quarta-feira, 20 de abril de 2011

Viagem a Darjeeling

The Darjeeling Limited, 2007 / Dirigido por Wes Anderson

Com Owen Wilson, Jason Schwatzerman, Adrien Brody, Amara Karan, Wallace Wolodarsky e Waris Ahluwaila


(3/5)

Na Natureza existe apenas uma coisa que pode matar Wes Anderson: Wes Anderson. O texano é dono de um talento raríssimo. Raro, mas muito raro. Nos dias de hoje, conta-se nos dedos quantos cineastas tem o estilo, a técnica, a inteligência e até mesmo a elegância de Anderson. Os visuais? Soberbos. Os diálogos? Ótimos. Maturidade? Hmmm...

Anderson só pode ser morto por si mesmo. Aliás, pelo excesso de si. Quando se contém, como no clássico Três é Demais (Rushmore, 1998), os resultados são soberbos. Quando embarca nas suas viagens autorais, os resultados saem crus, como no caso deste Viagem a Darjeeling. Mas ninguém pode culpar a Anderson. Não há dúvidas que um dos aspectos que compõem a receita do sucesso do diretor loiro é, exatamente, seu estilo ímpar. Os enquadramentos geométricos, o design de produção com ares europeus, as atuações mais que teatrais (em alguns momentos podem ser confundidas com amadoras). Para a crítica encantada e para o público desafiado, Wes Anderson é um oásis. Os floreios visuais são um convite, são o cartão de entrada para o seu universo estranho.

Mais eis que surge o problema, esses “floreios” visuais também são um convite para o desastre. Wes Anderson é uma espécie de Charlie Kaufman visual. Se as estripulias intelectuais de Kaufman são a única coisa que pode assassinar Kaufman, os visuais nababescos de Anderson são o que lhe assassinam. Tal qual A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, 2004), o diretor confere um cuidado com o visual que chega a ser obsessivo e preocupante. A estória soa ficar em segundo plano. Na verdade, é exatamente o que aconteceu com o filme estrelado por Bill Murray no já distante ano de 2004. Aconteceu com este? Não. Chegou perto? Talvez. E é esse o problema.

Entretanto, tudo começa com o roteiro concebido a seis mãos. O cenário do filme, que se passa na Índia, é um convite para os excessos. E depois, quem não se encanta com a profusão de cores, sons e cheiros da Índia. Até David Lean se encantou no genial Passagem para a Índia (A Passage to India, 1984). E Lean era outro artesão. Um artesão que pagou caro pelos excessos (vide A Filha de Ryan).

Enfim, o que Anderson e seus parceiros de escrita Jason Schwatzerman e Roman Coppola (sim, o filho de Francis Ford e irmão da Sofia) fazem aqui é exatamente o que M. Night Shyamalan fizera em Prying with Anger (inédito no Brasil): conta a história de uma jornada espiritual. No caso, esta viagem espiritual tem três integrantes: os irmãos Whitman. São eles Francis (Owen Wilson), Peter (Adrien Brody) e Jack (Schwatzerman). Os três perderam o pai há um ano e estão completamente perdidos, principalmente Peter, que está tentando se divorciar de Alice bem no momento em que ela engravida dele – e seu filho nascerá em um mês.

Toda a jornada fora cuidadosamente planejada por Francis e seu assistente Brandon (Wally Wolodawsky). Para todos os efeitos, a viagem prova-se uma grande desventura: o que deveria reaproximar os meninos termina por afastá-los e acentua ainda mais suas diferenças.

E isso se dá de uma forma bem interessante. Schwatzerman, Coppola e Anderson estabelecem desde os primeiros momentos de projeção uma atmosfera de certa tensão entre os irmãos Whitman. Observe, por exemplo, a reação de Jack quando vê Francis pela primeira vez dentro do trem (o Darjeeling Limited do título). O máximo que ocorre é um “Oi, Francis” bastante frio.

Mas nós não deveríamos estar rasgando seda para esse tipo de coisa. Ora, os irmãos estão sem se falar há um ano, é lógico que deveriam estar agindo friamente. E tenho medo de afirmar que isto seja a única coisa realmente interessante do filme, já que Anderson não consegue sustentar adequadamente a proposta da viagem espiritual. São poucos os instantes em que ficamos fora do Darjeeling Limited durante a primeira parte do filme, e raramente sai algo de bom nestes instantes. Aparentemente o diretor presa por montar cenas que reforcem ainda mais sua técnica. De fato, apenas uma boa piada pode ser encontrada na primeira parte do filme: Quando o trem sai da sua rota e Jack diz “Como um trem pode se perder? Não está sobre trilhos?”.

Para piorar, Anderson parece ter plena certeza de que está com um roteiro fraco em mãos e não faz absolutamente nada para melhorar. A sequência da “Oficina Luftwaffe” chega a ser inexplicável e a única explicação óbvia que pode ser encontrada é para fazer uma rima visual (interessante, de certa forma) com a cena que foi interrompida (de modo grosseiro, aliás) anteriormente.

Mas talvez eu esteja pegando muito pesado com Anderson. Viagem a Darjeeling parece ser somente um filme para desopilar o fígado do espectador. Ao contrário dos pretensiosos Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001) e A Vida Marinha..., este filme é narrado de uma forma bem leve, com visuais optando por cores primárias (mesmo numa triste sequência de um funeral), design de produção elegante (Mark Friedberg), fotografia arrojada (o sempre competente Robert Yeoman), mas simples. Ainda há, fora as atuações boas do elenco (destaque para o trio principal), a ótima trilha sonora escolhida a dedo pelo diretor, misturando os hits da Invasão Britânica com as trilhas sonoras do mago indiano Satyajit Ray e do francês Jean Renoir.

Anderson construiu um filme inteligente e leve. Entretanto, a sua existência parece depender do curta que o precede, Hotel Chevalier. A única explicação plausível para escutarmos “Where Do You Go to” aqui é por que tocou em Hotel Chevalier. Mas, de todas as formas, é sempre interessante acharmos referências a outras obras. Observe, por exemplo, que o terno que Jack veste neste filme é o mesmo que ele veste em Hotel Chevalier, ou que nos dois filmes ele sempre está descalço.

Mas Anderson não é diretor de filmes de fim de semana. Se for para filmar só para refinar sua plasticidade, é melhor ele rodar somente curtas como Hotel Chevalier.

Por Victor Bruno

20/04/2011

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