Filme ruim!"

Depois disso não importava mais para as duas. O DiCaprio morreu! Meu Deus, como poderia lidarem com isso? Felizmente elas se acalmaram no final, quando o Matt Damon morre (e todo mundo morre, também).

Mas a noite das duas estava arruinada. O herói estava morto. Elas não estão acostumadas a esse tipo de filme, onde o "mal triunfa" (o que não é o caso deste. É só uma questão de interpretação). Mas não importava. Eu escutei uns cinco minutos de explicação da minha prima, blá, blá, blá... Até que o crítico de cinema xiita que existe em mim explodiu, e disse:

"Você está querendo matar o filme inteiro por causa de UMA CENA, por que o p**** do DiCaprio morreu! Não é um filme do tipo que o bonzinho vive no final!"

E é verdade. Mas, isso importava para ela? Ela faz parte da filosofia que diz que a realidade já é suficientemente ruim, então por que assistir um filme que é um espelho da realidade? (Eis uma explicação para a onda "Crepúsculo e afins".)

Eis que a nossa amiga (não vou citar o nome de nenhuma das duas) falou algo sensacional. Talvez a melhor explicação para este tipo de filme que Scorsese faz. E ela falou: "Digamos que não é um filme clichê."

Silêncio. Senti uma onda de alegria por dois motivos: 1) Ao contrário do que eu pensava, crepusculetes têm senso de observação. 2) Ela não dormiu durante o filme.

E assim a minha noite terminou feliz. Ela havia filosofado o filme e -- aparentemente -- não ficou tão afetada com a morte do DiCaprio.

Então o carro do seu irmão chegou. Nós nos despedimos. Ela entrou no carro e saiu enquanto eu ostentava um riso de orelha à orelha.

Por Victor Bruno

Roteiros - Cleópatra

Mais megalomaníaco impossível.

Clique aqui para baixar.

Por Victor Bruno

domingo, 3 de outubro de 2010

Monty Python e Rowan Atikinson

Dois esquetes geniais de gênios da comédia (apesar de Rowan Atikinson ter um gosto duvidoso para os seus filmes...).





Por Victor Bruno

sábado, 2 de outubro de 2010

Um Corpo que Cai

Um Corpo que Cai
Vertigo, 1958
Dirigido por Alfred Hitchcock
Roteiro de Alec Coppel & Samuel Taylor (baseado no livro D'Entre les Morts, de Pierre Boilau e Thomas Narcejac)
Com James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore

À priori, o que se espera quando nos sentamos para ver um filme de Alfred Hitchcock? A gente vai esperando ver algo assustador, tenso, mergulhado em sobras, e com altas doses do bom e velho voyeur (até por que nós somos todos voyeurs, querendo ou não). Nós sempre teremos grandes esperanças de assistir o puro cinema quando aparece no letreiro "Alfred Hitchcock's..." Ao meu ver, Hitch é o único que pode colocar seu nome acima dos créditos, por que, em qualquer momento que ligamos a televisão, poderemos reconhecer que aquilo que está aparecendo é um filme do criador de Psicose (1960).

Você pode até achar que Psicose é o melhor filme do mestre inglês do suspense. Tudo bem. Você não está enganado. Não vou nem perder meu tempo escrevendo que Psycho é um dos melhores filmes já, blá, blá, blá...

Consequentemente salvei o seu tempo.

O que me faz ter uma piração com este filme de Alfred Hitchcock é como a obsessão de um homem e as decisões erradas podem transformar tudo numa catástrofe completa. Se essa chave para um dos enredos mais sensacionais que eu, como cinéfilo, já pude ver. O detetive Scottie Ferguson (Stewart) descobre que tem acrofobia (medo de altura) no pior momento possível. Ele e um policial estão perseguindo um bandido pelos telhados de São Francisco, numa cena antológica. Scottie perde o equilíbrio e fica por um fio, pendurado na calha de uma das casas. Seu parceiro vai ajudá-lo e cai. Scottie fica traumatizado e se aposenta, até que um ex-colega lhe pede para espionar sua esposa. Não que ela esteja traindo-o, mas por que suspeita que ela esteja sendo possuída por um espírito de uma antiga habitante da cidade, que se matou exatamente quando tinha a mesma idade da sua atual esposa.


Se a sinopse do filme fosse só essa, meu Deus, o filme seria um delírio para a mente. Alfred Hitchcock mexendo com o sobrenatural é uma oportunidade única. Entretanto, o filme não para aí. Hitchie quebra seu filme em duas partes distintas. Aliás, assim como Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, Stanley Kubrick, 1987), Vertigo é um filme de dois atos, ao contrário das produções mais comuns, que se dividem em três. Mas talvez isso se deva ao fato deste não ser um filme comum.

Aqui temos de tudo um pouco. Obsessão, amor, suspense, surpresas, voyeur, etc. E ainda pitadas da filosofia de Carl Gustav Jung sobre os sonhos, a sequencia do pesadelo de Scottie é um primor. Hitchie fala de tudo isso com maestria, auxiliado por um ótimo roteiro de Alec Coppel e Samuel Taylor.

Falando em pesadelo, o filme, inicialmente tratado à pancadas pela crítica, foi tachado de "Um pesadelo em Technicolor." Não há melhor definição para esta obra do que esta. O filme é cheio de cores e tons. Na segunda metade do filme tende mais para o verde. Durante a sequência do pesadelo -- a minha favorita -- tende para o vermelho (repare nos inserts coloridos). As roupas que Madeleine (Novak) usa, principalmente o conjunto cinza, também tem seu significado. Nada neste pesadelo não tem a sua devida justificativa.


Mas tudo isso não seria útil sem a excelente atuação da dupla principal. James Stewart (em sua última colaboração com Hitchcock) faz um ótimo Scottie Ferguson. Um homem obcessivo e amargurado, frustrado, e com um enorme peso nas costas. Kim Novak merecia um parágrafo à parte. Seus transes, quando está sendo "possuída" pelo espírito são sensacionais. Barbara Bel Geddes está boa, mas num papel totalmente desnecessário.

Hitchcock faz aqui sua obra-prima. Apesar de ser difícil escolher uma entre tantos filmes exemplares. Mas já que temos que fazer isso, escolheremos esse, certo?

Antes que eu me esqueça: O filme já valeria a pena só pela sequência do título, feita pelo gênio Saul Bass.

Por Victor Bruno

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