domingo, 9 de janeiro de 2011

Cisne Negro

Black Swan, 2010 / Dirigido por Darren Aronofsky
Com Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder


(5/5)

Não há preço que não se possa pagar quando o objetivo é a perfeição. Nada é suficiente quando o melhor é o que se almeja. A degradação física e mental é algo que está em jogo, é efêmero quando se busca a perfeição. A perfeição é narcisista, egoísta, mas ninguém está nem aí quando o perfeito é o objetivo. As palmas, a glória, ou a satisfação pessoal, isso só vem quando o objetivo foi alcançado. Até lá, nada mais importa. Seu corpo, sua mente, as pessoas que estão em volta? Bobagem.

Darren Aronofsky sabe bem o que eu estou dizendo. Além disso, soube transportar uma estória com esse fundo de, aliado ao medo e ao desejo de uma simples bailarina, para o mundo do cinema. Não é difícil entender por que Cisne Negro tornou-se o filme mais badalado dos últimos meses. A hype ao redor do novo filme do diretor de Requiém para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) e Fonte da Vida (The Fountain, 2006) está sendo gigantesca, Natalie Portman é dada como certa (não favorita, mas certa) para o Oscar. Não que hypes sejam sinônimos de qualidade, mas aqui neste filme é indiscutível, conforme veremos ao longo do texto.

O filme toma lugar em Nova York. Nesta Nova York existe uma garota que dança para uma companhia de balé. Esta garota: Nina Sayers (Natalie Portman). É o início da temporada e a companhia está montando uma nova versão para a obra-prima de todas as obras-primas do balé, O Lago dos Cisnes. A antiga Rainha dos Cisnes, Beth (Winona Ryder), está decadente, seu nome não trás mais dinheiro para a companhia, e ela vai se aposentar, quase que obrigada, no final da temporada, "interpretando Melpômene, papel que fez na minha primeira peça", segundo as palavras de Thomas Leroy, o diretor da companhia.
É nesse momento em que Nina vê a oportunidade de interpretar não só o Cisne Branco, mas também o Cisne Negro, já que a vaga está aberta para os dois papéis. Ela é tímida, pura, inocente. Quase uma vestal. Mas acima de tudo, e mais importante, ela é talentosa. Seus passos são perfeitos, tanto quando podem ser. Ela tem um futuro brilhante? Não há dúvidas. Não há dúvidas também que ela é a pessoa perfeita para interpretar o Cisne Branco. Entretanto, "se fosse apenas o Cisne Branco, seria você." Nina não tem a sensualidade mata-hariana para ser o Cisne Negro. Ela está em cheque, e sua situação na peça se torna ainda mais delicada com a chegada de Lily (Mila Kunis), fogosa e atraente, que chama imediatamente a atenção de Thomas.

Para interpretar o Cisne Negro, Nina tem que se transformar. É uma metamorfose que deixaria Kafka orgulhoso. Se Nina, mesmo antes de conseguir a vaga para Rainha dos Cisnes já tinha "mania de perfeccionismo", agora se esforça em dobro. O processo de metamorfose é extremamente degradante. Sua mente totalmente focada no esforço para ser a melhor -- e ela não hesita em externar este seu pensamento kubrickaniano (impossível não lembrar do diretor) -- lhe trás visões paranóicas e aterrorizantes. Acima de tudo, Cisne Negro é um terror psicológico. Conduzido com brilhantismo por Darren Aronofsky.

É irônico pensar que a perfeição adotada pela personagem Nina é filmada com a câmera na mão pelo diretor. A utilização do hand-held é normalmente considerada deselegante e documental pela maioria. Mas, pare e pense: quem foi que disse que fotografia tem que ter enquadramentos precisos para ser boa? Ninguém. O estilo agitado e turbulento adotado pelo diretor é quase um retrato da mente de Nina. Turbulenta, agitada e focada somente em si mesma. Aronofsky raramente o diretor expande sua imagem para mostrar o todo, e quando faz isso normalmente está sozinha.

Esta solidão a que Nina está submetida são resultados das suas próprias ações. E mais uma vez o diretor captura isso de modo genial. Observe por exemplo, quando Nina está ensaiando com o maestro da orquestra, e isso já depois de horas de trabalho. Ele sai, abandonando Nina, exclamando "Eu tenho vida própria". A bailarina fica resignada a sua insignificância (embora negue este estado), no meio do salão, rodeada pelos seus reflexos nos espelhos.
Falando em espelhos, o filme parece ter uma obsessão por este objeto. E eles realmente cumprem uma função importantíssima na trama. Mostrar diferentes personalidades, ou personalidades destroçadas. (Me lembrei de um episódio de Dexter em que Harry, pai do protagonista-título, pergunta para o filho: "Qual Dexter você será agora?", enquanto isso vemos a imagem de Dexter sendo refletida em seis espelhos diferentes.) Logo no início, quando Thomas está anunciando que o papel dos cisnes Branco e Negro será interpretado pela mesma bailarina, rapidamente a câmera dá um close na ranhura dos espelhos, que divide sua face em duas, assimetricamente. O que estamos vendo é uma metáfora para a dupla-personalidade da personagem. Existem dois Thomas. O primeiro Thomas é o Thomas sério, arrogante e frio, que as bailarinas da companhia conhecem. O segundo Thomas é aquele que não mede esforços para que suas bailarinas interpretem seu papel da melhor forma possível. Ele é um canalha, conforme uma das personagens aponta. E é mesmo. Em determinado ponto do filme ele pede para que Nina se masturbe para adquirir a sensualidade necessária para a peça. (E Nina, que quer a perfeição, faz isso em casa, ao acordar, sem notar a presença da mãe que está dormindo numa cadeira ao lado da cama.)

Agora eu penso, como Natalie Portman deve penado (com o perdão do trocadilho) para interpretar Nina. Não que suas falas sejam difíceis, calma lá. A dificuldade na sua atuação vem da decisão de Aronofsky de não utilizar dublês para sua personagem. Você acha que eu estou enganado? Talvez em duas ou três cenas nós sejamos engabelados por Aronofsky, mas na primeiríssima cena não. O filme começa com um close nas elegantes passadas de Nina. Depois vemos que é Portman quem dança. E a câmera de Matthew Libatique, o fantástico diretor de fotografia do filme, faz questão de segui-la. Tanto a Portman atriz como a Portman bailarina são excelentes. Tanto que dedico este parágrafo para elas/ela (há uma terceira Portman, a Cisne Negro).

A atriz tem de interpretar uma pessoa de rotina obsessiva e imutável. Acordar, notar os estragos que o seu estilo de vida workaholic faz. A primeira ação que ela tem ao acordar e estralar seus pés e verificar seu joanete (mais tarde veremos ela tentar reparar uma unha quebrada, e o som não é nada agradavel). Natalie Portman faz isso com um grau de qualidade inquestionável. Vincent Cassel está ótimo, assim como Barbara Hershey, como a compreensiva e dedicada mãe de Nina, Erica. A única coisa que eu realmente não entendo aqui é Mila Kunis. Misteriosa ela chega, misteriosa ela vai. Mas ninguém tem que entender a sedução do Cisne Negro (repare na tatuagem em forma de asa que ela tem nas costas).

Melhor da década? Bom, alguns vêm soltando esse grito em vários fóruns da internet, conversas de Messenger, etc. Quem faz esse tipo de afirmação é por que certamente não se lembra de outros filmes que estiveram por aí durante dez anos. Esse é o mal da hype. Ela dopa as pessoas. De um jeito ou de outro, Cisne Negro é o Cisne Negro de Tchaikovski. Sedutor e inesquecível.

Por Victor Bruno

5 comentários:

Eu considero o filme como o melhor de 2010. O roteiro e a direção são brilhantes. Já era fã do trabalho ousado de Aronofsky, agora ele se superou.

Tem razão, Portman penou para interpretar Nina, foi a melhor atuação de sua carreira e se não ganhar Oscar vai revoltar muita gente.

Só sinto pelos coadjuvantes do filme, gostei muito das atuações de Vincent Cassel e Barbara Hershey. Eles foram indispensáveis e gostaria de vê-los indicados ao Oscar.

http://peliculacriativa.blogspot.com/2011/01/review-black-swan-cisne-negro.html

Eu acredito que o Oscar é relativo, alguma hora ela vai ganhar. Mas em toda sua carreira, esta foi sua atuação mais brilhante.

A blogosfera nos reserva agradáveis surpresas. Conhecemos pessoas através de seus textos, entramos em contato para trocar ideias sobre interesses em comum, e um vínculo intelectual nasce.

Dessa observação sobe troca de conhecimento temático entre blogs, o FILOCINÉTICA e o CINEBULIÇÃO, nos unimos para criar um reconhecimento aos críticos e divulgadores da cultura cinematográfica. Nossa proposta, é premiar com o SELO INGMAR BERGMAN, bimestralmente, três blogs selecionados, que em nossa opinião e na opinião de nossos convidados para essa análise, trazem uma significativa contribuição para a crítica, reflexão ou divulgação da Sétima Arte.

o que é que vocês tão falando? the wrestler ( (o lutador) do próprio Aronofsky dá de 10x0 nesse filme.

Num mundo onde o certo e o errado e o errado é o certo, você estaria correto.

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