Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (crítica II)

Para Victor Bruno, a última parte da saga de Harry Potter não é nada demais, nem nada de menos. Apenas o suficiente

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

A saga de Harry, Hermione e Ron chega ao fim e Douglas Braga não gosta nada da sua conclusão

Especial David Fincher: A Rede Social

Na última parte do Especial, relembre o que Victor Bruno escreveu sobre A Rede Social, mais recente filme de David Fincher

Especial David Fincher: O Curioso Caso de Benjamin Button

Victor Bruno faz uma análise de O Curioso Caso de Benjamin Button, no penúltimo filme comentado neste especial

Especial David Fincher: Zodíaco

O nosso especial sobre David Fincher continua com Douglas Braga falando sobre Zodíaco, mais um thriller investigativo do norte-americano

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Possível retorno da dupla DeNiro/Scorsese

Rumores das agências de notícias falam de um possível projeto de Robert DeNiro (New York, New York, Estamos Todos Bem) com Martin Scorsese (Vivendo no Limite, Alice Não Mora Mais Aqui).

O projeto -- que até agora se chama I Heard You Paint Houses -- seria sobre a máfia irlandesa e seu possível envolvimento com o -- nebuloso -- assassinato do líder sindical Jimmy Hoffa. O filme seria escrito por Steven Zaillian (O Gangster, A Lista de Schindler) baseado no livro I Heard You Paint House, do jornalista Charles Brandt, que colheu depoimentos do gângster Frank "The Irishman" Sheeran, possível assassino de Hoffa (além de ter o currículo de meros 25 assassinatos).

O nome do filme e do livro, I Heard You Paint Houses, literalmente "Eu escutei você pintar casas", seriam as exatas palavras que Hoffa disse para Sheeran quando o conheceu. Além do mais, "paint houses" é um código para assassinato.

Agora é só esperar para dar certo. Enquanto isso o cineasta está envolvido na pré-produção do filme The Invention of Hugo Cabret, que está previsto para 2011 e seria lançado em 3D. Torço para que não.

Jukebox

O jukebox é um equipamento normalmente utilizado em bares e lanchonetes para tocar músicas mediante pagamento.

O que jukebox tem haver com cinema? Tudo. Eu quis pegar este ícone dos bares (tente entrar em algum e não ver um jukebox alí no canto tocando Beto Barbosa) e transforma-lo num adjetivo para diretores que utilizam música não-original em seus filmes. Normalmente esses diretores sairam do gueto (Tarantino é um bom exemplo) e foram criado com a música popular da época. Dependendo do diretor, dá certo.

Portanto resolvi elaborar minha lista dos melhores diretores jukebox.

  1. Martin Scorsese
  2. Stanley Kubrick
  3. Quentin Tarantino
  4. Cameron Crowe
  5. Joel Coen e Ethan Coen

domingo, 25 de abril de 2010

Maldito seja... Quentin Tarantino


Aperte o gatilho, Tarantino...

Certamente eu vou ser linchado em praça pública ao final desse texto (isso se os leitores chegarem a terminar o texto, tamanho o ódio que sentirão por esse pobre crítico).

Quentin Jerome Tarantino nasceu em Knoxville, Tennessee em 27 de Março de 1963. Ele é conhecido pelo seu enorme conhecimento cinematográfico, tanto dos filmes de arte quanto aos pop (do qual eu considero que ele faz parte). Ele é formado em atuação e em cinema. Segundo o próprio Quentin, se você quiser ser um bom diretor, deve saber atuar. Não vejo lógica mas...

Bem, eu, particularmente, não venero Tarantino, não acho ele um deus cinematográfico, alguém que saiu do céu e veio filmar entre nós. Não que o trabalho inteiro de Tarantino seja ruim, não é.

Os dois primeiros filmes dele -- Cães de Aluguel, Pulp Fiction --, no meu ponto de vista, são os melhores da sua carreira, e como eu sou bastante indiossincrático vou neste exato momento despertar a ira de muitos cinéfilos: Cães de Aluguel não é uma obra indiscutível do cinema mundial. Os fanáticos tarantinescos dizem que a cena final é extremamente shakespeariana. Se Tarantino tem cultura para ler Shakespeare eu quero que um raio caia na minha cabeça. Não estou discutindo a qualidade desta obra, que é uma das melhores dos anos 90 (mas não entra no Top 10). De qualquer forma suas críticas postivas são apropriadas.

E assim partimos para a obra máxima de Tarantino: Pulp Fiction (este sim entra no Top dos anos 90). Sua história contada de forma não-linear é espetacular (méritos também para a sempre eficiente editora Sally Menke e ao contrário do que dizem, Tarantino não inventou a técnica). Não é um Cidadão Kane da vida, mas mesmo assim tem grande valor artístico.

Se Tarantino tivesse um aneurísma, diabetes, se ele se matasse, explodisse um carro consigo dentro, tivesse a doença que faz as pessoas morrerem em Fim dos Tempos... enfim se ele tivesse parado de filmar eu diria que ele é um grande diretor. Jackie Brown é um bom filme, mas não é excelente. É um filme médio e Samuel L. Jackson leva-o nas costas durante a projeção inteira. E daí as coisas degringolam.

Quando escuto alguém dizer que Cães de Aluguel influenciou Os Bons Companheiros eu sinto vontade de matar cruelmente o autor desse delito, mas não há nada pior do que escutar "Kill Bill é o melhor filme do mundo." Quem é esse terrorista?! Deveriam fazê-lo engolir uma granada!

Tarantino era um jovem promissor. Parece que com o passar do tempo ele absorveu toda cultura que um nerd gordo comedor de cheesebacon tem. Filmes de kung-fu (que em geral não são ruins) e a porcaria dos filmes B em em seu Grindhouse (apesar do seguimento dirigido por Robert Rodriguez ser bem divertido) me fazem renegar esse sub-Oliver Stone.

Agora ele veio com Bastardos Inglórios. Não é um filme ruim. Conta pela atuação de Christoph Waltz. Talvez seja superior que os seus últimos "filmes", mas não é engenhoso como seu Pulp Fiction.

Por isso Tarantino, do jeito que está, jamais integrará as Cadeiras Especiais deste blog.

O Portal do Paraíso


O Portal do Paraíso
Heaven's Gate, 1980
Dirigido por Michael Cimino
Escrito por Michael Cimino
Com Kris Kristofferson, Christopher Walken, Isabelle Huppert, Jeff Bridges, John Hurt

O que leva um diretor sair do pedestal de gênio para a negação total? Aliás, como você consegue chegar ao status de gênio? Se você quiser a resposta, pergunte para quem viveu essa experiência na pele: Michael Cimino (O Franco-Atirador, O Ano do Dragão). Ele era o homem que tinha tudo, a adimiração total dos críticos no ano de 1978, mas perdeu todo o crédito possível.

Qualquer pessoa que goste de cinema já deve ter se perguntado, qual é o filme mais longo do mundo? Seu nome é A Cura para a Insônia, com espetaculares 85 horas. Há também o chamado O Filme Mais Longo e Mais Sem Sentido do Mundo, de 48 horas. Claro que esses filmes citados são experimentais, mas e quando alguém decide fazer uma obra de proporções monumentais? Dependendo do diretor a receita pode virar uma catástrofe gigantesca, como o que aconteceu com esse O Portal do Paraíso. A versão que assisti (e que vou comentar a partir do próximo parágrafo) é a legendária Versão do Diretor, uma das 500 versões já lançadas deste filme. Ela tem 219 minutos; mais de 3 horas e meia de filme. Consequentemente essa crítica promete ser enorme.

O filme conta a história de James (Kristofferson), um ex-formando de Harvad. Ele é xerife do condado de Johnson, o principal destino de imigrantes eslavos no final do século XIX. Com essa onda de imigração os membros da Associação do Wyoming de Criadores de Gado começam a ficar irritados, pois os imigrantes estão tomando posse da terra onde seus animais pastam. Sendo assim, eles começam a pedir apoio ao governo (tanto estadual como federal) para formar um grupamento formar uma lista de morte com 125 nomes, "praticamente o condado inteiro."

James, como xerife, tem a obrigação de protejer essas pessoas, e ele tem um motivo ainda maior: Elle (Huppert), uma cafetina, está citada na lista, e ela é o grande amor da sua vida. Como se já não bastasse, Nathan Champion (Walken), um dos membros da associação também está apaxionado por Elle. Então aqui temos duas histórias paralelas com as mesmas personagens.


É impossível tratar este filme como uma obra convencional, tanto para quem gostou como não. Cimino tentou fazer um trabalho para quebrar todas as barreiras já estabelecidas no cinema. Ele tentou colocar seu nome na história do cinema mundial como o homem que revolucionou o modo de se fazer filmes, e quis que este filme fosse uma obra para a eternidade. De certo modo ele conseguiu. Vamos aos fatos:

  • Inicialmente o orçamento de Heaven's Gate era de 11.6 milhões de dólares, subiu para 30 milhões. No final Cimino estourou, finalizando em 44 milhões de dólares.
  • Cimino ordenou a construção de uma cidade no meio do deserto para uma única cena.
  • No 6º dia de filmagem a equipe estava atrasada 5 dias no calendário de produção.
  • Cimino era chamado de Aiatolá pela equipe do filme por suas extravagâncias. Ele não sabia disso.
  • Ao final das filmagens, Cimino tinha mais de 1.3 milhões de pés de negativos, algo como 220 horas de filmagens.
  • Dois seguranças armados ficavam de prontidão na porta da sala de edição. Suas funções: impedir a entrada dos executivos do estúdio para não se intrometerem no processo de edição.
  • A primaira versão de O Portal do Paraíso tinha 5 horas e 25 minutos. Os executivos da United Artists conseguiram convencer Cimino a re-editar o filme, baixando o tempo para 3 horas e 39 minutos.
E você sabe qual foi o resultado final quando lançado em sua premiere em Nova York? Fracasso absoluto, um fiasco gigantesco, de proporções jamais vistas até então. O crítico Roger Ebert (conhecido por ser o único a defender 2001 - Uma Odisséia no Espaço na altura do seu lançamento) fez o seguinte comentário: "A obra cinematográfica mais escandalosa que eu já vi, e se eu bem me lembro, eu assisti Os Aventureiros do Ouro."


O filme saiu de cartaz imediatamente após a segunda sessão, e ressurgiu seis meses depois com 149 minutos de duração. Não salvou. Naquele mesmo ano o filme foi indicado para a Framboesa de Ouro nas seguintes categorias:
  • Pior Diretor (Michael Cimino) (ganhou)
  • Pior Filme
  • Pior Roteiro
  • Pior Trilha sonora
  • Pior Ator (Kris Kristofferson)
Já na Europa a recepção foi completamente diferente: exibido no festival de Cannes. Muitos críticos europeus chamam este filme de "obra-prima" ou "um vigoroso e cruel retrato da sociedade americana". Até mesmo dentro dos EUA muitos estudiosos sobre o cinema, como o cineasta Martin Scorsese, classificam o filme como um dos melhores filmes já realizados.

Aonde quero chegar? Bem, quero traçar um parâmetro entre as críticas que o filme recebeu naquela época e hoje, com um olhar totalmente novo, 30 anos depois.

Kris Kristofferson faz um bom Averil, seu olhar plerpexo retrata tudo o que o espectador não consegue ver. O descaso das altoridades para com os imigrantes. Walken faz um Champion doentio, ele é a encarnação do Cheyenne de Era Uma Vez na América, aparecendo com duas armas e atirando antes de pensar. A bela Isabella Huppert faz uma Ella morta, que não passa muita emoção. Aliás, estão todos mornos neste filme, mesmo com traços psicológicos tão distintos.


Roteiro e direção não andam lado a lado aqui. Cimino filma muitas cenas de nudez, o que faz parecer que ele é um pervertido. Um exemplo claro é quando Ella ganha sua carruagem e sai correndo nua pela casa com a câmera em plano aberto e frontal. É realmente necessário? Se a direção de Cimino é extravagante e ruim, seu roteiro faz bonito com diálogos bem interessantes, que vez ou outra remetem aqueles velhos Westerns de Leone (vale lembrar que o gênero Western já estava morto a algum tempo). Suas personagens são capazes de ter diálogos maravilhosos, como quando James e um ex colega de Harvard, hoje telégrafo, conversam: "Ser pobre na América está ficando perigoso", diz seu amigo. James responde: "Sempre foi." Sensacional.

Se nada disso lhe agradar pelo menos a fotografia de Vilmos Zsigsmond podemos aproveitar. As fotos que ilustram essa crítica valem mais do que mil palavras.

Se estou nadando contra a corrente até agora, vou dar meia-volta e concordar com a crítica: a edição deste filme é uma das piores que já vi. Algúem deveria ter alertado Cimino que uma duração tão longa não iria funcionar com uma história que caminha a passos tão lentos. Aliás, devem ter avisado, ele é quem não ouviu. Nota-se também a arrogância de Cimino ao utilizar o letreiro "Michael Cimino's" isolado do nome do filme (normalmente quando os diretores utilizam esse recurso seu nome vem junto do nome do filme), sem contar que na longa sequência dos créditos iniciais seu nome aparece três vezes.


Michael Cimino quase conseguiu filmar uma obra arrebatadora. Ele fez isto na época errada e estava no lugar errado também. O público já não queria saber mais das burradas norte-americanas. Eles já haviam pagado caro pelo Vietnã. Spielberg e Lucas estavam em voga pela sua proposta alternativa de entretenimento. Mas isso não tira o mérito desta quase obra prima.

***

E Cimino? O que aconteceu com esse ex-gênio? Seu destino bem que poderia ser uma tragédia grega: em 1984 Cimino foi convidado pela Paramount para dirigir Footlose. Ele ficou 6 meses na direção do filme e começou a fazer pedidos mais e mais extravagantes. Quando a Paramount viu que tinha um novo Heaven's Gate na mão demitiu-o. Então ele ficou vagando, até que conseguiu realizar seus próximos filmes: O Ano do Dragão e O Siciliano. Hoje em dia ele se aventura como escritor (já ganhou prêmios, inclusive da Academia Francesa). Recentemente fez uma cirurgia para mudança de sexo e se chama Elizabeth.

Nota: 3 estrelas em 5

Por Victor Bruno

sábado, 24 de abril de 2010

A Época da Inocência


A Época da Inocência
The Age of Innocence, 1993
Dirigido por Martin Scorsese
Roteiro de Jay Cooks & Martin Scorsese (Baseado no livro de Edith Wharton)
Com Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Michelle Pfeiffer, Robert Sean Leonard e Joanne Woodward como a Narradora

Na época do lançamento deste filme, Martin Scorsese disse em entrevista que este é o seu filme mais violento. Eu não discordo. No meu ponto de vista, nada destrói mais do que um amor platônico, ou um amor não correspondido. Este é um dos filmes mais subestimados de Scorsese, e eu, sinceramente, não entendo por que. A Época da Inocência não perde em nada comparado a filmes como Os Bons Companheiros e Touro Indomável. É tão belo e elegante quanto esses dois.

Antes e após assistir este filme li algumas críticas e comentários de outros sites e blogs Brasil afora. Num deles encontrei a seguinte citação:

Nos créditos iniciais dos filmes americanos geralmente aparece 'A film by Martin Scorcese' ou 'A Martin Scorcese film' mas no caso deste "A Época da Inocência" aparece 'A Martin Scorcese Picture', sendo que entre os significados de 'picture' pode estar 'pintura' ou 'quadro' e neste caso poderia significar 'Uma Pintura de Martin Scorcese'. E realmente o visual do filme é belíssimo e poderia muito bem ser uma 'pintura', uma obra de arte.


Concordo plenamente com a segunda parte. Gostaria de lembrar que não foi neste filme que Scorsese começou a utilizar o letreiro "A Martin Scorsese Picture". Foi a partir de Touro Indomável que ele começou a utlizar. Realmente seus filmes são uma pintura; "a picture".

Na década de 1880, Newland Archer (Day-Lewis), um jovem e promissor advogado, está prestes a se casar com a bela, doce e angelical May Welland (Ryder), só que Archer acaba conhecendo a prima de May, a Condessa Olenska (Pfeiffer). Ela está se divorciando (algo de outro mundo para a época retratada no filme) de seu marido e Newland é o encarregado do caso, mas surge um problema: ele se apaixona por Olenska e não consegue esquece-la por nada.

É apartir desse triângulo que Scorsese no conta uma crítica voraz a sociedade e suas tradições retrógadas. Creio até que o nome da personagem de Day-Lewis é uma referência a América. Traduzindo seu nome é "Nova terra", se é uma terra nova, por que seguir velhas tradições. É como a personagem de Michelle Pfeiffer diz a uma altura do filme: "A América é uma terra nova, por quê fazer daqui a cópia de um outro país?"

As interpretações estão senssacionais. Daniel Day-Lewis (O Último dos Moicanos, Sangue Negro) faz um excelente Newland Archer, um sujeito cheio de dúvidas e incertezas. As mulheres do trio de protagonistas também estão muito boas, embora eu tenha preferido a interpretação de Ryder.


Scorsese está em excelente forma. Ele consegue encaixar mesmo num filme de época seu estilo movimentado. O roteiro desse filme é dele, escrito com seu amigo Jay Cocks (que é co-roteirista de Gangues de Nova York e escreveu junto com Martin a primeira versão de Silence). Aliás, falar desse roteiro é falar de uma peça única no cinema americano.

A fotografia de Michael Ballhaus está impecavel, variando entre o vermelho, amarelo, laranja e branco, combina muito bem com o clima. Aliás ela pode incomodar um pouco em cenas internas, dando Q claustrofóbico.

A edição de Thelma Schoonmaker está impecável. Gosto muito das transições quando ela utiliza o fade colorido, ou na cena em que Newland entrega um bilhete e o mesmo aparece num canto da tela, ou na cena final, quando o fundo da cena muda, mas o rosto de Newland permanece.

Enfim, é um filme obrigatório. Aliás esta crítica à sociedade, em todas as épocas, é o Barry Lydon de Scorsese.

Nota: 5 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Fim dos Tempos

Prólogo:
Não gosto de comentar sobre filmes que vi na TV (ou, no meu caso, TV a cabo) pois tenho medo de ter perdido algo, devido aos cortes que eles sofrem. Não sei se na TV a cabo é assim também. Mesmo assim, sinto que preciso falar desta obra. Shyamalan é um cineasta incompreendido, e creio que ele precisa de defesa. Por isso me lancei nesta empreitada. Eis a crítica.


Fim dos Tempos
(The Happening, 2008)
Dirigido por M. Night Shyamalan
Escrito por M. Night Shyamalan
Com Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, Frank Leguizamo

Não acho M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido, Corpo Fechado) um cineasta ruim. De forma nenhuma, e arrisco que, como diretor, ele é um dos melhores da última década. O problema dele é como roteirista. Não que ele seja ruim, mas deixa a desejar em alguns pontos. Nada melhor do que fazer um julgamento agora, às vésperas do lançamento do seu novo filme O Último Mestre do Ar, baseado na série animada Avatar: O Último Mestre do Ar.

Certo dia, um estranho evento acontece em Nova York: operários de uma construção começam a se jogar do alto da constração, num suicídio coletivo. Esta cena, por sinal é uma das mais chocantes, visualmente belas e bem dirigidas dos últimos tempos. Logo o suicídio coletivo se espalha por outras áreas da região metropolitana de Nova York. Sendo assim, a cidade é evacuada. As autoridades temem que seja um ataque terrorista, mas o problema é que os suicídios não ficam restritos somente em Nova York, e se espalha a outros estados do Nordeste dos EUA. O professor Eliott Moore (Wahlberg) logo recebe a mensagem que as aulas estão suspensas. Ele rapidamente chega em casa onde sua esposa Alma (Deschanel, incrivelmente bela) o espera para partir em fuga para a cidade de Filadélfia. Eles irão de trem. Na estação o melhor amigo de Eliott e sua filha esparam por eles. Assim eles vão de trem. Daí para frente as coisas degringolam.


O fato é que Shyamalan teve o mesmo destino de Francis Ford Coppola (Apocalípse Now, Drácula de Bram Stocker): todo mundo espera um novo O Sexto Sentido por parte de Shyamalan, assim como todos esperam um novo O Poderoso Chefão por parte de Coppola. Isso nunca irá acontecer. Mas... por que ficar olhando para o passado quando Shyamalan está aí com bons filmes. Claro que não tão bons quanto o filme estrelado por Bruce Willis e Halley Joel Osment, mas mesmo assim têm seu valor artístico e intelectual. Corpo Fechado fala do ser que não é perfeito, Sinais fala do passado não perfeito, A Vila fala de uma comunidade que não pode ser perfeita. (Não posso falar de A Dama na Água por que ainda não o vi.) Parece até que só eu consigo ver isso! Shyamalan não é um diretor de blockbusters (mesmo que seus filmes terminem com essa tachação).

Shyamalan não construiu um filme filosófico ou reflexivo como os anteriores. Ele construiu um filme B. E sendo assim, vou trata-lo desse jeito. Whalberg faz um papel eficiente, morno, assim como todos os outros aqui. Zooey Deschanel (repito, ela é linda!) faz um papel fraco, mas que se encaixa no filme. Talvez suas caras e bocas tenham me incomodado um pouco durante a projeção. Se eu posso reclamar de alguém eu faço isso com a filha do casal protagonista, Ashlyn Sanchez. Um papel completamente dispensável. Parece até que foi por obrigação, como os finais surpreendentes que ele é obrigado a por (e ao contrário do que dizem, a mim o final foi "surpreendente").



Shyamalan é um artista, disso não há dúvida. Aqui não é diferente. Todas as cenas dos suicídios, por mais bizarro que sejam, são plasticamente belas e perturbadoras (a cena, gravada por um celular, que mostra um homem se matando deixando que leões comam seus membros me assombra até agora).

O roteiro cumpre sua função de filme B, mas analisando como um roteirista, é um ruim. Comparando com os outros roteiros do próprio M. Night (e eu sei que fazer isso é uma idiotice) o filme não tem toda aquela pegada, e o desenvolvimnnto das personagens não é tão bom como o de Malcolm Crowe, David Dunn ou o de Grahan Hess.

O filme conta ainda com uma bela fotografia de Tak Fujimoto e uma excelente trilha sonora do magnifico Thomas Newton Howard (que colaborou em todos os filmes de Shyamalan).

Isso é o que eu acho sobre Fim dos Tempos, um filme para se sentar e se divertir, mas ninguém me tira da cabeça que se o filme fosse feito por qualquer outro cineasta com certeza a crítica que massacra o pobre M. Night chamaria isto de um grande filme.

Nota: 2 estrelas em 5

Por Victor Bruno

Assistam

Assistam meu curta Shorts no Youtube. Preciso do veredito de vocês. Não há nenhuma história visível, é apenas um exercício de estilo. (Se bem que pode ser encarado como um simbolismo de liberdade.)

Eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=9oul4ZaC1tg.

domingo, 18 de abril de 2010

Séries de TV

Como dito no primeiro post do blog, a gente não ficaria retido apenas em cinema. Vez ou outra falaríamos de TV. Hoje resolvi postar comentários sobre as minhas séries de TV favoritas. Aqui estão elas:

Two and a Half Men
Criada por Chuck Lorre & Lee Aronsohn
Com Charlie Sheen, Jon Cryer, Angus T. Jones, Marin Hinkle, Holland Taylor e Conchata Farrel
Atualmente na 7ª temporada.


Um aspecto interessante de observar aqui é que tanto Sheen, como Cryer e Taylor participaram de filmes com o roteirista e diretor John Hughes: Charlie Sheen participou de Curtindo a Vida Adoidado, Jon Cryer participou de A Garota de Rosa-Choque e Holland Taylor participou de Ela Vai Ter um Bebê.


A série conta a história de Charlie Harper (Sheen), um hedonista mulherengo e alcoolatra que "trabalha" compondo jingles e músicas para crianças. Um belo dia seu irmão Alan (Cryer) liga dizendo para ele que sua mulher Judith (Hinkle) o expulsou de casa (que era propriedade de Alan, na verdade) e que os dois se separaram. A série basicamente mostra como Charlie, um preguiçoso de marca maior sempre se dá bem e Alan, que é trabalhador, sempre alterna "humilhações e fracassos".

Chuck Lorre (também criador de The Big Bang Theory) nos brinda com uma comédia extremamente divertida.

The Big Bang Theory
Criada por Chuck Lorre & Bill Prady
Com Johnny Galecki, Jim Parsons, Kaley Cuoco, Kunal Nayyar, Simon Helberg


A série conta a história d0s físicos com PhD Leonard (Galecki) e Sheldon (Parsons) e seus amigos Rajesh "Raj" (Nayyar) e Howard (Helberg). Salvo Sheldon (que tem manias que podem ser classificadas como sintomas do TOC e é extremamente narcisista) todos tem o objetivo de conquistar garotas, mas por serem nerds isso gera dificuldades.


Interessante idéia de Lorre em utilizar equações e os mistérios do universo a serviço da comédia. E eu me sinto prestigiado já que me identifico bastante com as personagens de Galecki e Parsons.

Friends
Criado por David Crane e Martha Kauffman
Com Jennifer Aniston, Courtney Cox Arquette, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc, Matthew Perry, David Schwimmer
Encerrada na 10ª temporada


A série que mudou o jeito de se fazer comédia nos anos 90 e no início dos anos 2000 me deixou um vazio no coração quando acabou. Isso por que eu sou extremamente apegado ao passado, principalmente na época do final dos anos 90 e no início desta década. E eu não sei por que.


Friends contava a história de seis amigos: Rachel (Aniston), Monica (Cox Arquette), Pheebs (Kudrow), Joey (LeBlanc), Chandler (Perry) e Ross (Schwimmer). Eles viviam num apartamento no edifico Greenwich Village (onde John Lennon morava). A série mostrava as aventuras e desventuras amorosas e profissionais dos seis amigos.

Dexter
Criada por James Manos, Jr (baseada no livro Querido e Devotado Dexter, de Jeff Lindsay)
Com Michael C. Hall, Julie Benz, Jennifer Carpenter, Erik King, David Zayas, C.S. Lee
Atualmente na 5ª temporada


Tanto o livro como a série são sensacionais. As aventuras sombrias de Dexter (C. Hall) beiram a fantasia e a insanidade.

A série conta a história de Dexter, um funcionário da polícia de Miami que trabalha com o espalhamento do sangue na cena do crime. Segundo ele o sangue nos conta história. Além disso ele tem que manter em segredo a todos que ele é um assassino psicopata. Inclusive de sua namorada.

Eu, a Patroa e as Crianças

(My Wife and Kids)
Criada por Don Reo & Damon Wayans
Com Damon Wayans, Tisha Campbell Martin, George O. Gore II, Jennifer Freeman, Parker McKenna Posey, Noah Gray-Cabey
Encerrada na 5ª temporada

Sem dúvida o melhor trabalho de Damon Wayans (A Hora do Show) na vida. O cotidiano de Michaek Kyle e sua família é um retrato primoroso de uma família à beira de um ataque de nervos bem unida. E faz muito bem mostrar os perigos de ser adolescente (e também ter como pai um homem que vive de acordo com aquela música do Alphaville).

Todo Mundo Odeia o Chris
(Everybody Hates Chris)
Criada por Chris Rock & Ali LeRoy
Com Terry Crews, Tishina Arnold, Tequan Richmond, Imani Hawkin, Vincent Martella e Tyler James Williams como Chris
Encerrada na 5ª temporada

A infância nada saudável de Chris Rock é um prato cheio para quem gosta de uma boa comédia. Acho que o destino de Chris era certo, com um pai com dois empregos (sendo um deles de madrugada e uma mãe completamente nervosa. Outra boa série cancelada. Malditos sejam os americanos que gostam de Seinfeld.

Os Simpsons
(The Simpsons)
Criada por Matt Groening (Desenvolvida por James L. Brooks & Matt Groening & Sam Simon)
Com Dan Castellaneta, Julie Cravner, Nancy Cartwright, Hank Azaria, Harry Shearer
Atualmente na 22ª temporada

Eu nem precisava falar nada sbre esta série, mas seria um crime também ficar calado. Apenas uma coisa para falar, e isto resumirá tudo sobre esta maravilhosa comédia: é a série com maior longetividade da TV.

Terra de Ninguém


Terra de Ninguém
(Badlands, 1973)
Dirigido por Terrence Malick
Escrito por Terrence Malick
Com Martin Sheen, Sissy Spacek, Warren Oates, Ramon Bieri

Sempre achei Terrence Malick (Cinzas no Paraíso, Além da Linha Vermelha) um grande cineasta. Suas obras mostram a dúvida, as ações e consequências do homem na grande jornada da vida. O que ós fazemos? O melhor exemplo disso é em Além da Linha Vermelha em que as personagens se perguntam "De onde vem esta guerra? Por que fazemos isso? É nobre?", ou então em O Novo Mundo e as dúvidas do capitão John Smith.

Este é o primeiro trabalho do gênio Malick. Aqui ele fala de um tema que está presente em toda sua (curta) filmografia: a violência e suas consequências. Mas aqui, ao contrário dos outros filmes de Malick, vemos suas reais consequências. Ou melhor, suas consequências nas outras pessoas, e não em si mesmo, como em Além da Linha Vermelha e O Novo Mundo.

O filme nos conta a história de Kit (Sheen), um jovem "rebelde sem causa", parecido com James Dean. Ele não se importa com nada e nem quer se importar. Trabalha em empregos com um salário minúsculo e com muito esforço, como lixeiro ou vaqueiro. Um belo dia, quando saia do trabalho ele conhece a jovem Holly (Spacek), uma garotinha que demonstra ter pretenções de entrar no time de líderes de torcida do colégio onde estuda. Eles se conhecem e demonstram uma ligação amorosa. Mas, de súbito, Kit se revela um homem com um parafuso a menos. Daí para frente as coisas degringolam.

Como vem de Terrence Malick, não é a história de um casal que viaja matando pessoas pelos Estados Unidos, mas um filme sobre a relação causa-efeito. E também sobre a psicologia de um assassino. Os dois, principalmente Holly, nunca parecem saber o que estão fazendo. Kit parece sempre ter uma idéia fixa na cabeça, uma solução para a situação, mas, de verdade, nunca tem, e suas atitudes sempre acabam gerando ainda mais confusão.


Um dos pontos fortes do filme é o fato de ele focar nos assassinos, ou seja, nós vemos aqui a história contada do ponto de vista de Kit e Holly. Mais precisamente de Holly, já que o filme e narrado por ela. Então raramente nós sabemos o que a polícia está fazendo ou o que o povo pensa, por isso só sabemos do tamanho do estrago que os dois fazem quando ela diz na narração.

Martin Sheen faz um bom papel como o desvairado Kit, mas uma coisa me incomodou: nas cenas onde ele fica nervoso, da a impressão que ele agita mais a cabeça para fazer o cabelo balançar (e isso chega ao cúmulo perto do final do filme). Sissy Spacek está bem morna aqui. Ao contrário do que as pessoas da época pensavam, eu não acho ela dona dessa beleza toda não. Pelo contrário, eu acho ela meio feiazinha... mas sua cara de inocente cai bem no papel.


O roteiro de Terrence Malick faz bonito (não é à toa que eu acho esse o seu segundo melhor filme, atrás apenas de Além da Linha Vermelha (e eu ainda não assisti Cinzas no Paraíso). Mas uma coisa me pareceu estranha: no iníco do filme, nos primeiros cinco minutos, o Kit chega na cara de pau para Holly e diz: "Quer sair comigo?" e ela aceita. Em que unvierso sair com uma garota é tão fácil?!?!?! Eu não tenho uma vida amorosa assim tão boa, imagina quando um cara é um psicótico-indeciso-assassino!

Terrence Malick faz uma boa direção, não primorosa, mas eficiente. Mas desde o início da sua carreira Malick nos brinda com belas imagens. A fotografia desse filme é sensacional. Aqui ele trabalha com três diretores de fotografia diferentes: Tak Fujimoto (O Silêncio dos Inocentes, O Sexto Sentido), Steve Larner e Brian Probyn. (Uma coisa digna de nota é que tanto Larner como Probyn morreram na década seguinte, enquanto Fujimoto continua na ativa fazendo clássicos como O Silêncio dos Inocentes.)

Todos os aspectos desse filme funcionam brilhantemente, e olha que o filme teve um orçamento baixíssimo: 500 mil dolares. O que só prova para fazer grandes filmes não é necessário orçamentos com cifras astronômicas. Agora, para trazer público é outra história. Deliciem-se e reflitam.

Nota: 4 estrelas em 5

Por Victor Bruno

sábado, 17 de abril de 2010

Seleção oficial Cannes 2010


  • Another Year, de Mike Leigh (Reino Unido)
  • Biutiful, de Alejandro Gonzalez Inarritu (Espanha/México)
  • Burnt by the Sun 2, de Nikita Mikhalkov (Alemanha/França/Rússia)
  • Certified Copy, de Abbas Kiarostami (França/Itália/Irã)
  • Fair Game, de Doug Liman (EUA)
  • Hors-la-loi, de Rachid Bouchareb (França/Bélgica/Algéria)
  • The Housemaid, de Im Sang-soo (Coréia do Sul)
  • La nostra vita, de Daniele Luchetti (Itália/França)
  • La Princesse de Montpensier, de Bertrand Tavernier (França)
  • Of Gods and Men, de Xavier Beauvois (França)
  • Outrage, de Takeshi Kitano (Japão)
  • Poetry, de Lee Chang-dong (Coréia do Sul)
  • A Screaming Man, de Mahamat-Saleh Haroun (França/Bélgica/Chade)
  • Tournee, de Mathieu Amalric (França)
  • Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, de Apichatpong Weerasethakul (Espanha/Tailândia/Alemanha/Reino Unido/França)
  • You, My Joy, de Sergey Loznitsa (Ucrânia/Alemanha)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Cadeira 2 - Michael Ballhaus, ASC


Num mundo dominado por atores e diretores, uma pessoa se destaca. Michael Ballhaus. Ultimamente a fotografia está morrendo, ou perdendo espaço para filmes com cada vez mais computação gráfica (eu quero dizer 3D também).

Michael Ballhaus, ASC nasceu em Eichelsdorf, na Baixa Francórnia, Alemanha em 5 de Agosto de 1935. Sua primeira experiencia com o mundo do Cinema foi quando visitou o set de Lola Montés, do cineasta (e amigo da sua família) Max Ophüls. (Além disso ele faz uma breve aparição como extra neste mesmo filme.)

A partir daí Ballhaus se encantou pelo universo das câmeras e foi trabalhar na TV como cinegrafista. Então ele conhece o (excêntrico) cineasta Reiner Werner Fassbinder. E é com ele que ele ganha o seu passaporte para o cinema. Seu primeiro filme para o cinema é o polêmico As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972) e assim eles iniciaram uma grande carreira juntos. Inclusive, uma das marcas registradas de Michael é o chamado "take Ballhaus", em que a câmera gira 360º pelos atores. Surgiu pela primeira vez em Roleta Chinesa.

Devido a excentricidade do diretor a dupla rompeu e Michael veio para a América onde fez como Working Girl entre outros.

Em 1984 Martin Scorsese chamou-o para fazer um filme, este filme era Depois de Horas(1985). Ali Ballhaus encontrava um diretor que atendesse ao seu estilo, sobre a condição humana. E assim seguiu com grandes filmes ao lado de Scorsese: A Cor do Dinheiro, A Última Tentação de Cristo, Os Bons Companheiros, A Época da Inocência...

Por sua genialidade e inovações do cinema, Michael Ballhaus ocupa a cadeira de número 2 das Cadeiras Especiais do blog.

Filmes já comentados:

Embriagado de Amor


Embriagado de Amor
(Punch-Drunk Love, 2002)
Dirigido por Paul Thomas Anderson
Escrito por Paul Thomas Anderson
Com Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán, Mary Lynn Rajskub

Imagine, eu faço um filme sobre o mundo do cinema pornô dos anos 70 e 80. O filme faz um sucesso estrondoso e levanta muita polêmica. Em seguida eu faço um filme de três horas e oito minutos sobre nove vidas, que vivem de modo completamente diferente, mas com muito em comum, que se cruzam de modo inesperado. O filme e tachado como o novo Short Cuts - Cenas da Vida (1990) e eu sou chamado de o novo Robert Altman. O que você espera de mim na minha próxima produção. Quem sabe você nem espera nada de mim, pois eu não tenho mais para onde ir ou mesmo inovar.

Então surge a manchete que eu vou fazer um novo filme, mas sem história e elenco definidos. Alguns dias depois eu divulgo o elenco, e, estampado no jornal está escrito "Adam Sandler no papel principal." O mínimo que você faz é dar um salto da cadeira e cuspir o café.

Esta é a saga de Paul Thomas Anderson (Boogie Nights - Prazer Sem Limites, Magnólia) rumo a Embriagado de Amor. Um filme com um conteúdo surpreendente para a sua carreira, mas nem por isso ruim. De fato, sinópses surpreendentes é o que não falta em sua curta e primorosa carreira.

A obra conta a história de Barry Egan (Sandler), um jovem introvertido e paranóico. Ele é dono de uma micro-empresa de produtos para banheiro, como desentupidores de pia (e são esses desentupidores que trazem uma das cenas mais engraçadas do filme). Após ser testemunha de um acidente de carro e achar um harmônio na porta da empresa onde trabalha, uma garota pede para guardar o carro naquele lugar, enquanto a oficina não abre. Barry, relutante, aceita. Mais tarde suas sete irmãs ligam para Barry avisando-lhe sobre um aniversário que ele não pode faltar de maneira algum, pois haverá uma garota que será apresentada a ele. Barry, de novo relutante, aceita o convite. A garota coincidentemente (ou não) é a mesma garota do carro. Ela é a misteriosa Lena Leonard (Williams).


De noite, Barry está em casa, após a festa e liga para um tele-sexo (numa cena maravilhosa de oito minutos num único take). A coisa parece inocente, mas estranhamente a "empresa" pede o número do cartão de crédito e o endereço da casa dele, coisa que ninguém pede. Barry, desconfiado, dá o número. No dia seguinte ele acorda com o telefonema da garota que Barry estava falando no tele-sexo da noite anterior. Ela pede uma certa quantia para ele. Barry nega. Daí pra frente a coisa degringola de vez. O tele-sexo suspeito revela-se uma gangue lidererada por Dean "Matress Man" Trumbell (Seymour Hoffman), Barry se apaixona por Lena. Uma sinopse nada covencional para um filme de P.T. Anderson, certo?

Mas o filme não é (mais) uma comédia romântica estrelada por Adam Sandler (Tratamento de Choque, Como Se Fosse a Primeira Vez). O filme é um poderoso retrato da mente e do comportamento humano. É quase um estudo psicológico da mente de uma pessoa com problemas mentais (afinal Barry sofre de paranóia e uma grande sensibilidade emocional, resultado da exploração das suas sete irmãs). O filme tem três cores básicas: azul, vermelho e branco. Segundo alguns (inclusive eu) as cores são simbólicas (e simbolismos não faltam na filmografia de Thomas Anderson). O azul representa, junto com o branco, problemas, e, aonde Barry está, lá vemos ele: nas roupas de Barry, em seu escritório... Já o vermelho, significa amor e paz. O vestido vermelho que Lena usa o filme inteiro deixa bem claro isso. Ou então a cor do letreiro que diz "saída", no apartamento de Lena (que por sua vez simboliza que ela é a saída dos problemas de Barry).


Sandler consegue a façanha de não matar o filme. Mas ao mesmo tempo em que ele não mata ele não acrescenta. Sua eterna cara de bobalhão serve muito bem na personagem. Watson faz uma atuação competente quando aparece. Seymour Hoffman mais uma vez está perfeito como o covarde que se passa por machão Dean. Luis Guzmán, presença tradicional nos filmes de Anderson, está bom também.

Anderson cria um filme muito profundo, muito simbólico. Sua direção tradicional, movimentada, acrescenta um toque de mestre na fotografia do sempre excelente Robert Elswit.

A edição de Leslie Jones (Além da Linha Vermelha, Starsky & Hutch) está correta, condizente com o que o filme pede, aliada ao belo trabalho visual do artista Jeremy Blake (que se matou em 2007). Aliás esse trabalho visual, além de esteticamente belo, demonstra bem as alucinações de Barry.

Finalizando, este filme é o mais pessoal de Anderson e demonstra todo o seu poderio de diretor e roteirista, fazendo um excelente trabalho aqui. Só mesmo Paul Thomas Anderson para fazer Adam Sandler funcionar, e olha que Anderson é fã declarado de Sandler e seus "filmes".

Nota: 5 estrelas em 5

Por Victor Bruno

Os Bons Companheiros


Os Bons Companheiros
The GoodFellas, 1990
Dirigido por Martin Scorsese
Roteiro de Martin Scorsese & Nicholas Pileggi (Baseado no livro Wiseguy, de Nicholas Pileggi)
Com Ray Liotta, Robert DeNiro, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino

Nobres companheiros, me respondam: o que diabos leva um grupo de pessoas achar que Kevin Costner (O Guarda-Costas, Whyatt Earp) é melhor na direção que Martin Scorsese. O que?!, meu Deus, o que?!

Não discordando que Dança com Lobos (1990) é um bom filme, com uma bela fotografia, mas nunca, eu disse nunca, ele chegará perto da magnitude de Os Bons Companheiros, jamais. Nem aqui e nem em Sedna.

Aqui, Scorsese nos conta a história de Henry Hill (Liotta) e sua vida dentro da máfia, desde sua iniciação (que, olha só você, é a condenação num tribunal) até o seu fim. O fato é que nunca o Henry consegue entrar na máfia de verdade por que, para ingressar "você tem que ser 100% italiano, para poderem investigar seus antepassados no Velho Continente."

O filme não tem exatamente uma história definida, até por que é uma cinebiografia. Nós vemos todas as aventuras e desventuras deste rapaz com seus amigos Jimmy (DeNiro) e Tommy passam ao longo de três décadas. Então o que há aqui é um apanhado de histórias e casos dentro da vida dos três. Sem contar que o filme, acima de tudo, é outro estudo do comportamento humano em frente a violência. Um resgate do que Taxi Driver fala: o comportamento humano face a face com a loucura e a paranóia e aos extremos em que as duas nos levam.

Todos os atores fazem boas atuações, mas um deles se destaca: Joe Pesci (Era Uma Vez na América, Touro Indomável). Sua participação como o esquentado Tommy DeVito lhe valeu um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Sensacional! A cena do bar com o Billy Bates (Frank Vicent, de Cassino e Touro Indomável) ou a cena da mesa de pôquer com o Spider são exemplos de como esse ator é bom, mas infelizmente subestimado. Destaco também a atuação de Christopher Serrone nos 30 primeiros minutos de filme como o Henry na adolescencia. O interessante é que eu nunca mais vi esse ator em lugar nenhum. Dizem até que ele morreu. Muito estranho.


A direção de Scorsese é genial. É neste filme em que Scorsese garante sua entrada no hall dos diretores. Sim, de fato, acho que a crítica e o público precisavam de mais uma obra-prima para provar por que Scorsese merece o crédito de "melhor diretor vivo do cinema mundial". Eu não sei como era a vida nos anos 80 para saber como o nome dele era visto nesta época.

O roteiro do filme, escrito por Martin e pelo escritor ítalo-americano Nicholas Pileggi (que também escreveu o roteiro de (Prefeitura e Os Reis de South Beach) é um primor. Ao contrário dos filmes do Tarantino, em que carregam mais fucks do que o filme aguenta, aqui o palavreado, palavrões e gírias só enriquecem a trama e a estética do filme.

A trilha sonora é fantástica. Utilizando-se apenas de músicas que podiam ser escutadas na época da trama, Scorsese constrói a alma das personagens. Se hoje os bandidos escutam funk nas festas, naquela época eles escutavam Tony Bennet e Rolling Stones. (Pelo menos eles tinham bom gosto, ao contrário de hoje...)

Edição e fotografia são um caso à parte. Thelma Schoonmaker se supera novamente fazendo um filme rápido que explode como um balão (infelizmente ela quase conseguiu repetir a dose em Cassino, mas ela cometeu o erro, juntamente com Scorsese de fazer um filme de três horas, que murcha lentamente, mas sem perder a classe). Michael Ballhaus, na fotografia, não decepciona. Pelo contrário, faz a câmera andar rápido, assim como Scorsese gosta. Não é à toa que ele é meu diretor de fotografia preferido, como já disse nas críticas de Depois de Horas e A Última Tentação de Cristo.

Richard Bruno e Kristi Zea trazem a alma e o espírito dos gângsters. Os figurinos de Bruno, que beiram entre o brega e o normal são convincentes e a sempre discreta Zea faz um excelente trabalho aqui.

No fim das suas 2 horas de filme, Os Bons Companheiros prova-se um dos melhores filmes da carreira de Scorsese, se não for o melhor. Um filme para se ter em casa e revê-lo quantas vezes for necessário.

Nota: 5 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

terça-feira, 13 de abril de 2010

E tome Scorsese, amigo...

Eu acho que vocês já notaram que, fora a postagem de Sinédoque, Nova York, escrita por mim, e a postagem de Tudo Pode dar Certo, escrita pelo Pedro, todas as outras críticas do blog foram, unica e exclusivamente relaciondas a filmes de Martin Scorsese.

Mas não se preocupem! Quem está cansado de Scorsese pode ficar tranquilo. Isso acabará em breve! Logo, logo você verá aqui uma postagem sobre Paul Thomas Anderson, mais precisamente sobre Embriagado de Amor.

Agora, eu me pergunto: quem se cansa de Scorsese?

Por Victor Bruno

Depois de Horas


Depois de Horas
(After Hours, 1985)
Dirigido por Martin Scorsese
Escrito por Joseph Minion
Com Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Linda Fiorentino, Verna Bloom, Thomas Chong

Era mais um final de dia na vida de Paul Hackett (Dunne). Ele iria para casa, entediado, assistir TV. Mas, por algum motivo, decidiu sair e ir para um café ler seu Trópico de Câncer, de Henry Miller. De repente alguém fala com ele. Era uma bela garota, chamada Marcy, que também havia lido o livro.

Assim sendo, ele pega o telefone da casa da amiga Kiki (Fiorentino), uma artista plástica, pois Marcy (Arquette) mora com ela. Ambas moram em SoHo, Nova York, um bairro dominado por artistas, punks e homossexuais. Assim, Paul vai até lá para, se possível, ter algo quente esta noite.

É assim que esta obra-prima de Martin Scorsese começa. O filme é, em toda sua extensão um ode a Nova York. Uma homenagem aos seus habitantes, principalmente as suas minorias. O filme tem seu personagem principal um simples processador de textos. A amiga de Marcy é uma artista, o filme está cheio de homossexuais e punks... enfim. Não é exagero dizer que Nova York é uma personagem dentro desta magnífica e complexa obra.

Sim, complexa. Não é apenas um filme sobre um cara que vai passar a noite com uma garota, mas sim um filme sobre o comportamento humano diante do medo e das frustrações, e inclusive da morte. Eu sou partidário da tese de Luis Carlos Merten que diz que o filme é o maior coito interrompido da história do cinema. Algo que só pode ser comparado à Stanley Kubrick e seu De Olhos Bem Fechados. Não é para poucos certo? Eu não sei dizer, mas o filme pode ser até mesmo o comportamento humano diante do coito interrompido (a icônica cena de Paul, dentro de um banheiro olhando para o desenho de um homem com o pênis mordido por um tubarão deve dizer algo). Não é isso. Creio que é o homem diante do fracasso. Ou do medo da morte.


Griffin Dunne faz o melhor papel da sua carreira aqui, como o acoado e assustado Paul Hackett. Aliás, quem diabos conhece o Griffin?! Rosanna Arquette faz um bom trabalho como a bela e misteriosa Marcy, ao contrário de Linda Fiorentino, que está apenas morna.

Scorsese não é um diretor de comédias (mesmo que este filme tenha sido lançado logo após O Rei da Comédia), por tanto, o filme não é 100% brilhante. Existem alguns erros, mas nada que salte aos olhos. Na verdade, você só percebe quando observa com atenção. De fato, os erros estão na edição (onde Thelma Schoonmaker faz bonito de novo). Por exemplo: a primeira cena no Clube Berlin, quando Paul quase tem seu cabelo cortado à lá moicano, deveria ser um pouco mais longa, para nós nos situarmos melhor (ela é extremamente bagunçada, devido ao ambiente), ou pelo menos para dar suspense (Paul corta ou não o cabelo?)

Como já disse na minha crítica de A Última Tentação de Cristo, Michael Ballhaus é rei. Sua fotografia é inigualavel, e, mandando para as favas todos os outros diretores de fotografia com quem Scorsese já trabalhou, um legítimo Scorsese só funciona com ele. Talvez nem legítimo, mas acho que Scorsese só amadurece de fato quando trabalha com ele pela primeira vez, e é neste filme. Aqui você nota todas as características técnicas dos dois. Dollys, closes, whipes, tomadas de ângulos improváveis, ou mesmo sequências improváveis (a cena do molho de chaves caindo e a câmera vindo atrás em bungee jump é mágico).

Um filme extremamente desconhecido e subestimado na carreira deste mestre do cinema. Os fãs de Scorsese não deveriam esquecer dessa obra, que considero a mais complexa de sua carreira. Inesquecível.

Nota: 5 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

A Última Tentação de Cristo


A Última Tentação de Cristo
(The Last Temptation of Christ, 1988)
Dirigido por Martin Scorsese
Roteiro de Paul Schrader (Baseado no livro A Última Tentação de Cristo de Nikos Kazantzakis)
Com Willem Dafoe, Harvey Keitel, Barbara Hershey, David Bowie

Cristo, que filme bom. Desculpem a ironia do início, mas, nossa. Na minha lista esse é o melhor filme de Martin Scorsese (Os Bons Companheiros, Depois de Horas). Aqui tudo é planejado milimetricamente. A fotografia combinando com o deserto, sensacional.

Aqui, Scorsese (re)conta a história de Jesus (Dafoe), um marceneiro atormentado por vozes estranhas que Ele julga ser o próprio Deus. A especialidade de Jesus é, olhe só você, fazer cruzes, procurando expulsar a voz que, também Lhe provoca dores de cabeça atrozes. Enquanto isso Judas (Keitel), um rebelde terrorista, sabe que Jesus pode ser a tábua de salvação de todo o povo judeu (que dessa vez luta contra a dominação romana).

Mesmo relutante, Jesus concorda com Judas e segue para o deserto, onde passará 40 dias em jejum. No mesmo deserto Ele é tentado por Satã (com voz de Leo Marks) três vezes, e recusa (assim como na Bíblia). Daqui para frente todo mundo sabe a história, até que... Jesus escapa da crucificação! Como pode! Que heresia! Vamos jogar coquetel molotov na porta do cinema para honrar o nome de Cristo!


Foi com esse comportamento estúpido dos fanáticos que o filme foi recebido (inclusive sendo banido de alguns países, como o Chile). Mas o filme não é nenhuma heresia, ou uma "obra do demônio para destruir nossos lares", mas sim um interessante retrato psicológico, principalmente quando o homem (afinal, Cristo era humano, correto) tem de escolher entre uma coisa e outra. É a mesma coisa quando a sua mulher vai escolher a roupa para sair de casa, só que aqui Jesus tem que escolher entre viver e seguir uma vida normal e morrer e se tornar salvador da humanidade. Como dizia Kazantzakis, a maior tentação que um homem pode viver querer ser comum.

Willem Dafoe está EXCEPCIONAL como Jesus. Indeciso e explosivo. Ele sempre está mudando de idéia, mas em algum lugar ele tem uma idéia fixa. Que outra nota posso dar, senão 10?

Keitel não está assim tão ruim como disseram. Sua participação é apenas morna. Ele consegue não estragar o filme. Barbara Hershey, junto com os apóstolos, também faz uma boa participação. Juliette Caton, que interpreta o anjo que visita Jesus nos últimos 30 minutos de filme, faz uma boa participação (além disso ela é tão bonitinha...). Isso sem contar na participação de David Bowie, muito bom como Pilatos.


A direção de Scorsese aqui está impecável. Os planos são bem dirigidos, não cai em clichês. Infelizmente podemos perceber que ele tentou escapar do seu estilo tradicional, com a câmera rápida. Felizmente, em algum momento da projeção, ele se toca que não pode escapar da sua natureza e se entrega. O último take, quando a câmera "voa" em direção à Jesus, mostra bem isso.

Agora isso merece um parágrafo. A fotografia de Michael Ballhaus (ele vai ganhar uma cadeira especial nos próximos dias) está excelente. Logo por que, ao contrário de certos diretores de fotografia, ele não inventa filtros nem jogos de cores. Ele é honesto e fotografa a vida como ela é, rápida e de tom pastel. Seu estilo cai como uma luva num filme que se passa no deserto.

Thelma Schoonmaker, mais uma vez, faz um trabalho muito bom na edição. Não deixa o rítimo cair, ela combina muito bem com a excelente trilha sonora de Peter Gabriel (ex-Gênesis), tanto que o disco Passion - Music For the Film 'The Last Temptation of Christ' foi um sucesso de vendas.

Enfim, antes de chamar esse filmaço de "obra do demônio" e "heresia", os fanáticos deveriam ver o que há por trás da porta verde e observar o estudo primoroso sobre o homem que este filme é. Eu mesmo considero este o melhor filme sobre Cristo, juntamente com, olhem só, Jesus Cristo Superstar e suas metralhadoras e hippies.

E aqui vai o recado de Nikos Kazantzakis aos padres quando o livro foi listado no Index Liborum Prohibitorium: "Vocês me amaldiçoaram, pais sagrados, eu dou a vocês uma benção: possam as suas consciências ser tão claras quanto a minha e possam vocês ser tão morais e religiosos quanto eu."

Está consumado.

Nota: 5 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sinédoque, Nova York


Sinédoque, Nova York
(Synecdoche, New York, 2009)
Dirigido por Charlie Kaufman
Escrito por Charlie Kaufman
Com: Philip Seymour Hoffman, Catherine Kneer, Jennifer Jason Leigh, Tom Nooan, Hope Davis

Charlie Kaufman melhor do que nunca! Com certeza este é um filme inesquecível, de todas as formas. Tanto para quem não gostou (uma boa parcela das "testemunhas" que assistiram a esta obra) como para quem eventualmente adorou. Claro são dois opostos, pois este é um filme "ame ou odeie-o". Ele nasceu para ser assim.

Sinédoque, Nova York é a primeira incursão de Charlie Kaufman (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Adaptação) pelo mundo da direção. Até então ele era -- apenas -- o mais famoso roteirista de Hollywood. Aqui ele nos conta a história do hipocondríaco e egoísta Caden Cotard (Seymour Hoffman), um diretor de teatro que sabe que seu casamento com Adele (Kneer), uma pintora em miniatúras (o que se torna uma ironia, visto a grandiosidade das obras de seu marido), está chegando ao fim, mas não faz nada para tentar recupera-lo. E sabe disso perfeitamente quando sua esposa deixa de ir a estréia da sua nova peça (uma adaptação da peça A Morte do Caxeiro Viajante) para ficar fumando maconha com a amiga Maria (Jason Leigh).

Daí para frente o filme degringola para o bizarro. A esposa, aproveitando uma viagem para a exposição das suas obras na Alemanha, foge levando Olive (Saddie Goldstein), a filha do casal. Ao mesmo tempo Caden recebe um prêmio de US$ 500.000 da Fundação MacArthur para uma obra que abale as estruturas do teatro moderno, o que pode ser uma redenção para o turbilhão emocional em que sua vida se encontra. Ele tem o roteiro perfeito: uma obra que conte sua vida. Não uma auto-biografia, mas uma obra que encene todos os minutos da sua vida. O que parece ser uma redenção, como já dito, só faz ele entrar ainda mais no fundo do poço.

É com esse roteiro sem nexo que Charlie Kaufman entrega-nos uma obra profunda, complexa e de conteúdo altamente filosófico. Charlie que falar de tudo: vida, amores, tragédias, morte, sexo... e essa obcessão de Kaufman acaba por atrapalhar um pouco o filme, e não o deixa desenvolver por si só. Mas vai ver é esse o objetivo de Kaufman, e se for esse, ele atinge com perfeição. Ainda quanto ao roteiro, os diálogos são um deleite para os ouvidos de qualquer apreciador do cinema. O monólogo (aliás, o filme está cheio deles) do padre durante um dos muitos funeráis que o filme fornece, é uma das cenas mais emocionantes e profundas do cinema atual. Apenas Kaufman poderia ter escrito algo tão profundo.

O nome do personagem aliás é uma homenagem ao médico Jules Cotard, que descobriu a síndrome que leva seu nome, um distúrbio neurótico em que a pessoa tem a impressão em que todos a sua volta estão morrendo, mas em Caden é o contrário, ele sempre acha que está morrendo. E é esse dificílimo personagem que Philip Seymour Hoffman tem que carregar nas costas, e ele faz isso com maestria. Repare nas expressões melancólicas dele ao longo do filme, principalmente na parte final.

Catherine Keneer e Jennifer Jason Leigh também fazem seus papéis com segurança, dando suporte para Hoffman se soltar. A pequena Saddie Goldstein também faz seu papel muito bem, sendo a soma exata das neuróses dos seus pais. Tom Nooan faz o personagem mais engraçado do filme (tristemente engraçado).

Enfim, se roteiro e elenco fazem bonito aqui, a única reclamação que podemos ter é no rítimo do filme. Não que para mim isso seja difícil de engolir, mas com certeza uma boa porcentagem do fracasso de bilheteria que esse filme foi (custou US$ 13.000.000,00 e recuperou apenas US$ 7.000.000,00) deve-se ao seu rítimo. Irônicamente se o mesmo Kaufman faz bonito no roteiro, peca na direção. E a edição, que deveria cobrir essa "falha", não cobre.

Por fim, basta dizer que não se fazem mais filmes como Sinédoque, Nova York. Com certeza a culpa também é do público e de Hollywood, que se acomodaram em fazer filmes ruins para fazer dinheiro, desvirtuando completamente o cinema. É realmente uma pena.

Nota: 5 estrelas em 5. (Observação, dei nota máxima por causa do roteiro, que é perfeito.) Por Victor Bruno

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Toca dos Cinéfilos, uma comunidade que vale a pena


A Internet está cheia de porcarias (vai ver este blog é uma). O orkut também (por ser parte da Internet) está cheio de porcarias. Mas, felizmente, volta e meia alguma coisa que presta sai de lá. Por isso eu vou dedicar um post à algo que brilha nesse mar de besteiras que é o orkut.

A comunidade do cara (inssistente e, por vezes irritante, mas um bom adiministrador) conhecido como Donnie . é um belo exemplo de como um tema batido como o cinema pode se sobressair e virar um lar da Sétima Arte. Bem adiministrada e organizada (uma raridade no orkut), é um oáses no meio do inferno de posts que é o orkut. Todo latino-americano sabe disso. Nós somos maioria lá.

Clique aqui para assessar. Divirtam-se.

Ilha do Medo

Ilha do Medo
(Shutter Island, 2010)
Dirigido por Martin Scorsese
Roteiro de Laeta Kalogridis (baseado no livro Paciente 67, de Denis Lehane)
Com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Michele Williams, Ben Kingsley, Max von Sydow

Como diz o pôster brasileiro do filme, a loucura é contagiosa. E com certeza os executivos da Paramount do Brasil se infectaram com essa loucura para tachar o filme de uma maneira tão ordinária. O título orginal do filme Ilha do Medo é Shutter Island. Não sei por que, mas alguém de dentro das paredes do estúdio teve a ridícula idéia de trocar o nome do filme aqui de Paciente 67 para esse título ridículo. Dá a impressão é que esse brilhante suspense psicológico de Martin Scorsese (Touro Indomável, Os Infiltrados) não passa de um filme bobo sobre um serial killer que "aterroriza" uma ilha durante uma festa de adolescentes universitários bêbados fazendo sexo sem culpa. Mas não é nada disso.


Em 1954, Edward "Teddy" Daniels (DiCaprio) e seu parceiro Chuck Aule (Ruffalo) estão investigando o desaparecimento de uma perigosa paciente do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe Para Criminosos Insanos, na remota Shutter Island, em Boston. Ao chegar lá, o clima é de mistério, pois aparentemente ninguém parece querer colaborar com os investigadores, nem mesmo os pacientes. Aos poucos Teddy vai sendo consumido pela dúvida e pela loucura (que realmente parece ser contagiosa).

É nesse clima de suspense em que Martin Scorsese cria sua mais recente obra prima. Com certeza. Não entendo por que o filme tem recebido tantas críticas negativas. Por que as pessoas sempre querem que Scorsese faça filmes sobre gângster? Já temos tantos!

Vamos agora para os atores. DiCaprio mostra grande desenvoltura e amadurecimento neste trabalho. Infelizmente ele não consegue tirar aquela cara enjoada dele. São tantas caras e bocas que ele faz que é de se perder a conta. Ele espreme os olhos só para se abaixar. Mark Ruffalo também está muito bem como o parceiro de Teddy, Chuck Aule. Pena que ele só tenha mais espaço no fim da projeção.

O eterno Gandhi, Ben Kingsley, dá uma aula de interpretação como o sombrio Dr. Cawley (este nome te lembra alguma coisa?). Ele não força a cara para parecer incomodado e interpreta seus diálogos com perfeição. Não me surpreenderia em vê-lo indicado para o Oscar de Coadjuvante. Max von Sydow e Michelle Williams estão competentes também como o Dr. Naehring e a esposa morta de Teddy, Dolores.


Foi muita coragem de Scorsese ter deixado a cargo de Laeta Kalogridis um roteiro de um filme tão complexo. Para quem não sabe, Kalogridis escreveu o (in)esquecível Os Desbravadores e foi co-roteirista do multi-reeditado Alexandre, de Oliver Stone. Acho que a pessoa certa para ter escrito o filme (que é uma bizarrice psicológica) chama-se Charlie Kaufman. Não que Kalogridis erre. Seu roteiro é bem amarrado, mas ela ainda tem muito o que aprender.

A fotografia de Robert Richardson (JFK - A Pergunta que Não Quer Calar, Platoon, ambos de Oliver Stone) não apresenta muitas novidades, apenas mescla o seu estilo habitual de cores e luzes com a câmera sempre movimentada de Scorsese. Está competente, como sempre.

Agora a edição... o que é isso?! Thelma Schoonmaker (que edita todos os filmes de Scorsese desde Touro Indomável) mostra por que é a melhor editora viva do cinema norte-americano. Mas infelizmente ela não está à prova de erros. As cenas dos flashbacks e dos pesadelos de Teddy com certeza deveriam ser encurtadas (menos o sensacional flashback final). Faz parecer que o diretor tinha um tempo pré estabelecido pelo estúdio e resolveram adicionar metragem no filme justamente nessas cenas.

O final com certeza você já deve ter visto em filmes anteriores, mas aqui ele com certeza é perfeitamente justificado. Não é motivo você matar o filme inteiro só por que reutiliza um recurso. Os filmes dos Irmãos Coen pegam histórias batidas e sempre saem surpreendentes e foi exatamente isso o que Scorsese fez nessa sua obra-prima. Isso já aconteceu a ele outras vezes, ter sua obra criticada e, mais tarde, voltarem atrás. Espero que os críticos façam isso, pois é imperdoável não admitir que esse filme é um dos melhores e mais engenhosos filmes da carreira deste grande cineasta.

Nota: 4 estrelas em 5.

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