Como diz o
pôster brasileiro do filme, a loucura é
contagiosa. E com certeza os executivos da
Paramount do Brasil se infectaram com essa loucura para tachar o filme de uma maneira tão ordinária. O título
orginal do filme
Ilha do Medo é
Shutter Island. Não sei por que, mas
alguém de dentro das paredes do estúdio teve a ridícula
idéia de trocar o nome do filme aqui de
Paciente 67 para esse título ridículo. Dá a impressão é que esse brilhante suspense psicológico de Martin
Scorsese (
Touro Indomável,
Os Infiltrados) não passa de um filme bobo sobre um
serial killer que "aterroriza" uma ilha durante uma festa de adolescentes
universitários bêbados fazendo sexo sem culpa. Mas não é nada disso.

Em 1954, Edward "
Teddy"
Daniels (
DiCaprio) e seu parceiro
Chuck Aule (
Ruffalo) estão investigando o desaparecimento de uma perigosa paciente do Hospital
Psiquiátrico Ashecliffe Para Criminosos
Insanos, na remota
Shutter Island, em Boston. Ao chegar lá, o clima é de mistério, pois aparentemente ninguém parece querer colaborar com os investigadores, nem mesmo os pacientes. Aos poucos
Teddy vai sendo consumido pela dúvida e pela loucura (que realmente parece ser contagiosa).
É nesse clima de suspense em que Martin
Scorsese cria sua mais recente obra prima. Com certeza. Não entendo por que o filme tem recebido tantas críticas negativas. Por que as pessoas sempre querem que
Scorsese faça filmes sobre
gângster? Já temos tantos!
Vamos agora para os
atores.
DiCaprio mostra grande desenvoltura e amadurecimento neste trabalho. Infelizmente ele não consegue tirar aquela cara enjoada dele. São tantas caras e bocas que ele faz que é de se perder a conta. Ele espreme os olhos só para se abaixar. Mark
Ruffalo também está muito bem como o parceiro de
Teddy,
Chuck Aule. Pena que ele só tenha mais espaço no fim da
projeção.
O eterno
Gandhi,
Ben Kingsley, dá uma aula de interpretação como o sombrio Dr.
Cawley (este nome te lembra alguma coisa?). Ele não força a cara para parecer incomodado e interpreta seus diálogos com perfeição. Não me surpreenderia em vê-lo indicado para o
Oscar de Coadjuvante. Max
von Sydow e
Michelle Williams estão competentes também como o Dr. Naehring e a esposa morta de
Teddy, Dolores.

Foi muita coragem de
Scorsese ter deixado a cargo de
Laeta Kalogridis um roteiro de um filme tão complexo. Para quem não sabe,
Kalogridis escreveu o (
in)
esquecível Os Desbravadores e foi
co-roteirista do multi-reeditado
Alexandre, de Oliver
Stone. Acho que a pessoa certa para ter escrito o filme (que é uma bizarrice psicológica) chama-se
Charlie Kaufman. Não que
Kalogridis erre. Seu roteiro é bem amarrado, mas ela ainda tem muito o que aprender.
A fotografia de Robert Richardson (
JFK - A Pergunta que Não Quer Calar,
Platoon, ambos de Oliver
Stone) não apresenta muitas novidades, apenas mescla o seu estilo habitual de cores e luzes com a
câmera sempre movimentada de
Scorsese. Está competente, como sempre.
Agora a edição... o que é isso?!
Thelma Schoonmaker (que edita todos os filmes de
Scorsese desde
Touro Indomável) mostra por que é a melhor editora viva do cinema norte-americano. Mas infelizmente ela não está à prova de erros. As cenas dos
flashbacks e dos pesadelos de
Teddy com certeza deveriam ser encurtadas (menos o
sensacional flashback final). Faz parecer que o
diretor tinha um tempo pré estabelecido pelo estúdio e resolveram adicionar metragem no filme justamente nessas cenas.
O final com certeza você já deve ter visto em filmes anteriores, mas aqui ele com certeza é perfeitamente justificado. Não é motivo você matar o filme inteiro só por que reutiliza um recurso. Os filmes dos Irmãos
Coen pegam histórias batidas e sempre saem surpreendentes e foi
exatamente isso o que
Scorsese fez nessa sua obra-prima. Isso já aconteceu a ele outras vezes, ter sua obra criticada e, mais tarde, voltarem atrás. Espero que os críticos façam isso, pois é
imperdoável não
admitir que esse filme é um dos melhores e mais engenhosos filmes da carreira deste grande cineasta.
Nota: 4 estrelas em 5.