Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (crítica II)

Para Victor Bruno, a última parte da saga de Harry Potter não é nada demais, nem nada de menos. Apenas o suficiente

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

A saga de Harry, Hermione e Ron chega ao fim e Douglas Braga não gosta nada da sua conclusão

Especial David Fincher: A Rede Social

Na última parte do Especial, relembre o que Victor Bruno escreveu sobre A Rede Social, mais recente filme de David Fincher

Especial David Fincher: O Curioso Caso de Benjamin Button

Victor Bruno faz uma análise de O Curioso Caso de Benjamin Button, no penúltimo filme comentado neste especial

Especial David Fincher: Zodíaco

O nosso especial sobre David Fincher continua com Douglas Braga falando sobre Zodíaco, mais um thriller investigativo do norte-americano

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Informante

The Insider, 1999 / Dirigido por Michael Mann
Com Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Philip Baker Hall, Debi Mazar e Diane Venora

5/5

Fazer filmes investigativos não é fácil. Fazer filmes românticos, comédias, policiais, filmes de super-heróis é mais simples. Basta uma personagem carismática e um pequeno problema em frente e um escritor que consiga cativar o público por duas horas e a receita está feita. Já num filme investigativo – principalmente um com uma estrutura como a deste O Informante – existe uma batelada boa de problemas para atores, roteiristas e diretores resolverem. Como amarrar de forma uniforme e homogênea problemas pessoais, informações e ainda – de quebra, como se já não bastasse – a paciência dos espectadores? Espectadores são animais famintos por diversão e entretenimento – seja ele inteligente ou não. Logo, não é de se admirar que esta obra-prima de Michael Mann (de Fogo contra Fogo e Inimigos Públicos) tenha fracassado miseravelmente nas bilheterias, conseguindo devolver apenas 60 milhões do seu orçamento de 90 milhões.

Mas não é isso que se importa. O Informante é um raro caso de filme que consegue em suas duas horas e quarenta minutos de filme cativar o público e fazê-lo contorcê-lo na poltrona. Quando se conta uma história como a de – Jeffrey Wigand um cientista ex-pesquisador da Brown & Williamson, uma poderosa indústria do tabaco norte-americano – existe muito em jogo. Trata-se de uma história perturbadora, que mexe com grandes nomes do jornalismo e da economia americana. Para citar um exemplo, uma das personagens chave do filme é o (ainda vivo e influente) ex-âncora do lendário programa 60 Minutes, Mike Wallace.

Vou ser direto ao ponto: Jeffrey Wigand (Russell Crowe) é um homem que sabe demais. Após ser demitido de seu confortável posto da Brown & Williamson, resolve revelar ao mundo que a sua ex-empresa anda operando de maneira ilícita. Wigand –entendedor das coisas – sabe que a empresa anda colocando amoníacos – entre outros elementos químicos – em seus cigarros, para que o vício dos usuários aumente. Wigand – um antitabagista notório – resolve levar essa história ao público.

Mesmo que em contrato de sigilo com a empresa – que sabe que Wigand pode dedurá-los a qualquer segundo –, Wigand entra em contato com Lowell Bergman (Al Pacino) – produtor do 60 Minutes. E é neste exato minuto que a tensão do filme começa. Mann nos põe desde o primeiro segundo de projeção num permanente estado de alerta.

Optando por começar sua história fora de ambiente, Mann nos dá – de forma simples, mas eficiente – o perfil de cada uma das suas personagens. Por exemplo, o filme abre com uma sequência no Oriente Médio, numa entrevista produzida por Lowell Bergman para o 60 Minutes. Enquanto Mike Wallace – que se mostra rapidamente um jornalista arrogante, capaz de soltar pérolas como “Quem te disse que os teus dedinhos incompetentes têm o talento necessário para me editar?” – briga com os soldados do Hezbollah sobre o lugar onde irá se sentar; Lowell, de forma diplomática, fala diretamente com o Aiatolá e resolve tudo de forma simples – o que rapidamente mostra que Lowell, além de controlado, tem um impressionante talento persuasivo, o que será extremamente importante no decorrer da história.

Na contra-mão nós temos a personagem de Russell Crowe, o homem marcado. Observe sua primeira aparição. Wigand anda sempre cabisbaixo, olhando para trás, de forma inclinada. Ele é uma persona non grata, e nós não precisamos de nenhuma palavra para sacarmos isso, basta prestar atenção nas ações das personagens que o cercam. A direção inteligentíssima de Michael Mann nos encarrega de fornecer todos os detalhes: Veja que assim que Wigand sai do hall do prédio da Brown & Williamson, um segurança comunica (discretamente) a sua saída, via walkie-talkie.

De todas as maneiras, O Informante é uma meditação. Uma meditação inteligentíssima sobre o comportamento de dois homens distintos a uma mesma situação. O roteiro hábil de Roth e Mann explora todas as facetas de todas as personalidades de suas personagens, Wigand (nesta linda atuação de Russel Crowe, que, ao lado de Philip Seymour Hoffman é um dos atores mais competentes – e elegantes – desta geração) é um homem controlado, apesar de confessar ser explosivo. É até surpreendente quando o vemos falar “Fuck”, por que, sinceramente, é a última coisa que nós poderíamos esperar de uma pessoa como Wigand, simplesmente por que Wigand é o supra-sumo da elegância. Aliás, basta dar uma olhada nas cenas em que ele compartilha a tela com Al Pacino. Enquanto Lowell Bergman está quase sempre de cabelo assanhado e roupas amarrotadas, Widget está sempre com o cabelo impecavelmente penteado e sempre de terno passado (é digno de nota registrar que são pouquíssimas vezes que o vemos sem terno). Tanto direção como roteiro sabem que são dois homens distintos. Note que enquanto a casa de Bergman está banhada em cores quentes e acolhedoras, a (nova) casa deles é filmada afogada permanentemente numa paleta de cores frias, normalmente com a cor azul. (Eu poderia sim dizer que é simplesmente um cacoete de Mann, coisa que qualquer um que assista Miami Vice pode notar, mas no caso a constatação se aplica.)

O Informante é um filme sem medo de explorar as coisas. É até louvável (e um pouco impressionante) que a Disney tenha deixado Mann fazer um filme como esse. Vejamos: Eric Roth e Michael Mann exploram de forma extremamente eficiente os bastidores da notícia e das grandes corporações (algo que é digno de aplausos). Sem medo de mostrar Mike Wallace como um homem preocupado com o seu legado (o que o leva a concordar com Don Hewitt, produtor executivo e criador do 60 Minutes quanto a não-exibição da bombástica entrevista de Wigand) e Al Pacino como um homem de saco cheio (“Dá um tempo, porra!”), Roth e Mann ainda conseguem explorar a vida familiar, tanto de Bergman como de Wigand, o que nos leva a torcer ainda mais por eles.

Adotando um estilo realista – quase documental – Mann consegue fazer que essa exploração seja ainda mais eficaz. O fotógrafo Dante Spinotti faz um trabalho muito inteligente. Para nos manter sempre próximo das personagens do filme, Spinotti utiliza lentes chapadas, o que diminui a profundidade de campo, além de optar pelo uso da hand-held cam (recurso que não gosto, mas foi utilizado de forma eficaz e elegante neste filme), colocando a câmera a centímetros do rosto dos atores, o que aumenta a sensação de presença (deve ser extremamente desconfortável atuar com a lente da câmera tocando no seu queixo), repare também como as sombras são uma presença constante, e se sobrepõem as personagens. E é justamente quando Mann e Spinotti abandonam o estilo realista que o filme tem sua pior cena. Não vou dizer qual é, mas é risível.

Distanciando-se do expoente máximo do filme do gênero jornalismo investigativo, Todos os Hoemns do Presidente (All the President’s Men, 1974), O Informante não romantiza o jornalismo. Ao contrário do Washington Post daquele filme, a divisão de notícias da CBS – ao que parece – não preza tanto pela credibilidade da notícia que leva ao seu espectador – e isso quando leva, o que leva o filme a colorir aquele ambiente de forma fria. De fato, o único fator que aproxima Todos os Homens do Presidente e O Informante é, somente, o ótimo design de produção de Brian Morris.

O Informante é um conto da força de vontade. Aliás, não há forma melhor de descrever o filme, senão citando o próprio Lowell Bergman: O Informante é um filme sobre “gente ordinária sob mais pressão que podem suportar.”

Por Victor Bruno
25/07/11

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (crítica II)

Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2, 2011 / Dirigido por David Yates
Com Daniel Radcliff, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Matthew Lewis, Tom Felton, Maggie Smith, Michael Gambon, Evanna Lynch, Bonnie Wright, John Hurt, Ciarán Hinds e Helena Bonham Carter

4/5

Você se lembra onde estava quando ouviu falar em Harry Potter pela primeira vez? Eu me lembro. Eu me lembro também da minha aversão completa em relação à série. Ao meu ponto de vista (infantil, até então), Potter tratava-se de um bruxinho estúpido, acompanhado de sua amiga arrogante e prepotente – o estereótipo mais ridículo da mocinha inteligente que manda nos outros – e de seu amigo ruivo com cara de panaca.

Até assistir o terceiro capítulo da série, O Prisioneiro de Askaban, dirigido por Alfonso Cuarón, minha visão permanecia intacta. Depois, percebi que sim, até poderia ser interessante. Claro que à medida que aprofundei meus conhecimentos sobre Cinema, o nome de Alfonso Cuarón fazia toda a diferença no filme. Ao contrário dos primeiros filmes, aqueles dirigidos por Chris Columbus, Harry Potter era algo mais sério do que eu poderia imaginar – mesmo em meus sonhos mais selvagens. Ainda mantinha certa aura inocente, boba, mas estava claro que os filmes seriam diferentes daqui para frente.

Então, agora que chegamos ao último capítulo dessa saga que se arrastou durante uma década, eu posso ter certeza absoluta ao afirmar que esse bruxo, mago, ou sabe-se lá o que, marcará a história do Cinema. Harry Potter entrará no mesmo Olimpo em que estão agora Luke Skywalker e Frodo, Dumbledore vai para onde está agora Gandalf e Yoda, e Voldemort (ainda que seja quase um figurante) irá para a galeria de vilões imortais do Cinema, ao lado de Darth Vader.

É realmente impressionante – e até admirável – a coragem de David Yates para com seu filme. Adotando uma narrativa bastante ágil, o diretor não perde um só segundo sequer explicando o que está acontecendo. Tanto ele como seu roteirista Steve Kloves (que assinou os roteiros de todos os capítulos da saga, salvo A Ordem da Fênix) têm plena consciência que esta última parte da série é resultado de uma década de preparação, logo, explicar pacientemente para quem não está acostumado com o universo criado por J.K. Rowlling seria não apenas desonroso para quem acompanha a série, mas quebraria o tom de urgência que este último capítulo pede.

E essa urgência é perfeitamente captada pelas lentes de Yates. Sem se entregar em nenhum momento ao melodrama barato (apesar de se entregar a comédia de riso fácil, conforme discutirei a seguir), David Yates consegue passar a toda a violenta ação que cerca o universo negro e perigoso de Harry Potter de forma humana e inteligente. Em momento algum Yates se nega a mostrar os resultados – e os efeitos – da violência praticada por Harry e seus companheiros. Observe as cenas envolvendo o dragão ucraniano, na sequência do assalto ao cofre de Belatriz (Helena Bonham Carter). Veja  os ferimentos e mutilações que se espalham pelo corpo do dragão – resultado de anos e anos de maus-tratos. Também podemos usar como exemplo (spoiler, não leia se não viu o filme, salte para o próximo parágrafo) a perturbadora morte de Severus Snape (Alan Rickman), onde o sangue jorra na parede de vidro. Obviamente Yates mostra isso de forma discreta, é claro, mas ainda assim é muito corajoso.

Por outro lado, ele constrói um filme descontrolado. Por vezes, a tal narrativa ligeira que insiste em adotar causa sérios danos ao filme. Como muitos apontaram (críticos e fãs, inclusive), Harry Potter 7.2 exibe certa frieza. Essa frieza, que visa objetivar a racionalidade da trama, chega a ser, por vezes, incomodativa para quem assiste, uma vez que quando Kloves e Yates investem no riso (riso fácil, bobo e pueril, infelizmente), a estratégia vai por água a baixo. E o pior: Muitos desses “alívios cômicos” surgem nas horas mais infelizes – e apenas infantilizam seus personagens e reforçam os estereótipos que eu condenei toda a minha vida. Por exemplo: Qual a necessidade de Ron (Rupert Grint, que tem um talento impressionante para interpretar babacas) gritar “Corre! Corre! Está pegando fogo! Eles tocaram fogo em tudo!” durante o incêndio repentino na Sala Precisa? Bom, nada contra os seus gritos histéricos, mas a forma como Yates constrói a cena (Ron desaparece num corredor, a câmera sustenta o plano, e segundos depois ele ressurge correndo do fogo) prejudica a seriedade que o filme quer passar. O ideal é que o humor empregado durante o filme fosse mais discreto e, talvez, um pouco mais negro, como, por exemplo, o bizarro riso de Voldemort (o sempre fantástico Ralph Fiennes) ao final da Batalha de Hogwarts, ou quando Neville Longbottom (Matthew Lewis) se vê sozinho em frente ao exército de Voldemort, quando a barreira mágica que protegia Hogwarts é destruída.

Falando em Valdemort, é impressionante como Ralph Fiennes é desperdiçado durante o filme. A figura sombria, quase alienígena, que sempre ameaçou Potter e Hogwarts, é relegada de forma frustrante ao papel de coadjuvante. É absolutamente desapontador o que Seve Kloves fez com uma personagem tão promissora como Voldemort – principalmente quando quem o encarna é Fiennes (assistindo Potter eu percebi que ele tem um imenso talento para interpretar personagens desfigurados, vide O Paciente Inglês). Sendo este HP 7.2 o confronto final entre Potter e Voldemort, eu esperava um filme mais focado nos dois. Todavia, Kloves insiste em passagens desnecessárias – como o beijo (decepcionante) de Gina (Bonnie Wright) e Harry. (Aliás, esse beijo empalidece perto do beijo de Ronnie e Hermione.)

Sendo tecnicamente competentíssimo (ainda que as criaturas mágicas sejam impressionantemente fakes, tão falsas quanto àquelas criaturas marinhas vistas em A Vida Marinha com Steve Zissou, de Wes Anderson), HP 7.2 tem uma fotografia regular, o que me decepcionou bastante. Principalmente quando se está trabalhando com alguém do calibre de Eduardo Serra. Optando sempre pelo close – para ressaltar o sofrimento das suas personagens – Serra enquadra estranhamente mal. Seus planos abertos parecem aborrecidos e malfeitos (ainda que os enquadramentos utilizados na Hogwarts do início do filme sejam impactantes e emulam os desfiles da Juventude Hitleriana). Serra limita-se a truques visuais práticos (e talvez até preguiçosos). Por exemplo, enquanto Harry aparece banhado por cores quentes, Voldemort aparece sempre em cores frias – algo que é reforçado pelo vestuário desenhado por Jany Temime. De todas as formas, existem imagens impressionantes neste filme (a supracitada cena da barreira protetora é belíssima).

Pra todos os efeitos, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte II (não posso deixar de registrar que essa divisão é puramente comercial) é um filme que agradará a todos – especialmente aos fãs da série. Apesar de ignorar muitas personagens (Helena Bonham Carter é esnobada, tendo apenas duas ou três falas em duas horas e quarenta de filme) e de algumas atuações medianas (Emma Watson não é boa atriz, sempre tende para o overacting e Rupert Grint ainda não aprendeu a se portar em um close), Harry Potter ganhou um ótimo final.

E claro, a impactante cena final é marcante. É desonesta, pois tenta tapar todos os buracos que o filme não soube cobrir. Mas quem liga para isso? Terminar com um close daqueles aventureiros não poderia ser mais desolador.

Por Victor Bruno
20/07/11

sábado, 16 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte II

Harry Potter and the Deathly Hallows: Part II, 2011/ Dirigido por David Yates
Com Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Michael Gambon, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Ciarán Hinds, Robbie Coltrane, John Hurt, Emma Thompson, Jim Broadbent, Kelly McDonald e Gary Oldman.

1/5

15 de julho de 2011. Uma data que ficará marcada para muitos, afinal de contas chega ao fim uma das séries mais adoradas e rentáveis da história do cinema.  "Harry Potter" acabou de vez e, a não ser por algum eventual devaneio de J.K. Rowling, não voltará. Eis que surge então a inevitável pergunta: Harry Potter e as Relúquias da Morte: Parte II faz jus à série? A resposta é não. Na verdade, não somente ele não oferece um final digno para a importância da saga, como nem mesmo um  bom filme chega a ser.

Mesmo não sendo um fã de "Harry Potter", acompanhei os sete filmes anteriores, e li os quatro primeiros livros. De todos, apenas dois filmes haviam me agradado plenamente: O Prisioneiro de Azkaban, de Alfonso Cuarón (disparado o melhor de todos) e O Enigma do Princípe, de David Yates. De qualquer forma, a despeito da qualiade bastante duvidosa dos outros filmes, a série alcançou um nível de reconhecimento notável por parte do público, logo era de esperar a expectativa de muitos com este último filme, também dirigido por David Yates (que também teria aqui a chance  de se redimir da confusa e tediosa Parte I de As Relíquias da Morte).

E o que encontramos nesta Parte II? Uma tentativa desesperada de Yates em criar um grande épico, um filme marcante e, neste sentido, até que começa bem. Os primeiros diálogos, com Griphook (Warwick Davis) e o Sr. Olivaras (John Hurt, sempre ótimo) são excelentes, muito bem executados em termos de roteiro e posicionamento de câmera. A seqüência no Banco Gringotes, aonde Harry, Rony e Hermione acreditam que está uma Horcrux (obejto que contém uma das partes da alma de Voldemort) é bem conduzida por Yates, com a dose certa de ação e tensão, além de ser um trabalho impecável tecnicamente (tanto por parte da fotografia de Eduardo Serra, belíssima, quanto da equipe de efeitos visuais).

Daí em diante, o filme segue ladeira abaixo. O roteiro parece ter sido sacrificado na busca de David Yates em realizar um show pirotécnico, um festival de luzes, barulho e explosões sem qualquer emoção. É incrível como a batalha de Hogwarts, que deveria ser o grande momento da saga, não empolga um segundo sequer, e qualquer comparação com as batalhas de "Os Senhor dos Anéis" chega a ser uma ofensa às adaptações de Peter Jackson. Em As Relíquias da Morte, há varinhas para cá, varinhas para lá, um morto sucumbe aqui, outro acolá, mas nada realmente impressionante.  Aliás, as cenas de morte de personagens importantes são absolutamente apáticas; fica parecendo que, para David Yates, a ausência de contornos excessivamente dramáticos é essencial. Mas, o que ele não percebe é que são personagens fundamentais  morrendo, e não se pode tratá-los como mera peças em um tabuleiro que podem ser facilmente descartadas sem maiores explicações.

Além do mais, há uma série de seqüências que beiram o ridículo e o mau gosto, e dão realmente a impressão de que David Yates e sua equipe não estavam seriamente empenhados em fazer um bom filme, já que este renderia muito dinheiro de qualquer forma. Vide o momento "Chico Xavier", cena de pós-morte tão ruim ou até pior do que de filmes brasileiros de cunho espírita recentemente lançados em circuito; e  também o momento "novela das seis", um epílogo abosolutamente ridículo e desncessário. Afinal, quando pensamos que o filme irá acabar (finalmente!), há uma seqüência final  mal feita, piegas e completamente deslocada em relação ao restante do filme, e que poderia muito bem ter ficado na sala de edição.

A falta de dramaticidade é outro problema que permeia o filme inteiro. É tudo tão corrido e frenético (exatamente o oposto extremo da Parte I), que momentos pretensamente marcantes, como alguns beijos e declarações românticas perdem qualquer relevância emocional que poderiam ter, já que para Yates o que importa mesmo é a "monumentalidade" de sua obra, e não detalhes insiginifcantes (para ele, é claro) como narrativa e bom desenvolvimento dos personagens.

Aliás, quanto a estes, ainda continuo me perguntando quais foram os motivos para a escalação de Ralph Fiennes como Voldemort.  Fiennes é um ator de amplos recursos, mas entrega aqui uma das piores atuações de sua carreira. Seu  Lord Voldemort, com voz e trejeitos extremamente afetados, não causariam medo nem no mais covarde dos bruxos,  e muito menos no público que assiste ao filme. Assim, a ausência de um vilão de "impacto", que já houvera sido um problema em filmes anteriores, aqui atinge o ápice: em vez de sentir medo, Voldemort em nenhum momento parece aterrorizante, muito pelo contrário, em certos momentos soa risível (principalmente no discurso que faz em Hogwarts em um determinado momento). E Yates parece não se importar, sempre dando closes constantes nas expressões exageradas de Fiennes.

O restante do elenco não está brilhante, mas também não compromete. Daniel Radcliffe entrega sua melhor performance como Harry Potter, o que não quer dizer muita coisa, já que seu personagem tem uma profundidade praticamente nula neste filme; Emma Watson e Rupert Grint, relegados desta vez a segundo plano (compreensivelmente, já que se trata do grande momento de Harry) continuam bem como Hermione e Rony. Por outro lado, enquanto foi um alívio ver a excelente Maggie Smith voltar a receber destaque como a professora McGonagall, outros atores (Jim Broadbent, Emma Thompson, Robbie Coltrane) estão ali só para "constar" e agradar aos fãs da série, já que não têm qualquer importância para a trama. O mesmo vale para a fantasma interpretada por Kelly MacDonald, inclupida somente para agradar fãs, mas fica nítido que sua presença poderia ter sido facilmente descartada. E uma questão me perseguiu durante toda a projeção: o que diabos houve com o Rabicho (Timothy Spall), que não teve um final conclusivo em outros filmes e simplesmente não aparece neste?

Como o duelo final entre Harry e Voldemort é oco em termos de emoção, a destaque de As Relíquias da Morte é  um personagem coadjuvante, Severo Snape. Alan Rickman, ótimo ator, acaba sendo o melhor do elenco, trazendo uma nova dimensão para seu personagem a partir de um flashback que, embora não seja brilhante, é um dos poucos momentos mais bem trabalhados pelo roteiro e relativamente bem conduzido pelo diretor. Ciarán Hinds, por sua vez, está ótimo como o irmão de Dumbledore, embora a sua relação como o mentor de Harry fique absolutamenete confusa e mal explicada. Helena Bonham Carter também tem alguns bom momentos, embora o desfecho de sua personagem possa entrar em um eventual ranking das piores cenas nos últimos anos.

Assim, passados dez anos desde o lançamento de  A Pedra Filosofal, no já longínqüo ano de 2001, a série "Harry Potter' irá deixar saudade para muitos fãs ao redor do mundo. Pena que ela se despede com mais um filme fraco, extremamente falho, e muito longe de ser o épico marcante que muitos esperavam.

Por Douglas Braga
16/07/2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Curioso Caso de Benjamin Button

The Curious Case of Benjamin Button, 2008 / Dirigido por David Fincher
Com Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Mahershalalhasbaz Ali, Jason Flemyng, Julia Ormond, Jared Harris e Fiona Hale

4/5

Por contrato, David Fincher, para fazer seu Zodíaco (Zodiac, 2007), teria de fazer um filme de cunho mais comercial – para compensar os dividendos que a Warner Bros. e a Paramount Pictures fatalmente teriam com o grande projeto autoral que Zodíaco é. O projeto já tinha nome e roteiro: O Curioso Caso de Benjamin Button.

Havia anos que Hollywood queria adaptar para as telas a fantástica história de um homem que nasce velho e rejuvenesce ao longo dos anos, mas nunca chegava a um ponto certo. O roteiro já havia sido escrito e reescrito diversas vezes – inclusive por gente como Charlie Kaufman (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Quero Ser John Malkovich). Os estúdios, “sem nenhuma razão particular”, como diria Forrest Gump, abandonavam o projeto.

O fato, é que David Fincher não era (ou é) o diretor mais indicado para um projeto como Benjamin Button. Fincher não é exatamente conhecido por dirigir projetos sentimentais. Ele não tem o toque – mas dizer que ele é um diretor frio seria um erro, basta assistir Clube da Luta (Fight Club, 1999) para comprovar o quão “quente” Fincher pode ser.

Mas só que Benjamin Button, em suas raízes, é um projeto de natureza sentimental. Não água com açúcar, mas sensível. Uma aura sensível que é carregada por seu personagem-título, numa interpretação igualmente sensível de Brad Pitt, durante toda sua saga. E Fincher é um diretor cerebral, com personagens que se guiam pela razão, e não pelo instinto. Button, ao contrário de Sommersets, Graysmiths e Zuckerbergs, tem um fortíssimo senso de sobrevivência e proteção. Button, talvez, se aproxime de Meg Altman (de O Quarto do Pânico), ou de David Mills (interpretado pelo mesmo Brad Pitt deste filme, em Seven). Tanto Altman como Mills guardam a o mesmo instinto de sobrevivência de Button – ainda que Mills seja um sujeito agressivo, de gatilho inquieto.

E é aí onde Fincher se perde. Com um personagem principal tão longínquo da sua grife habitual, o diretor fatalmente se perde com o roteiro melodramático escrito por Eric Roth (Forrest Gump, Munique), a partir do conto de F. Scott Fitzgerald. Roth – caminhando no sentido oposto do que fez em Gump – constrói toda uma aura nostálgica, o que, de certa maneira move a trama, mas que Fincher não sabe lidar – não por incompetência, mas por simples falta de experiência. Tomemos, por exemplo, as cenas de amor protagonizadas por Daisy (Cate Blanchett) e Button. Fincher, quando seus personagens começam a fazer amor, procura desesperadamente dar um fim na cena, ou desviar o olhar para objetos que tirem o casal do nosso campo de visão, o que o obriga a fazer coisas ridículas como mover a câmera para cima e nos fazer olhar para um lustre, terminando a cena, dessa forma, de uma forma deselegante e apressada. Não estou dizendo que deveríamos olhar para Button e Daisy fazendo sexo, mas há outras formas de terminar as cenas assim. Richard Linklater em Eu e Orson Welles (Me and Orson Welles, 2009), por exemplo, terminava suas cenas de amor de modo elegante e criativo, criando o chamado “espaço das entrelinhas”.

Mas claro, não quero dizer que Fincher faz um trabalho incompetente. Seria uma grossa mentira. Eu digo que ele é uma escolha não muito indicada, mas jamais um erro. Sim, Fincher estabelece uma atmosfera nostálgica de forma soberba. O diretor consegue, com uma eficiência realmente impressionante, nos dar uma maravilhosa noção de tempo espaço – o que é fundamental para a eficiência do filme, já que esta é uma estória que cobre quase um século na vida das personagens.

Para usar de exemplo, tomemos a sala da casa onde Button cresce. O local, além de residência de Queenie (Taraji P. Henson), mãe de Benjamin, e de Tizzy (Mahershalalhashbaz Ali), par romântico de Henson; é um asilo de velhos. Veja que, logo no início da narrativa, o design de produção de Donald Graham Burt e, principalmente, as roupas desenhadas por Jacqueline West (uma das melhores em atividade, em minha opinião), transformam o local numa espécie de clube saído diretamente da Era Vitoriana, o que é de uma importância fundamental, já que ali estão dejetos que o povo não quer mais, de uma época ultrapassada (lembrando que nós estamos, nesta parte da narrativa, em 1918). À medida que o tempo passa, os móveis e o vestuário daquela gente (que já não são mais as mesmas pessoas) evoluem ainda mais, e mesmo que já estejamos nos anos 30 (na narrativa), agora que eles chegaram em 1918. Tempo neste caso, é uma questão de sobrevivência para o filme. Temos que sentir a sua passagem. E Fincher se sai com bastante êxito. Um êxito que infelizmente não obteve em seu filme anterior, o espetacular Zodíaco, citado no início desse texto. Aliás, mesmo George Stevens em Assim Caminha a Humanidade (Giant, 1956) não conseguiu mostrar a passagem do tempo com a mesma sutileza de O Curioso Caso de Benjamin Button.

Além destes exemplos, Fincher consegue demonstrar sutileza e bastante precisão em suas decisões na hora de contar a saga de Button. Além de contar com uma trilha sonora bastante sensível de Alexandre Desplat (A Árvore da Vida, Harry Potter e as Relíquias da Morte Partes I e II), a fotografia de Claudio Miranda é soberba. Observe que bem no início da narrativa, no início mesmo, para acentuar o aspecto nostálgico do filme, Miranda emprega uma paleta de cores saturada, optando quase sempre por um amarelo dourado, como aquele visto na trilogia O Poderoso Chefão. Para as cenas que se situam no presente (no caso, 2005, minutos antes do furacão Katrina), Miranda e Fincher adotam uma paleta de cores bem frias, afogando a cena num azul tão gelado quanto aquele branco visto nas cenas que se passam na Rússia. Referências visuais a função das personagens também são de igual importância. Por exemplo, note que quase sempre Daisy está com algum acessório vermelho em sua roupa, representando o amor que sente (e que recebe) por Button.

Entretanto, o fundamental em O Curioso Caso... nem são as escolhas de Fincher, ainda que saltem os olhos, mas sim a enorme galeria de rostos que povoam a história. Desde o primeiro momento de projeção, as personagens, por mais breves que sejam, exercem uma função absolutamente importante: O histórico de vida de Benjamin. Seja pela mãe Caroline (Joeana Sayler) que nunca conheceu, ou seja por Tizzy, que não exerce função nenhuma na trama, essa enorme galeria de personagens marcam como Button é um homem que nada contra a corrente. É um outsider, e sempre será. Aliás, até penso que a imagem de uma sofrida Caroline dando a luz a Button seja uma metáfora para a futura existência sofrida de Button. Um sujeito fora de lugar.

E quem não é?

Por Victor Bruno
15/07/2011

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Zodíaco

Zodiac, 2007/ Dirigido por David Fincher
Com Jake Gyllenhalal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Brian Cox, Phlip Baker Hall, Elias Koteas, Anthony Edwards e  John Carrol Lynch

(3/5)

Em fins da década de 1960, uma série de assassiantos aterrorizaram a região da Califórnia, dos EUA. O suposto assassino enviou diversas cartas para a polícia e para a imprensa, contendo informações sobre os crimes e criptogramas, supostamente contendo pistas sobre sua identidade. Tais cartas eram assinadas com o nome "Zodíaco".  O assassino do Zodíaco, como ficou conhecido, continuou agindo na década de 1970, matando mais de 30 pessoas, mas nunca foi pego pela polícia. Embora mais de 2.500 tenham sido consideradas suspeitas, nunca se leantou provas suficientes contra nenhuma delas, e o caso continua aberto até os dias de hoje.

Uma história desse porte e com tanto potencial cinemtográfico poderia render uma obra-prima. Entretanto, o diretor David Fincher falha no que parece ser uma busca de "grandeza", com  o filme apresentando uma metragem absolutamente desnecessária (são 158 minutos, no total), um roteiro deveras confuso,  e montagem problemática, com a segunda metade quase "derrubando" tudo de bom que havia sido construído ao longo da primeira parte de "Zodíaco". . Por outro lado, Fincher conseguiu realizar um filme atmosférico, bem dirigido, com algumas das melhores seqüências já concebidas pelo diretor, e a própria complexidade da trama acaba mantendo o interesse até os créditos finais.

Como já dito acima, o início do filme é primoroso. Toda a primeira seqüência, na qual acompanhamos as primeiras vítimas do Zodíaco, é interessantíssima, com Fincher construindo um clima de tensão em que, embora saibamos que aquela pessoas serão alvos do criminoso, não sabemos exatamente como isso irá acontecer. Aliás, todas as cenas de ataque do serial killer (e Fincher optou por utilizar atores diferentes em cada uma delas, exatamente para despistar o espectator, o que se revelou uma escolha acertada) estão entre as melhores de todo o filme, com um clima de suspense que muitas vezes nem bons filmes do gênero conseguem apresentar. Além disso, o diretor capricha na construção visual do filme, com bonitas tomadas da cidade de São Francisco, somadas a um trabalho impecável de fotografia.

Por outro lado, nesta primeira metade, acompanhamos também como três indivíduos se envolveram com a série de crimes: o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), que escreveu um livro sobre o caso, que por sua vez serviu  como fonte para o roteiro do filme; o jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr.); e o inspetor David Toschi (Mark Ruffalo, seguro como sempre). Conhecemos as personalidades de cada um e o interesse deles em descobrir a identidade do assassino, ao mesmo tempo em que se sentem todos perdidos e confusos porque, a cada vez que um suspeito parece ser o criminoso, alguma coisa (sejam as impressões digitais, ou a escrita) acabam o descartando.

É uma pena, porém, que na segunda metade, o filme não mantenha o mesmo nível. O roteiro de James Vanderbilt se perde apresentando uma série de informações completamente irrelevantes, com o único propóstio de fazer o espectador se sentir mais confuso do que os próprios personagens. Aliás, falando destes, Robert Downey Jr. praticamente some do filme, que se foca nas investigações pessoais do personagem de Gyllenhaal. E coletando informações de jornais, arquivos e com policiais, ele vai de um lado para o outro, de uma cidade para outra (e a essa altura já estamos praticamente perdidos no tempo, já que o filme salta de ano em ano com extrema rapidez), com novos suspeitos surgindo e outros sendo descartados, tudo apresentando de forma tão depressa que se torna complicado absorver a quantidade de informações salpícadas pelo roteiro. Toda a habilidade que Fincher havia demonstrado em construir cenas atmosféricas e tensas também se "evapora" (um exemplo é a cena do porão que, em vez de tensa, é excessivamente fria, ainda mais em se tratando de um momento-chave da trama).

Aliás, o inspetor Toschi acaba sendo o personagem mais interessante do filme, dedicando grande parte de sua atuação profissional a tentar capturar assassino do Zodíaco. Em deteeminado momento,  ele parece se cansar da sua tarefa, ainda mais depois que é praticamente abandonado pelo seu parceito Bill Armstrong (Anthony Edwards), e a deixa praticamente toda com  o cartnista Robert.  E  a tentativa de dar alguma profundida à vida deste último soa quase risível, com sua família entrando e saindo de cena com cerca de apenas 15 minutos de filme. Quanto à identidade do Zodíaco, o desfecho é absolutamente previsível e sem grande inspiração por parte do diretor.

No fim, "Zodíaco" acaba sendo mais um filme muito bom de David Fincher, com alguns dos momentos mais interessantes de sua carreira como diretor. É uma pena que apresente um desquilíbrio entre os primeiros 80 minutos e toda a metade final, ficando a sensação de que poderia ter sido feito um filme ainda melhor. 

Por Douglas Braga
13/07/11

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Quarto do Pânico


Panic Room, 2002/ Dirigido por David Fincher
Com Jodie Foster, Kristen Stewart, Forest Whitaker, Jared Leto


(3/5)

De todos os gêneros pelos quais o diretor David Fincher se aventurou, o que mais saiu beneficiado pela lente do cineasta foi o suspense. Desde os sucesso de público e crítica de Seven - Os Sete Crimes Capitais (Se7en, 1995), as grandes expectativas em volta das novas produções do diretor sempre se focaram em possíveis novos suspenses, mesmo com suas tentavivas no terreno do drama e da fantasia. Tudo isso porque o estilo de filmagem e de direção de Fincher se casa perfeitamente com o que se espera de um bom filme de suspense. O que acontece, portanto, em O Quarto do Pânico não é muito diferente, embora não seja este o melhor exemplar do gênero em sua filmografia.

Visto por muitos como o mais sem graça de Fincher, O Quarto do Pânico não deve ser analisado com a mesma dose de exigência que filmes como Seven e Clube da Luta (Fight Club, 1999) proporcionaram. Isso porque a proposta dessa produção não é muito ambiciosa e se limita a entreter o público com uma trama ágil e bastante genérica, mas não por isso menos interessante. Na verdade, é até bastante inovadora para os padrões de seu cineasta, se levarmos em conta que desde Alien 3 (Alien 3, 1992) que Fincher não apostava em uma mulher como protagonista de seus filmes. Fora isso, nunca antes o diretor se valeu de um único cenário para a construção de sua história, e nem veio a fazer de novo até o momento. Ou seja, foi um risco escolher uma mulher como personagem principal e um único cenário para o desenrolar da idéia, dois elementos que geralmente não atraem o grande público.

Contrariando as expectativas baixas, com uma pequena ajuda do poder de Jodie Foster como atriz rentável, O Quarto do Pânico foi bem nas bilheterias e até hoje é bem recorrente quando o assunto é a filmografia de Fincher, alcançando assim um significado muito maior do que seu próprio conteúdo. A atriz escalada inicialmente para conduzir a trama era Nicole Kidman, mas Fincher sabia que sua protagonista precisava de uma presença mais forte e ágil, que passasse para o público segurança e inteligência. E ninguém melhor que Foster para dar vida a esse tipo de personagem. De fato, é ela que faz deste filme algo um tanto acima da média e relevante no meio de tantas outras produções americanas para o gênero.

A força da atriz é o suficiente para fazer da protagonista Meg Altman um verdadeiro deleite. Mesmo estando numa condição de desvantagem segundo a premissa do enredo, Meg consegue competir com a habilidade dos vilões e em momento algum fica por baixo, garantindo ao filme uma dose de adrenalina e dinâmica muito bem vinda, ao contrário da grande maioria das protagonistas histéricas e de QI duvidoso que geralmente assumem esse posto. Com isso em mente, é muito mais fácil aceitar todo o conjunto da obra quando somos apresentados à rotina de Meg e sua filha Sarah (Kristen Stewart), que se mudam para uma ampla casa em Nova York, privilegiada por um cômodo especial secreto apelidado de Quarto do Pânico, que possui uma segurança avançada para caso de emergências. Mal sabem elas que logo na primeira noite no novo lar um trio de bandidos invadiria o local. Agora refugiadas dentro do tal Quarto do Pânico, elas terão de reunir forças para sobreviver, principalmente ao descobrirem que é lá dentro que se encontra o alvo dos três assaltantes.

É então que a técnica de Fincher entra em ação, ao fazer daquele ambiente pequeno e estranho o elemento que protege as personagens ao mesmo tempo que se mostra o grande responsável por toda aquela situação perigosa. O quarto do pânico as colocou em perigo ao atrair três homens perigosos e altamente qualificados para a casa, mas ao mesmo tempo é a única forma de salvação e proteção delas. Fincher faz do cômodo um personagem, cheio de mistérios e segredos, que instiga curiosidade do espectador ao apresentar uma imagem de segurança e amaeaça. Resta então acompanhar e torcer por Meg, não somente para que ela escapar, mas também para conseguir descobrir o que há de tão precioso dentro do quarto e que atrai tanto a atenção dos três homens.

Sensações como claustrofobia, pânico, desespero, mal estar, falta de ar, e afins preenchem a tela e atingem o espectador, numa duração curta e eficiente que cumpre sua proposta de causar medo. Por outro lado, é um tanto decepcionante ver o rumo tomado por Fincher, que poderia ter tirado dessa premissa algo muito maior e mais significativo. A condução do filme é um tanto previsível, mesmo com uma Jodie Foster inspirada, e a revelação precoce do segredo em volta do quarto do pânico tira metade da graça. O que poderia ter sido um filmaço baseado na descontrução de uma mãe e uma filha em um ambiente inóspito, se torna um thriller que opta por caminhos fáceis e conclusões esperadas. No fim, Fincher errou ao dar prioridade à situação, e não aos personagens. Os personagens ali ganham uma significado de meras marionetes a fazerem exatamente o que era esperado, quando na verdade poderiam ter ganhado uma atenção especial e saído do terreno seguro dos suspenses. Certamente o cineasta percebeu isso e corrigiu mais tarde na hora de produzir Zodíaco (Zodiac, 2007), um suspense que acerta em tudo o que O Quarto do Pânico erra.

Mas isso não tira os méritos da produção, que apesar de menor, ainda assim está acima da média. Mesmo escolhendo alternativas mais básicas, Fincher fez de O Quarto do Pânico um bom suspense, que ganha um tanto mais de prestígio com as presenças de Foster e Whitaker. Mais que isso, é uma prova de que o diretor soube muito bem aproveitar seu enredo e, principalmente, seu cenário. São poucos os que sabem fazer o bom uso de ambientes pequenos e únicos sem deixar tudo tedioso ou pretensioso. Nesse ponto Fincher ganha muitos pontos e graças à isso temos em mãos uma obra que não é perfeita, mas com certeza agrada e proporciona algo além do óbvio.

Por Heitor Romero
11/07/2011

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