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Especial David Fincher: O Curioso Caso de Benjamin Button

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O nosso especial sobre David Fincher continua com Douglas Braga falando sobre Zodíaco, mais um thriller investigativo do norte-americano

sábado, 26 de junho de 2010

Sinais

Sinais
Signs, 2002
Dirigido por M. Night Shyamalan
Escrito por M. Night Shyamalan
Com Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Rory Culkin, Abigail Breslin

João Calvino dizia que a vida de uma pessoa já estava predestinada desde o início. Cada passo que uma pessoa dá já estava marcada por Deus. Consequentemente se a alma de uma pessoa vai para os Céus ou para o Inferno já está marcada desde o início que seu coração começou a bater.

Alguns filmes já debaderam esta idéia (ou melhor, conceito). O exemplo mais notável deles é Magnólia (Paul Thomas Anderson - 1999). A vida de várias pessoas conectadas e, como sugere o prólogo do filme, as coincidências da vida. Se o filme fala de predestinação, consequentemente os acontecimentos tratados no filmes já estavam conectados.

Abro o texto com isso por uma só razão: para mostrar que M. Night Shyamalan (A Dama na Água, Fim dos Tempos) não é um diretor que filma histórinhas visando lucro -- correção, apenas lucro. Shyamalan também quer falar de temas universais, e, dentre esses, ele escolheu falar de religião, só para citar um. Neste ele também quer falar de predestinação. Aliás, esta é uma das palavras-chaves deste filme. As outras são Deus, fé e aliens.


Sinais conta a história de Graham Hess (Gibson), um pastor que acabou de perder sua esposa. Imediatamente após isso ele também perde sua fé e abandona sua congregação. Graham vive numa área rural com seus casal de filhos, Bo (Breslin) e Morgan (Culkin), e seu irmão, Merill (Phoenix). Um dia Graham acorda com gritos de Bo vindo da plantação de milho. Ao chegar lá, seu filho Morgan diz "Eu acho que Deus fez isso". Graham pergunta "O que?" e seu filho move a cabeça do pai em direção à um enorme círculo em meio aos milhos. Mais tarde, a família, já perturbada pelo acontecimento descobre que não foi um caso isolado -- ou obra de nerds que não conseguem mulheres, como Merrill diz. Está acontecendo no mundo todo. Logo a paranóia e o medo se estabelecem na casa e a falta de fé se apodera definitivamente de Graham. Agora é uma questão de sobrevivência.

Quem vai assistir esperando um filme de ação com lasers saindo das naves alienígenas, ou então com cinco notas como meio de comunicação entre humanos e ETs, ou mesmo com um alienígena horrível dizendo "ET phone home", vai gastar dinheiro -- ou espaço no HD do computador, de graça. Na verdade Shyamalan usa uma invasão alienígena como pano de fundo para algo maior, bem maior. Shyamalan quer nos mostrar conflitos psicológicos e familiares. Como algo como a falta de fé aliado à algo maior pode destruir a estabilidade (ainda mais quando ela não está tão estável assim). Shyamalan, através de seu roteiro afiado, quer mostrar o que acontece com um homem quando ele sente falta de algo, e não necessariamente sua fé. Vá esperando assistir um filme profundo e psicológico, sua tensão reside aí. Não existem cenas de ação, Shyamalan evita filmar isso. Quando há uma cena de combate físico, Shyamalan filma algo diferente, como uma lanterna.

Mel Gibson(em seu último filme em que atua como personagem principal, até a estréia de O Fim da Escuridão) faz um Graham prerfeito, com um olhar perdido em meio ao tempo-espaço, parecendo não dar conta do tamanho do problema ao seu redor, quero dizer, do globo terrestre. Joaquin Phoenix (Gladiador, A Vila) faz o papel mais carismático da trama. Mesmo adulto, ele também mostra uma faceta infantil (foi facilmente absorvido pelo medo que às crianças passaram a ter e incentiva Graham à tomar "atitudes insanas"). As crianças não decepcionam (mas também não fazem grande coisa). Rory Culkin (o sobrenome dele diz tudo, e olha que eu nem notei quando vi os créditos). Abigail Breslin (Pequena Miss Sunshine, O Amigo Imaginário) -- em seu primeiro filme -- faz uma excelente, para seus padrões, Bo.


Shyamalan aqui adota um estilo movimentado na primeira parte do filme, me lembrando um pouco Martin Scorsese (O Rei da Comédia, Ilha do Medo). Depois o filme assume um visual excessivamente shyamaliano: a câmera está normalmente parada ou filmando de fora, com alguma coisa atrapalhando a nossa visão, como uma grade ou folhas de plantas, o que se encaixa perfeitamente na proposta do filme, dando a impressão que alguém está observando-os (e de fato está).

A fotografia do mestre Tak Fujimoto (Terra de Ninguém, O Silêncio dos Inocentes) aliada com a música de James Newton Howard (Eu Sou a Lenda, Conduta de Risco) causam um efeito de terror avassalador, mesmo nas cenas em que a câmera anda parada. Fujimoto utiliza maravilhosamente o efeito de luz e sombra, fazendo lembrar, por vezes, o mestre Vittorio Storaro (O Último Imperador, Prequela de O Exorcista).

Eu sigo com aquela de que a crítica persegue desnecessariamente M. Night. Sinceramente não vejo necessidade de montar uma inquisição contra o diretor indiano. Por que? Do mesmo modo que a crítica não sabe reconhecer as qualidades de Shyamalan, exagera, exalta, coloca num pedestal e se curva até onde não pode mais, a imagem de Quentin Tarantino. Eu estou exagerando? Bom, basta ver que Sinais, assim como Embriagado de Amor e Ilha do Medo é um filme aberto a interpretações. Quantos filmes se abrem para fazer isso hoje em dia? Dá para contar nos dedos. Bom, claro que o filme tem suas falhas, mas isso é mais na direção de atores que Shyamalan faz. Por exemplo: ele insiste, quase obrigando aos atores ficarem enquadrados no meio da cena, forçando-os a olharem para a câmera, mesmo quando não querem, incomodando tanto a quem assiste como a quem atua. Fora isso o filme não trás maiores imperfeições incomodativas.

Aproveitem esta oportunidade e assistam o filme com a mente aberta, pois assim vocês poderão sentir o medo que eu senti, assim como aquelas quatro pessoas no centro da sala de estar à noite longe da civilização com aliens-demônios na porta disaj (viram? Eu estou escutando Won't Get Fooled Again e o CD falhou e eu me assustei. Jurei que fosse um alien. Vou recomeçar:) com aliens-demônios na porta da sua casa.

E vocês também dirão "Está acontecendo."

Nota: 4 estrelas em 5.

Por Victor Bruno

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Tudo o que eu sempre quis escrever, mas nunca tive coragem (ou conhecimento)


Não, não é uma pornochanchada. É um pseudo-cult.

Eu não tenho coragem de fazer uma incursão pelo cinema nacional. Nem que me paguem eu não iria passar horas assistindo as maiores porcarias já feitas dentro da nossa fronteira. Agora o portal Cinema do Veja.com foi mais corajoso que eu e encarou esta epopéia. Por isto hoje posto aqui...

...Os Dez Piores Filmes Já Produzidos no Cinema Brasileiro! (Se bem que dá para fazer uma lista de mais de 50 filmes)

E, como diria o Adam West, para a lista do Veja.com!

Os 10 piores filmes do cinema brasileiro

(Obs.: O texto tem pequenos comentários meus, entre colchetes.)


10. Luzia Homem

“Age e pensa como homem. Ama e sente como mulher.” É assim que Luzia Homem é apresentada ao público no trailer do filme de 1984. Baseado no romance homônimo de Domingos Olímpio, conta a história da menina que presencia o homicídio de seus pais, passa a ser criada por um vaqueiro e acaba ganhando os trejeitos dos homens do sertão [dessa forma faz até parecer que ela virou lésbica, ou uma "mulher macho" como dizem no Nordeste], até que cresce, vai atrás do assassino e acaba se apaixonando. Além da fraca atuação de Claudia Ohana, a protagonista não tem nada que chegue a cativar a simpatia do espectador. Na literatura, a história é considerada um clássico. Nos cinemas, não passou de algo sem grande expressão, talvez também por deixar a essência retirante do livro de lado e focar a vida amorosa da personagem.


9. Lula, o Filho do Brasil

A mais cara produção brasileira – 12 milhões de reais [dos cofres públicos] – estreou nos cinemas este ano esperando atrair mais de 5 milhões de pessoas. Não chegou a 900.000. Claramente, a mitificação que Lula, o Filho do Brasil faz da vida do presidente não agradou. O diretor, Fábio Barreto, chegou a dizer que sua intenção não era ser fiel à realidade, mas sim “fazer um melodrama”. E conseguiu, já que muitas cenas mostradas no longa jamais aconteceram, e outras foram infladas de tal forma que Lula ganha ares de herói. Em uma passagem, por exemplo, Lula criança enfrenta o pai, que tentava bater em sua mãe, gritando: “Homem não bate em mulher”. O fato verdadeiro – citado pelo livro de mesmo nome – é que, depois de bater em Dona Lindu, o pai de Lula avança para bater nele, mas é contido pela mãe.


8. O Guerreiro Didi e a Ninja Lili

Se seu filho chegar com todo aquele charme típico das crianças pedindo: “Papai, faz um filme para mim?”, não aceite. Tome como exemplo o erro cometido por Renato Aragão [aliás, sua existência é um erro] ao dizer “sim” para Lívian e produzir O Guerreiro Didi e a Ninja Lili (2008), depois de já ter mimado a filha com O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili (2006) – sim, são dois filmes diferentes. É importante, claro, levar em consideração que desde o fim dos Trapalhões ele parece estar fazendo hora extra na TV e no cinema, alheio ao fato de o sucesso do passado já ter ido por água abaixo. Por isso, a cada ano surge um título novo que ganha os cinemas e decepciona crítica e público. Mas nada que se compare ao talento duvidoso da pequena Lívian que, se sonha mesmo em ser atriz e protagonista de um filme de verdade algum dia, tem um longo caminho pela frente.


6. Orfeu

A mitologia grega subiu o morro carioca em pleno Carnaval. Em vez de um deus, Orfeu (Toni Garrido) é compositor de escola de samba. Sua amada, Eurídice (Patrícia França), é a mais nova moradora da favela, e o antagonista da história é Lucinho (Murilo Benício), chefe do tráfico local. Uma adaptação abrasileiradamente pobre de um drama que, na versão original, é permeada por magia e deuses. Incrivelmente, foi o filme que o Brasil tentou levar ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Nem chegou perto. Apesar da pouca consistência da trama e da tentativa fracassada de Toni Garrido de convencer como ator, conseguiu atrair 900.000 pessoas aos cinemas e foi veiculado em horário nobre na TV aberta. [E assim os autores gregos rolam nos seus túmulos.]


6. Acquaria

Sandy e Júnior são irmãos, cantam e querem o bem do mundo. Não, não se trata da biografia dos filhos do sertanejo Xororó. É o filme Acquaria (2003), que mostra a luta de dois jovens pela preservação da Terra e dos humanos, a partir do momento em que o planeta vê todas as suas reservas de água secarem [premissa muito boa, mas...]. Mas, para tentar atrair a atração do público, o longa não poderia se limitar ao já limitado talento da dupla no ramo da atuação. Pensando nisso, a história teria que seguir em algum momento para o lado da música. Afinal, eles são cantores. O longa mostra, então, a vila onde moravam dois cientistas que desenvolviam uma máquina de gerar água e, ao mesmo tempo, construíam instrumentos musicais. Depois que eles são mortos, o local se torna ponto de encontro de músicos. E Sandy canta [e o Júnior pula, claro]. Levou pouco mais de 800.000 pessoas aos cinemas.


5. Xuxa em Sonho de Menina

Nas décadas de 80 e 90, qualquer filme que levasse o nome de Xuxa era chamariz suficiente para atrair milhões de pessoas aos cinemas e garantir sucesso. O período de férias escolares era dominado por ela e Os Trapalhões. Mas, a entrada dos anos 2000 foi um golpe de foice na majestade da Rainha dos Baixinhos. Seus filmes viram o número de espectadores cair vertiginosamente. Xuxa em Sonho de Menina (2007) foi o marco dessa decadência [e ainda não haviam reparado?] – depois de mais de dois meses em cartaz, o número de espectadores não saiu da faixa dos 300.000. Em entrevista, Xuxa chegou a dizer que se tratava de uma sequência de Lua de Cristal (1990) [puá! -- Mas hein?]. Mas nem de longe a história da professora Kika, que volta a ser criança ao comer um doce de maçã mágico, pode ser comparado ao clássico que levou mais de 5 milhões de pessoas aos cinemas.


4. Doida Demais

Verdade seja dita: Vera Fischer é, sim, só um mais rostinho bonito na TV [e a edição da Playboy de janeiro de 2000 confirma isso]. Quando o espectador entende isso, passa a perceber que ela cumpre bem seu papel no filme Doida Demais (1989), feito numa época em que pudor não era algo muito aplicado ao cinema nacional [pornochanchadas e Amor, Estranho Amor...]. O que resta, portanto, é admirar seu corpo e os lindos olhos verdes. Nem os grandes talentos de José Wilker e Paulo Betti fazem a história valer alguma coisa. Vera vive Letícia, uma falsificadora de quadros, que decide terminar seu relacionamento com Noé (José Wilker). Ele não aceita e começa a perseguí-la, principalmente depois que ela conhece Gabriel (Paulo Betti), com quem começa a se relacionar. O filme foi uma decepção para os fãs do diretor Sérgio Rezende, que vinha numa carreira de sucesso crescente.


3. Inspetor Faustão e o Mallandro

Se o talento de Faustão como apresentador é algo duvidoso, como ator ele pode ter uma certeza: não nasceu para isso. Junte-se a ele o inclassificável Sérgio Mallandro e uma história bizarra [olha a pegadinha do Mallandro!] e temos Inspetor Faustão e o Mallandro, filme de 1991. Faustão é um feirante que recebe um chamado divino para investigar o desaparecimento de uma espécie rara de codornas, cujos ovos são alvo de contrabando devido a suas propriedades afrodisíacas. São estes ovos que servem de inspiração a Mallandro, o desastrado assistente do inspetor que sonha em ser cantor, para criar o “rap do ovo” – que se tornou um clássico trash da década de 90 [assim como os Mamonas Assassinas] (...). Registrou um público de pouco mais de 400.000 pessoas.


2. Entre Lençóis

A inquestionável beleza de Paola Oliveira e Reynaldo Giannechini é a única coisa que realmente chama a atenção em Entre Lençóis (2008). Talvez por isso o diretor tenha explorado os corpos dos dois atores de todos os ângulos possíveis [fazendo uma espécie de Calígula (Tinto Brass - 1979). O ambiente facilitou as filmagens nesse sentido, já que quase todo o filme se passa em um quarto de motel onde figurino acaba reduzido ao lençol da cama – quando muito. É onde o casal se encontra desde a primeira vez, após se conhecerem em uma boate e trocarem umas poucas palavras [na verdade me lembra mais a sinópse de um filme pornô, mas...]. Mesmo que depois o mesmo quarto sirva para que eles conversem sobre os mais diversos temas, muito pouco se acrescenta. Tudo na relação de Roberto e Paula parece confuso e superficial, assim como o longa, que teve pouco mais de 130.000 espectadores [o que é uma injustiça, por que é a Paola Oliveira].


1. Cinderela Baiana

Vergonha alheia. É o que sentem os brasileiros que assistem ao menos um trecho de Cinderela Baiana (1998). Se até Carla Perez [ahhhh!, meus sais!] – a protagonista – disse mais de uma vez que “como atriz” se arrepende do filme, ele não deve ser algo que deva ser levado a sério. Tudo já começou errado, quando alguém pensou que uma dançarina de axé, por melhor que fosse, mereceria uma cinebiografia. Sim, o filme conta a trajetória da loira, que venceu uma infância pobre para ganhar fama e sucesso na dança. Mas tudo é contado, claro, de uma forma muito mais “épica”. Foi um fiasco de bilheteria nos cinemas – não há números oficiais, talvez pela dúvida de que alguém tenha realmente assistido [ele cortou meu comentário -, mas é um grande sucesso no YouTube entre os fãs de fitas “trash” [não, o trash é mais decente que "isto". No apoteótico final, Carla desce de seu super carro indignada – mesmo que a expressão facial não retrate isso – ao ver pequenos pedintes na beira da estrada, faz um discurso criticando o trabalho infantil e dança alegre ao lado das crianças (...).


E assim chegamos ao final da nossa viagem pelo cinema brasileiro. Entre fantasias infantis e filmes com caráter descaradamente eleitorais (sim, é isso o que eles fazem com o nosso dinheiro), eu me pergunto: Onde estão os cineastas que querem fazer cinema de verdade aqui no país?)

De fato o futuro vai ter que lidar com o passado filmístico ridículo que estão deixando aqui.

Por Victor Bruno

P.S.: Eu originalmente pensei em colocar uma foto de Luzia Homem. Mas já que estamos falando de tanta coisa ruim, divirtam-se com a Paola Oliveira no nosso O Último Tango em Paris (desculpa Bertolucci).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Roteiros - Untitled Paul Thomas Anderson Project

Apresento-lhes algo que nunca pensei que fosse achar. Pelo menos não tão cedo. O roteiro de hoje está ainda sem título, mas é o que os cinéfilos vêm chamando de The Master, dirigido pelo mestre Paul Thomas Anderson (Magnólia, Boogie Nights).

O filme, que ainda nem começou a ser filmado, provavelmente será estrelado por Philip Seymour Hoffman (Capote, Dúvida) e Jeremy Renner (Guerra ao Terror, S.W.A.T. - Comando Especial).

Clique aqui para baixar.

Por Victor Bruno

William Monahan e o peso de Scorsese


Ele parece com o Michael Cimino
quando mais novo, não?

Vamos regressar no tempo. Em 2005 estreou o filme Cruzada (Kingdom of Heaven) de Ridley Scott. O filme que contava a história de um ferreiro que se torna soldado que luta na Jerusalém da Idade Média marcou a estréia do roteirista William Monahan. O filme se tornou um grande sucesso de bilheteria, mas recebeu uma recepção média da crítica.

Minha opinião? Bom, não é um filme ruim, mas também não é bom. É uma boa alternativa de entretenimento.

No ano seguinte estreava o filme Os Infiltrados (que gosto de me referir como Os Que Partiram) (The Departed - 2006), de Martin Scorsese. O filme imediatamente virou um estrondoso sucesso de bilheteria (faturou aproximadamente 290 milhões de dólares mundialmente) e de crítica. Stanley Kauffman (não, ele não é parente do Charlie Kaufman) ainda conseguiu encontrar temáticas filosóficas e psicológicas na trama. Segundo ele o filme, além da violência, fala da relação pai-filho e do conceito de identidade e "como isso aflige nossas ações, emoções, segurança e até mesmo nossos sonhos."

Após dois anos veio Rede de Mentiras (Body of Lies - 2008), um retorno com Ridley Scott, trazendo no elenco Leonardo DiCaprio (que já havia trabalhado com Monahan em Os Que Partiram - The Departed). Novamente o trabalho de Monahan recebeu recepção mista da crítica. De fato o filme é ruim, caminha lentamente e se foca mais na ação do que na trama política, se tornando uma espécie de O Reino (Peter Berg - 2007), só que com uma qualidade não tão boa.

Agora, em 2010 William Monahan volta às telas com um O Fim da Escuridão (The Edge of the Darkness), sob a batuta de Martin Campbell (Cassino Royale, A Máscara do Zorro). De novo seu roteiro (desta vez com a co-autoria de Andrew Bovell) não teve boa recepção da crítica.

Em alguns meses Monahan estreará na direção, com o filme London Boulevard, com Collin Farrel. Isso me faz pensar... Monahan é ruim ou os filmes de Scorsese são superestimados? Talvez um pouco dos dois. De fato Rede de Mentiras é ruim, Cruzada é exagerado, mas... e O Fim da Escuridão? É um filme bacana, com uma boa trama política baseada numa série da TV britânica. (Aonde quero chegar? Leia a fantástica conclusão neste mesmo bat-horário, neste mesmo bat-post.)

Talvez Monahan seja mesmo fraco. Aliás, qual roteirista não tem seus pontos fracos? Todos têm. Por isso o diretor é superestimado. Monahan escolhe projetos que visam público (e teve sorte de embarcar numa viagem com Scorsese pelo mundo do crime de Boston). Talvez por que ele estava esperando o momento certo para dirigir algo mais pessoal, como London Boulevard.

Chegando a uma conclusão. Monahan, só Scorsese salva.

Por Victor Bruno

Dedicado à Tim Berners-Lee

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Nossa maldita internet

Não vai ter nada haver com cinema, mas tenho que desopilar meu ódio a este senhor, se não cometerei um assassinato a sangue frio à lá Dexter.

Se vocês não estão lendo uma crítica sobre O Terminal (Steven Spielberg - 2004), é por que o senhor Berners-Lee não inventou nada que salvasse todos os textos do mundo, você querendo ou não.

Sua invenção também colabora para que milhões de idiotas ao redor do mundo não utilizem a Internet como meio de produção de conhecimento, mas sim para ler coisas inúteis (como esta). Portanto morra Tim Berners-Lee!

Por Victor Bruno

Adeus... José Saramago

Nota inicial: Sinceramente eu não esperava ter de fazer dois "Adeus" com datas tão próximas. Primeiro dennis hopper, e agora saramago.

Estou indeciso. Eu escrevo um poema ou um texto convencional ao mestre josé saramago? Não, não vou escrever um poema. Eu nem gosto de poesia (apesar de admirar escritores que escrevem neste gênero). Por isso, em homenagem a saramago, vou escrever nomes próprios aqui à moda saramaguense, sem colocar letras maiúsculas.

Eu disse que gostaria de escrever e dirigir o evangélho segundo jesus cristo. Eu também disse que se saramago tivesse a mesma reação ao meu trabalho do mesmo modo que teve a reação ao trabalho de fernando meirelles, minha vida estaria completa (é, eu sou pretensioso).

Infelizmente ele... parou de viver. Apesar de já estar doente, isso não tira o pesar que eu, e todos os outros admiradores ao redor do mundo, têm para com saramago. Por isso que fico triste com a perda do escritor lusófono mais influente dos últimos tempos.

Por victor bruno

terça-feira, 15 de junho de 2010

O elogio a 'Natural Born Killers' - Um post experimental

Revistando minha crítica de W. (que mais se parece com uma revisão da carreira do Stone) eu resolvi escrever este texto dissertando sobre a inclusão de diferentes modelos de filmagem numa película fílmica (que para descomplicar nós chamaremos de filme).

Na verdade eu estava planejando escrever uma crítica neste final de semana de Assassinos por Natureza (Oliver Stone - 1994). Não conheço mais nenhum filme que insira tanta variedade de modelos de captura de imagens. Super 8, 70mm, câmeras de TV e câmeras de segurança, animação. Pegue tudo isso, bata num liquidificador da marca Oliver Stone e veja a dor de cabeça que você vai ter.

Isso me faz pensar... é realmente necessário? Por que... quando não é utilizado de maneira correta, a mistura de estilos de filmagens pode ser gratuita e desnecessária. Tomemos por exemplo o clássico Solaris (Andrei Tarkovski - 1972). A cena do carro do carro do psiquiatra andando pela Berlim oriental russa (vulgarmente conhecida como Moscou), dura vários minutos e Tarkovski insiste em misturar colorido com preto e branco, de forma incomodativa e gratuita (vai ver este é o único erro em todo Solaris.

Mas este é o X da questão. Quando a mistura de captura de imagens é gratuita? Bom, vejamos o exemplo de Corpo Fechado (M. Night Shyamalan, 2002). Digam o que quiserem, mas Shyamalan é um excelente diretor (eu falei "diretor", não "roteirista"). No filme em questão, Shyamalan, nas cenas de flashback utiliza-se das técnicas de descoloração e, na revelação final, filma utilizando câmeras de segurança. Gratuitamente isso seria motivo de incômodo para a audiência, mas o cineasta indiano utilizou a técnica certa na hora exata. Um bom diretor sabe utilizar este tipo de coisa sem incomodar o público.


Aonde quero chegar com isso? Simples. Ressuscitarei o tema Oliver Stone com vocês, garotos e garotas. Quando vocês notam que um diretor quer chamar a atenção para si? Muito simples de ser respondido. É quando ele começa a se utilizar de técnicas sem propósito nenhum na hora errada. Qual a necessidade de colocar uma animação numa simples cena de casamento? Exatamente, nenhuma. Assim é com Assassinos por Natureza. Vocês podem encarar este texto como um exercício de futilidade completamente desnecessário. Alguns vão dizer "Incendiário! Não conseguiu captar a obra de Stone!". Outros, como este que vos fala, vão achar que eu me perdi no meio do texto. De fato eu não sei para onde vou. Eu escrevo ou não uma crítica ao filme ou um texto sobre técnicas improváveis de filmagens. Eu não sei. Assim como Oliver Stone não sabe se faz um filmeco de violência degenerada baseado num roteiro de Quentin Tarantino ou se faz uma crítica à violência tão em voga no cinema atual. Por que vocês não perguntam para o menino que matou uma criança degolando sua cabeça após ter assistido o filme. Provavelmente a resposta dele vai ser "Eu quis fazer como Mickey e Mallory Knox."

Tomemos por exemplo, também, Clube da Luta (1999) de David Ficher. Um filme que soube, do início ao fim, se criticava a violência, a vida, ou se vangloriava a violência, volta e meia utilizando técnicas de filmagem improváveis (e até mesmo semi mensagens subliminares (obrigado à Disney pelas pérolas do subconsciente que eles colocam nos filmes. Vejam o caso de Bernardo e Bianca (1977)).
Quero te ter, quero te ter muito... ahhhh! Vai!
Mas, no fim, qual o sentido disso tudo? Experimento ou foi só para "se aparecer"? Eu mesmo não sei, mas obrigado Oliver Stone pelas suas edições doidas. Foram de suma importância para este post.

Por Victor Bruno

P.S: Não adianta procurar mensagens subliminares neste post. Se encontrarem, quero que saibam que foi por causa do pano de fundo original, tratando-se de um texto objetável.

domingo, 13 de junho de 2010

Os Incompreendidos

Os Incompreendidos
Les Quatre Cents Coups, 1959
Dirigido por François Truffaut
Roteiro de François Truffaut Marcel Moussy
Com Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Remy, Patrick Auffay

Conforme fiz na minha crítica de Shutter Island, farei uma observação sobre os títulos nacionais de filmes estrangeiros. Normalmente são escabrosos e não têm nada haver com a proposta da obra. Será que aqui neste filme de Truffaut (A Noite Americana, Fahrenheit 451) o título nacional também foi outra desgraça? Não. Aliás, de todos os títulos do mundo para esse filme, o título tupiniquim é o que mais se aproxima da proposta do filme. Inclusive, numa comparação mais exagerada, pode ter mais haver com a história do que o próprio título original, 'Les Quatre Cents Coups' -- algo como 'Pintando o Sete' no Brasil. De verdade "les quatre cents coups" significa "os quatrocentos golpes", e em alguns países esta foi a decisão tomada pelos tradutores, como nos Estados Unidos. Isso, meus amigos, é uma grossa falta de interpretação sobre o filme.


O filme conta a história de Antoine Doinel (Léaud), um garoto de cerca de 14 anos pobre, filho de um casal em constante turbulência. Antoine dorme ao agradável som das infindáveis brigas do casal. Fora isso, ele ainda tem que aturar um professor linha-dura na escola. Não aguentando mais a pressão, Doinel foge, passa uma noite nas ruas, mas logo volta para casa, quando os pais tentam uma reconciliação com o filho. Funciona por um tempo, mas Doinel, como bom adolescente que é, rapidamente volta a ser o mesmo de antes, mesmo tentando um breve esforço, quando se apaixona pela literatura de Balzac. E assim as suas aventuras se sucedem... ele toca fogo na casa, rouba uma máquina de escrever, etc.

É interessante, pois em todos os momentos da história do cinema os cineastas têm (e continuarão tendo) uma dificuldade hercúlea de retratar as crianças nas telas. Normalmente jogam um drama água com açúcar, ou fazem um filme Sessão da Tarde que não vale os watts que estamos pagando para assistir (vocês acham mesmo que a televisão é gratuita?). Felizmente Truffaut faz um tocante e carinhoso retrato da juventude, fazendo de Doinel um jovem aventureiro errante. Além disso Truffaut teve a inteligência de transformar o que seria a história de um adolescente "mal" em um adolescente "adolescente". Uma pessoa que às vezes tem boas intenções mas acaba fazendo o mal, perfeitamente mostrado na cena da redação em que Doinel plagia um texto de seu ídolo Balzac. "Sua busca pela perfeição lhe enviou diretamente para um zero", diz o professor, provocando em nós um misto de riso pelo quão embaraçante pode ser aquela situação, e tristeza por Doinel só queria fazer um bom texto. Além dessa existem outros pequenos incidentes provocados por Doinel tentando fazer boas ações.


Jean-Pierre Léaud vivem um Doinel excepcional, um verdadeiro adolescente. Parece que Truffaut escreveu o papel sob medida para ele, tanto que nos outros quatro filmes da série "Doinel" (fora um curta) Léaud sempre interpreta a personagem. Fora Léaud, Clarie Maurier fazendo a mãe de Doinel tem o papel mais intenso do filme. Na verdade, sendo bem simplista, todos os atores interpretam suas personagens de forma estupenda (eu mesmo consegui encontrar carisma na grossa personagem do professor de Doinel). Fora tudo isso o filme é dono de uma espetacular fotografia preto e branco com um aspect ratio estranho para a época, o 2:35:1.

Certamente Truffaut encontrou a fórmula certa para se filmar a fase mais incerta das nossas vidas.

Nota: 3 estrelas em 5

Por Victor Bruno

Jukebox - Pulp Fiction

Infelizmente terei que dar o meu braço a torçer e dizer que Pulp Fiction (1994) tem uma boa trilha sonora. Realmente Quentin Tarantino tem uma certa decência para inserir músicas com o timing correto. Aliás, é assim em todos os seus filmes. Ruins (leia-se Kill Bill -- argh!) ou médios. Por hora ele ainda não conseguiu me decepcionar neste quisito. Agora eu quero que ele suba de nível nas histórias e que pare com a verborragia desnecessária.

"Misirlou"
Written by Fred Wise, Milton Leeds, S.K. Russell, Nicholas Roubanis
Performed by Dick Dale and the Del Tones (as Dick Dale & His Del-Tones)
Courtesy of Rhino Records

"Coffee Shop Music"
Courtesy of Capitol/Ole Georg Music

"Jungle Boogie"
Written by Ronald Bell, Claydes Smith, George Funky Brown (as George Brown),
Robert Spike Mickens (as Robert Mickens), Donald Boyce, Richard Westfield, Dennis D.T. Thomas (as Dennis Thomas),
, Robert Kool Bell (as Robert Bell)
Performed by Kool & The Gang
Courtesy of Polygram Special Markets

"Strawberry Letter #23"
Written by Shuggie Otis
Performed by Brothers Johnson
Courtesy of A&M Records, Inc.

"Bustin' Surfboards"
Written by Gerald Sanders, Jesse Sanders, Norman Sanders & Leonard Delaney
Performed by The Tornadoes
Courtesy of GNP Crescendo Records

"Let's Stay Together"
Written by Al Green, Al Jackson Jr., Willie Mitchell
Performed by Al Green
Courtesy of HI Records
Under License From CEMA Special Markets

"Son Of A Preacher Man"
Written by John Hurley, Ronnie Wilkins
Performed by Dusty Springfield
Courtesy of Atlantic Recording Corp.
By Arrangement with Warner Special Products & Polygram Record Operations Limited

"Bullwinkle Part II"
Written by Dennis Rose, Ernest Furrow
Performed by The Centurians
Courtesy of Del-Fi Records, Inc.

"Waitin' In School"
Written by Johnny Burnette, Dorsey Burnette
Performed by Gary Shorelle
Produced by Joseph Vitarelli & Nicholas Viterelli (as Nick Viterelli)

"Lonesome Town"
Written by Baker Knight
Performed by Ricky Nelson
Courtesy of EMI Records USA, A Division of ERG
Under License From CEMA Special Markets

"Ace Of Spades"
Written by Link Wray (as F.L. Wray Sr.), M. Cooper
Performed by Link Wray
Courtesy of Rollercoaster Records, England

"Rumble"
Written by Link Wray (as F.L. Wray Sr.), M. Cooper
Performed by Link Wray And His Raymen
Courtesy of Rollercoaster Records, England

"Since I First Met You"
Written by H.B. Barnum
Performed by The Robins
Courtesy of GNP Crescendo Records

"Teenagers In Love"
Written by William Rosenauer
Performed by Woody Thorne
Courtesy of GNP Crescendo Records

"You Never Can Tell"
Written by Chuck Berry
Performed by Chuck Berry
Courtesy of MCA Records

"Girl, You'll Be A Woman Soon"
Written by Neil Diamond
Performed by Urge Overkill
Courtesy of Touch And Go Records, Inc.

"If Love Is A Red Dress (Hang Me In Rags)"
Written by Maria McKee
Performed by Maria McKee
Courtesy of Geffen Records

"Flowers On The Wall"
Written by Lew DeWitt (as Lewis DeWitt)
Performed by The Statler Brothers
Courtesy of Mercury/Nashville
By Arrangement With Polygram Special Markets

"Out Of Limits"
Written by Michael Z. Gordon (as Michael Gordon)
Performed by The Marketts
Courtesy of Go-Jo Music

"Surf Rider"
Written by Bob Bogle, Nole Edwards, Don Wilson
Performed by The Lively Ones
Courtesy of Del-Fi Records Inc.
By Arrangement with Rhino Records

"Comanche"
Written by The Revels
Performed by The Revels
Courtesy of Downey Records

Por Victor Bruno

Roteiros - Sangue Negro

Voltando ao tema Paul Thomas Anderson abordado no último final de semana, revirei minha biblioteca e encontrei uma cópia de um roteiro de Sangue Negro (There Will Be Blood - 2007). É um excelente exemplar para quem estuda cinema.

É interessante observar alguns aspectos do roteiro de Thomas Anderson. Por exemplo: ele insiste em descrever como a cena será filmada. Vamos ilustrar utilizando um exemplo do roteiro de Magnólia (Magnolia - 1999):

EXT. PHARMACY - NIGHT

HIGH ANGLE, looking down as Sir Edmond comes out the door,
locks up for the evening. CAMERA BOOMS DOWN and PUSHES IN
TOWARDS HIM, WHIPS RT TOWARDS:

NARRATOR
He was murdered by three vagrants whose
motive was simple robbery. They were
identified as:

A COATED MAN standing in the shadows of the alley way nearby.

NARRATOR
...Joseph Green.....

CAMERA WHIPS RT. again, nearby ANOTHER MAN steps closer --

NARRATOR
...Stanley Berry....

CAMERA WHIPS RT. one more time and PUSH IN towards THE LAST MAN --

NARRATOR
...and Nigel Hill...

WIDE ANGLE, ABOVE SCENE.

The three men move in on Sir Edmond and start to knife him
to death, stealing his money and jewelry. CAMERA PULLS BACK
and up to include the sign of the pharmacy now:
"Greenberry Hill Pharmacy."

CUT TO:

LUMIERE FOOTAGE REPLAYED.
Three men hug. Bang...bang...bang...

NARRATOR
Green, Berry and Hill.

FREEZE FRAME On the last hanging image.

NARRATOR
...And I Would Like To Think This
Was Only A Matter Of Chance.

OPTICAL WIPE OF FLAMES FILL THE SCREEN, CAMERA PULLS BACK:

Talvez esse seja o roteiro que P.T. menos fez descrições (assim como este é o filme em que P.T. menos movimentou a câmera). Clique aqui para tirar suas conclusões.

(Claro que eu poderia ter postado o roteiro de Magnólia, mas não achei nenhum em pdf.)

Por Victor Bruno

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sobre o preto e branco

Pode-se dizer que existem poucos filmes preto e branco que realmente honram sua falta de coloração. Não há nada (e nunca mais vai existir) algo tão elegante, que consiga exercer tanto fascínio e admiração neste que vos fala quanto um filme em preto e branco.

Hoje os cineastas utilizam quase que gratuitamente o p&b. Como desculpa, eles dizem que dá um charme a mais à obra. De fato é realmente elegante uma obra sem cores, mas deve-se utilizar com cautela. Um preto e branco jogado à torto e a direita... é só um preto e branco, mas este recurso quando utilizado de forma inteligente passa a ser uma peça a mais no universo filosófico. Imagine se os produtores de ... E o Vento Levou (Victor Fleming - 1939) não utilizassem o Technicolor? O filme se tornaria mais um filme preto e branco na Hollywood da época de ouro (e certamente o beijo apaixonado de Scarlett O'Hara e Rhett Butler seria só mais um beijo em p&b).

Tomemos o exemplo de A Lista de Schindler (Steven Spielberg - 1993). É certamente um filme que utiliza bem o p&b, mas não deixa de ser um grande melodrama. Algumas cenas são tão claras que me fazem pensar se não seria melhor gravar colorido com uma tonalidade escura. Já O Pianista (Roman Polanski - 2002) é um filme para lá de negro, podendo ser perfeitamente gravado em p&b.


Mas por que eu estou falando da coloração dos filmes? Simples. Neste final de semana pude assistir a primeira uma hora e meia de Satantango (1994), do diretor húngaro Béla Tarr. O filme tem inacreditáveis sete horas de duração. Para não perder todo o dia assistindo uma única obra eu pensei comigo "Vou virar a noite assistindo o filme. Assim, quando for umas sete e 45 da manhã eu já vou ter terminado." Faz sentido, não? Teoricamente. Só que eu esqueci que é do filósofo húngaro Béla Tarr, sinônimo de minimalismo, longos planos sequência (o primeiro take do filme tem 8 minutos) e de uma narrativa lenta (o mesmo primeiro take mostra um grupo de vacas e bois andando por uma cidadela rural, simplesmente genial).

Vou usar Tarr como um exemplo de um bom emprego do p&b. Aliás, é uma regra deste cineasta utilizar apenas o preto e branco em suas obras, o que reflete perfeitamente sua visão de mundo. O mundo é preto e branco e sujo. Chega a ironia quando algum personagem descreve uma cena utilizando cores. "O homem derrubou uma tigela azul." Esta é uma das falas de Petrina em Satantango. Eu senti uma vontade quase desesperadora de ver cores, mas tudo o que eu via era escuridão e aquele ponto brilhante irradiando luz com um filme desesperadoramente lento e bicolor.

Já que hoje temos a oportunidade de ver filmes coloridos saltando para as nossas caras podendo nos causar problemas de visão, diretores e diretores de fotografia devem saber dosar o preto e branco, para não se tornar banal como o 3D (que já é bem antigo... Audioscopiks que o diga).

Por Victor Bruno

segunda-feira, 7 de junho de 2010

W.

W.
W., 2008
Dirigido por Oliver Stone
Escrito por Stanley Weiser
Com Josh Brolin, Elizabeth Banks, James Cromwell, Richard Dreyfuss

Quando você vir um filme com o letreiro "An Oliver Stone Film" após Entre o Céu e a Terra (Heaven & Earth, 1993) , fique de olhos bem abertos, pois provavelmente será um filme pseudo-polêmico e que lhe fará ter dores de cabeças fortíssimas.

Ao contrário do que muitos possam pensar, Oliver Stone não é um grande cineasta como a maioria dos críticos e das pessoas possam imaginar. Oliver Stone é um cineasta médio. Isso não é de todo ruim, pois um cineasta médio consegue até entreter a platéia sem ser medíocre, mas Stone parece ainda viver no seu tempo de glória, quando fazia filmes do calibre de JFK (1994) ou Nascido em 4 de Julho (1989). Stone não é mais o mesmo, e eu vou dizer por que. Ele tem uma ânsia quase que incontrolável de ser o mais polêmico possível e usar o máximo de recursos virtuais que ele conseguir encontrar. Filtro de cores, imagens sobrepostas, câmeras que variam do 35mm ao Super 8... isso, quando utilizado gratuitamente pode fazer o espectador desmaiar. Uma crítica que eu li sobre Um Domingo Qualquer (1999) dizia que um dos espectadores saiu do cinema dizendo "Nossa! É muito louco!". O espectador não era um adolescente que quando vê 2012 (2009) diz que é o melhor filme do mundo, mas sim uma adorável velhinha com dor de cabeça.

(Sim, ao que parece, caro leitor, esse texto será uma revisão da carreira de Stone, já que é a minha primeira crítica sobre qualquer um dos filmes do cineasta.)

Stone começou, em Platoon (1986) como um simplório cineasta, que não abusava de filtros de cor nas câmeras, mas sabia jogar com o que o ambiente lhe dava (até hoje ele faz isso bem), méritos ao diretor de fotografia Robert Richardson (O Aviador e Neve Sobre os Cedros). Mas parece que Stone foi aumentado a ânsia de chocar o espectador com qualquer filme que fizesse. Talvez o filme que Stone conseguiu utilizar (ou controlar) melhor seu desejo de utilizar cores e câmeras seja em Nascido em 4 de Julho, onde do nada uma simples tomada de câmera vira uma imagem na TV.


Como dito anteriormente, Stone também tem o desejo de ser polêmico, ou chocante, ou qualquer coisa que faça você dizer "Caramba!". É realmente necessário o cinasta mostrar um jogador perdendo um globo ocular em Um Domingo Qualquer? Aliás, isso existe? Talvez seu desejo de ser polêmico só conseguiu se encaixar bem na sua obra-prima JFK, onde, vai ver, nem era sua intensão, ,mas, mesmo assim, é uma obra bem tendenciosa. Deste filme para filme para frente Stone deslancha para edições confusas e estranhas.

Realmente não há outro meio de iniciar essa crítica sem um longo prólogo. Para que? Para vocês notarem como Stone mudou seu jeito de filmar. Entre a edição conufusa de Um Domingo Qualquer e a simples (mas arrastada) de Alexande (2004), eu sou muito mais a edição do segundo filme. Não me fez ter dores de cabeça.

Parece que alguém jogou uma pedra na cabeça do cineasta nova-iorquino e ele se tocou que, apesar de difícil e bela (sim, é bonito de se ver) seu estilo não se encaixa nos filmes que vinha propondo. Stone tentou em seus três últimos filmes ser mais normal. Se por um lado seus trabalhos ficaram mais normais, não se pode dizer sobre a qualidade. Alexandre é... bem, é Alexandre, uma mistura de Stone em Nixon com Gladiador (2000). As Torres Gêmeas (2006) é um filme longo, cansativo e que não leva nada a lugar nenhum (Oliver não é um cineasta que consegue filmar de modo criativo dois caras enterrados sob sete metros de escombro duarante um dia inteiro).

(Agora, depois dessa longa jornada de conhecimento "stoneano", podemos finalmente discutir o filme.)

Finalmente chegamos a W., a cidade perdida -- digo -- o filme de Stone. A obra conta a história do passado e do "menos presente" do ex-presidente do grande demônio ocidental -- os Estados Unidos -- George W. Bush. O filme mostra como Bush (Brolin) deixou de ser um mauricinho encrenqueiro, bêbado, degenerado e preguiçoso para se tornar um homem responsável. Em resumo, um homem renovado. Como não poderia deixar de ser, o filme também aborda as ações do presidente. Na verdade o filme se atém apenas em mostrar a polêmica invasão do Iraque.

É interessante observar como o filme insiste em mostrar George como um típico texano, falando de boca cheia e que gosta de uma boa caçada (falta apenas ele cuspir fumo no chão para ser um cowboy). De fato o filme prefere mostrar a transição de W. de um garoto mimado e encrenqueiro para um homem responsável. Mesmo assim Bush nunca deixa de ser perseguido pela má educação e, principalmente, pela sombra do pai, o ex-presidente George H. W. Bush (Cromwell).


Há dois modos de se olhar o filme. O primeiro modo é com os olhos da época da obamamania, quando todos estavam com facas na mão a ponto de matar George W. Bush, quando as agências de notícia reprisavam os piores momentos do presidente.

O segundo olhar é agora, quando nos armamos de novo para matar Barack Obama. Quando os conspiradores o apontam como o novo Anticristo (é engraçado que também chamavam Bush de demônio). Recentemente o Saturday Night Live brincou com isso, quando um dos convidados, vestido como o presidente negro, disse: "Parem de me pintar como o coringa! Mas se bem que... vamos ver minhas promessas: Eu fechei Guantánamo? Não. Eu melhorei a saúde? Também não. Eu reverti a crise? De jeito nenhum! Mas fazer nada é fazer alguma coisa."

Se nós olharmos com o primeiro olhar... vamos dizer que Stone se esqueceu de colocar as trapalhadas do texano na Casa Branca. Se olharmos com o segundo olhar... vamos dizer que está de bom tamanho. Mas existe o terceiro olhar: o olhar do crítico.

Stone não conseguiu fazer uma boa edição. Ele intercala o passado e o presente na história, e isso não faz o filme andar de jeito nenhum. Não se constrói um arco narrativo bom, o que deixa o filme meio que "anestesiado", passando diante dos nossos olhos de uma forma morna. Não estou dizendo que o filme é um chute entre as pernas -- por que existem sim muitas sequencias primorosas --, mas... bom, basta notar que o filme se torna mais emocionante e interessante justamente no seu final, com as consequências da invasão ao novo Vietnã, o Iraque.

Agora vamos ao mais interessante em todo o filme. As atuações. Se nem o roteiro de Stanley Weiser (Wall Street) ou a direção de Stone convencem, Josh Brolin e James Cromwell fazem um trabalho sensacional como Bush filho e Bush pai, respectivamente. Se destacando entre uma gama enorme de personagens e surgem e somem sem dar aviso (duvido se você adivinha de primeira quem é Tony Blair no filme).

Nas mãos de alguém como Tony Gilroy (Conduta de Risco) o filme seria brilhante, uma grande biografia de um polêmico presidente. Mas mesmo assim nota-se o esforço de Stone em fazer um drama político sério. Quando a câmera está numa reunião (muitas, por sinal) ela é calma e séria, adotando um cor que eu chamo de azul-Ridley Scott. Agora na época de maluquices do ex-presidente Stone adota uma hand-held abusada e gratuita. Eu sempre fui contra o uso gratuito da hand-held. Eu achei que um fotógrafo como Phendon Papamichael (Identidade, O Sol de Cada Manhã) fosse alertar o Stone disso.

Após o filme eu pensei "É, nada mal. Podia ser melhor, mas não é ruim." Um bom drama político vindo de um diretor não tão bom assim.

Nota: 3 estrelas em 5

Por Victor Bruno

domingo, 6 de junho de 2010

Como um homem faz chover sapos

Domingo é dia de "Grandes Cenas" e "Roteiros" aqui no Ornitorrinco, mas achei isso aqui melhor do que os dois juntos.

Posto o making of That Moment, dos extras da edição americana do filme Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson. O making of do filme é um diário que vai desde a idéia do poderoso filme de P.T. Anderson, em 1998 até outubro de 2000, quando o filme saiu de cartaz. Clique aqui para vê-lo.

Para efeito de curiosidade, That Moment (que singifica "naquele momento") é como P.T.A. situa a ação nos roteiros quando elas se passam ao mesmo tempo em lugares diferentes.

Por Victor Bruno

Gosto de Sangue

Gosto de Sangue
Blood Simple, 1984
Dirigido por Joel Coen (e Ethan Coen, não creditado)
Escrito por Joel Coen e Ethan Coen
Com John Getz, Frances McDormand, Dan Hedaya, M. Emmet Walsh

O que dizer sobre os Coen? É uma pergunta difícil... podemos classifica-los como cineastas que gostam de brincar com gêneros, sempre flertando com o noir e com as comédias escrachadas, ou podemos classifica-los como cineastas sérios que apenas bancam os palhaços em filmes como Arizona Nunca Mais e Matadores de Velhinhas? Eu acredito mais na primeira hipótese, o que prova que um diretor pode sim brincar com gêneros.

Aliás, brincar com gêneros é o que esses irmão de Minneapolis sabem fazer de melhor, e provam isso com maestria no seu primeiro filme, Gosto de Sangue, uma brilhante mistura do noir tão em voga na época de ouro de Hollywood com um Western meio disfarçado. É um neo-noir. Os irmãos Joel e Ethan admitem nesse primeiro filme uma fixação pelo gênero dos anos 40-50.

A história bem que poderia ser de um filme estrelado por Humpery Borgat: um dono de bar chamado Julian (Hedaya) suspeita que sua esposa Abby (McDormand) está o traindo. E de fato está. Ela anda dormindo com Ray (Getz), um funcionário do bar de Julian. O marido traído pede os serviços do detetive particular Loren Visser (Walsh), para tirar fotos dos dois e assim confirmar suas suspeitas. Após descobrir a verdade, Julian, agora um homem gélido, pede que o detetive "apague" os dois. A partir daí a história toma rumos trágicos.


A direção dos Coen está espetacular. Os dois prestam homenagem aos grandes filmes do gênero, como Pacto Sinistro, de Hitchcock. Na verdade, a dupla consegue trazer um efeito de terror tão grande que o crítico Mark Bourne diz que "Você consegue sentir alguém respirando nas suas costas", e eu concordo plenamente.

O roteiro -- inspirado -- dos Coen também não decepciona. Diálogos carregados são primorosos. Vale ilustrar a crítica com o voice over do detetive Loren Visser:
The world is full o' complainers. An' the fact is, nothin' comes with a guarantee. Now I don't care if you're the pope of Rome, President of the United States or Man of the Year; somethin' can all go wrong. Now go on ahead, y'know, complain, tell your problems to your neighbor, ask for help, 'n watch him fly. Now, in Russia, they got it mapped out so that everyone pulls for everyone else... that's the theory, anyway. But what I know about is Texas, an' down here... you're on your own.
Agora os atores. Dan Hedaya, assim como M. Emmet Walsh estão sensacionais. Hedaya passa uma expressão de ódio/rancor/frieza que faz gelar a espinha. John Getz está bom, assim como Frances McDormand. De qualquer forma a mulher de Joel Coen passa uma expressão de terror quando o filme vai chegando ao seu final. É neste ponto que McDormand melhora consideravelmente a qualidade da sua atuação.


Barry Sonnenfeld faz um trabalho senssacional na fotografia de Blood Simple (indicado ao Independent Spirit Award de melhor fotografia). O filme tem um honesto tom pastel que brinca com o jogo de luz e sombra, lembrando os melhores filmes noir, assim como os filmes de Scorsese, onde uma luz branca explode na tela. Vale dar nota também a edição de Roderick Jaynes (os Coen disfarçados) e Don Wiegmann, que está correta (mas tem de se admitir que a Versão do Diretor lançada em 2004 faz o filme fluir melhor).

Um grande exemplar do gênero neo-noir, os Coen provando que não é necessário milhões para fazer um grande filme. Sensacional, mesmo com alguns buracos na trama.

Nota: 3 estrelas em 5

Por Victor Bruno

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