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sábado, 30 de abril de 2011

Quanto Mais Quente Melhor

Some Like It Hot, 1959 / Dirigido por Billy Wilder
Com Marilyn Monroe, Tony Curtis e Jack Lemmon


(5/5)

Comédia é um gênero difícil. Precisa ter equilíbrio, precisa ter bom gosto, precisa ter bom senso e, acima de tudo, precisa ser engraçada! Acontece que há uma linha bem tênue entre o engraçado e o ridículo, sendo difícil construir uma comédia de base sólida, que consiga ser mais do que apenas um causador de risadas eventuais, e se firmar com um filme de respeito em seu meio. Afinal, como dar à uma comédia um título, ou uma colocação de respeito, se tratando de um gênero tão descompromissado e de caráter leve? É preciso muito, mas muito talento mesmo para conseguir criar um filme de comédia que realmente mereça o status de obra-prima. E ninguém melhor que Billy Wilder, um mestre em todos os gêneros do cinema, para conseguir criar uma comédia desse nível. Quanto Mais Quente Melhor não é apenas uma comédia, não é apenas um filminho engraçado de assistir. É uma produção solidificada por grandes momentos, que fazem dela a maior comédia americana segundo o American Film Institute. E não é para menos, afinal, se trata de um dos trabalhos mais hilariantes já feitos na história do cinema. O mais genial de tudo se dá pelos elementos simples usados pelo diretor, que selecionou apenas ingredientes básicos de filmes estilo pastelão, e conseguir formar uma deliciosa e satírica comédia que se firmou como sendo a mais importante de todas. Se ... E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939) é considerado o romance dos romances, e Ben-Hur (Ben-Hur, 1959) o épico dos épicos, assim como Cantando na Chuva (Singin' in the Rain, 1952) é o musical dos musicais, então nada melhor do que classificar Quanto Mais Quente Melhor como "a comédia das comédias".

O enredo é bárbaro, feito especialmente para causar risadas do começo ao fim. Joe e Jerry (Tony Curtis e Jack Lemmon) são dois músicos atrapalhados que presenciam um massacre feito pela máfia em 1929, em plena vigência da Lei Seca. Para fugir desses criminosos, os dois se travestirão de mulheres para entrar numa banda feminina que tocará na ensolarada Flórida, bem longe de Chicago. A banda é liderada pela sensual Sugar Kane (vivida pela estonteante diva Marilyn Monroe), que fará o coração de Joe (agora com o sugestivo nome de Josephine) bater mais forte. Enquanto isso, Jerry (agora como a adorável Daphne) terá de se livrar das investidas do velho e assanhado milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown, com seu costumeiro sorrisinho radiante).

Essa premissa é a fórmula mais básica e certeira para arrancar risadas numa típica comédia pastelão. Estão lá os elementos mais clássicos arrancadores de gargalhadas: travestitismo, personagens trapalhões, a loira burra enlouquecedoramente bela e os ladrões atrapalhados a perseguirem os mocinhos. Interessante notar que, para a época, essa comédia não tinha nada para dar certo. Continha certa dose de violência e ação, assim como elementos um tanto avançados para a década de 1950, mas mesmo assim, driblando a censura com maestria, Wilder conseguiu montar uma grande obra-prima. E, claro, como em toda boa comédia que se preze, há uma gigantesca dose de duplos sentidos repletos de críticas ferozes, mas tudo sempre com a maior sutileza possível.

Outro fato interessante no filme é o uso dos gângsteres. Quem foi que disse que Wilder nunca tinha feito um filme sobre a máfia está muito enganado. A diferença está na forma como o diretor abordou esse tema. Ao contrário da grande maioria dos filmes sobre máfia, Quanto Mais Quente Melhor se trata de uma comédia, trazendo uma visão um tanto mais leve (em compensação, muito mais satírica) e diversificada sobre esse tema tão bem explorado em outras grandes obras. Abordar a Grande Depressão também com a comédia foi outra forma de Wilder se destacar da maioria dos diretores que usaram essa época da história dos Estados Unidos como pano de fundo para seus filmes. Sendo assim, podemos dizer que Quanto Mais Quente Melhor é um repleto de ingredientes básicos, mas que os usa das formas mais inusitadas possíveis.

Marilyn Monroe é um capítulo à parte. Mais uma vez a diva foi usada no papel padrão de loira burra e sedutora (estereótipo que a acompanharia até o fim de sua vida), mas ninguém melhor do que ela para encarnar a volúvel Sugar Kane. Além do mais, ela era o elemento feminino necessário para dar à trama um aspecto mais universal, evitando a obra de se tornar “mais um filme de máfia para o público masculino”. Toda a beleza, o sucesso e a aura de estrela em volta da atriz elevaram o filme a um padrão ainda mais alto e delicioso, de modo que fica impossível não se encantar pela personagem.

Tony Curtis foi outra investida de sucesso. O ator era tão famoso entre o público feminino, com seus olhos claros e brilhantes e seu topete de galã, que se tornou praticamente indispensável para o papel de Joe/Josephine. Jack Lemmon ainda era desconhecido pelo grande público, sendo nada mais que uma aposta, mas acabou se revelando ainda mais engraçado e carismático que Curtis, levando uma indicação ao Oscar por sua participação. E ver esses dois caras nem um pouco femininos, troncudos e truculentos, se equilibrando num salto e lotados de maquiagem barata, é um dos pontos mais altos de toda a comédia. Inclusive a escolha da filmagem em preto-e-branco foi um recurso escolhido por Wilder para dar maior credibilidade à maquiagem de Daphne e Josephine.

Claro, o ponto alto do filme, se tratando do diretor em questão, são os diálogos. Apesar de ser uma comédia pastelão (que geralmente foca mais o humor nas ações e não nas falas), são os diálogos que a tornam irresistível. O filme contém tantos diálogos hilários, que deitam e rolam em cima da situação embaraçosa dos protagonistas, que fica impossível não cair na gargalhada. Monroe também é responsável por boa parte das risadas, considerando toda a baixa inteligência de sua personagem. Ainda falando sobre tais diálogos mágicos, seria impossível não citar a famosa frase final do filme, com uma das falas mais sensacionais e marcantes de toda a história do cinema. Se ela não te mata de rir, pelo menos faz você parar para pensar no duplo sentido.

Como eu disse no início, comédia é um gênero difícil. No entanto, o cinema não seria o mesmo sem ela, já que se trata de um dos gêneros mais populares e indispensáveis. Mas há sempre controvérsias em volta delas, de modo que parece que poucas conseguem atingir a perfeição. Na maioria dos casos ou são engraçadas e burras ou são inteligentes e pouco divertidas, ou agradam público ou agradam crítica. Sim, é difícil achar a fórmula exata para uma boa comédia, e isso só aumenta o valor dessa feita por Billy Wilder. De fato, poucas conseguem atingir o nível da obra-prima dessa fera do cinema. Inteligente, engraçada, satírica, irônica, famosa e aclamada, a comédia Quanto Mais Quente Melhor pode então ser definida com apenas um predicado, que poucas vezes é usado no mundo do cinema ao se referir a um filme: Perfeito!

Por Heitor Romero

30/04/2011

E Django Unchained era seu nome

O respeitado site /Movie publicou uma fotografia que pode agradar aos fãs do diretor norte-americano Quentin Tarantino: Hoje cedo foi postada uma foto (à esquerda) que parece ser da capa de um possível Western Spaghetti que o diretor está produzindo. Titulado de Django Unchained, a capa está escrita à mão, um indício de que seja verdadeira. Para quem não sabe, Tarantino conserva o hábito de fazer a capa dos roteiros à mão desde Kill Bill.

Estão cotados para o elenco os atores Franco Nero (que, não por acaso, estrelou Django, filme de 1966, dirigido por Sergio Corbucci) e Christoph Waltz (o Hans Landa de Bastardos Inglórios).

Por Victor Bruno

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Amante de Lady Chatterley

Lady Chatterley , 2006 / Dirigido por Pascale Ferran
Com Marina Hands, Jean-Louis Coullo’ch, Hippolyte Girardot, Hélène Alexandridis, Hélène Fillières e Christelle Hes.


(3/5)

Lady Chatterley é um filme complicado, não pela história e temática, mas pela forma como ele é conduzido para os dias de hoje. Baseado num romance polêmico escrito pelo inglês D. H. Lawrence em 1928, onde uma mulher da alta burguesia se relaciona com um homem da classe trabalhadora pobre e empregado da família. Para a época, o livro continha cenas de sexo explícito e continham palavras que não eram aceitas pela sociedade, além do próprio relacionamento entre classes tão diferentes, que era menos aceito ainda devido ao preconceito ainda muito presente.

O filme conta, do ponto de vista da Lady Chatterley, a história de seu envolvimento com um guarda-caça da família. Depois da guerra, seu marido, um tenente do exército britânico volta de cadeira de rodas, o que gera nela grande solidão e a faz procurar coisas a fazer enquanto o marido se preocupa exclusivamente com uma mina que ele administra. Nisso, incumbida de dar uma ordem ao caçador da família, descobre uma casinha simples em um lugar muito bonito e rodeado por animais e natureza. Lá, o homem rústico de nome Parkin (Jean-Louis Coullo’ch, que lembra muito de perfil Marlon Brando) toma conta do local, é o caçador de animais para a família da Lady. Por causa da beleza do local e de um problema que pode ser um câncer hereditário, ela passa a visitar a casa onde Parkin trabalha e, aos poucos, desenvolve uma amizade que vai ficando cada vez mais intensa a ponto de despertar uma paixão entre eles.

Ao mesmo tempo em que o filme consegue pontos pela escolha inteligente do diretor em retratar o sexo de maneira não tão explícita (poderia muito bem ser um filme erótico) e dar mais atenção aos conflitos do casal e preocupações em relação à uma possível descoberta que poderia ser catastrófica, o filme também peca, pois, há pouca profundidade entre eles, tudo parece muito simples e artificial, não parece haver realmente uma preocupação entre eles e os outros. As conversas sobre o “proibido” romance entre eles soam rasas como se fosse, para a época, algo muito normal e natural, sem qualquer relevância. Não li o livro, mas este filme de Pascale Ferran não consegue passar o que se deve passar. O motivo de soar inteligente a escolha de não explicitar tanto o sexo e torná-lo banal é que hoje em dia o sexo está banalizado e, se fosse feito um filme da forma que o livro propõe, seria apenas mais um filme dentre muitos outros sendo que, antes desse, há cerca de mais de dez filmes sobre o mesmo livro.

Há muitas cenas lentas, aliás, o filme é bastante lento, com muitas cenas contemplativas mostrando florestas, ações comuns e banais envolvendo a tal Lady Chatterley, como ela bebendo água de uma fonte a qual cruza sempre que vai à casa do guarda-caça. O foco, mesmo no início do filme revelando ter sido escrito pelo amante de Chatterley, é totalmente nela, algo bastante curioso, pois, não sabemos como ele sabe ou soube tanto da vida dela, já que o filme não explora as conversas íntimas que os dois têm entre si.

O maior foco de Ferran é em mostrar a lentidão e a solidão de Chatterley perante a situação em que se encontra. Outro foco interessante é na descoberta de Chatterley no sexo mais profundo e íntimo e cultivado pelo real amor, algo que dá a impressão de que ela nunca vivenciou, como quando ela pede para que ele fique nu para ela antes da relação para que ela pudesse observá-lo, já que as relações que eles tiveram foram todas preocupadas e de certa forma tímida, vestidos e o clima sendo pouco explorado. O que salva o filme do total fracasso é realmente essa descoberta do íntimo, do carnal e do amor, pois o filme consegue ter um final estranhamente horroroso.

Os seus mais de 160 minutos poderiam com certeza terem sido muito melhor explorados. O romance pouco convence, dá a impressão de que eles estão fora da realidade para a época (ou talvez estariam). Falta realismo. Por um ponto de vista o filme é válido, tem seus méritos, por outro, é somente mais um filme que não leva a lugar algum e, depois que sai do lugar simplesmente pára. Os fatos finais acontecem rapidamente enquanto a trama do filme se desenrola demasiadamente lenta.

Por Pedro Ruback

29/04/2011

domingo, 24 de abril de 2011

Infâmia

The Children's Hour, 1961 / Dirigido por William Wyler
Com Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, Karen Balkin, James Garner, Veronica Cartwright, Miriam Hopkins e Fay Bainter


(5/5)

Existem mais, mas considero dois filmes fundamentais quando trata-se de mentira. São eles Dúvida (Doubt, 2007), de John Patrick Shanley e este Infâmia. Cada um, ao seu próprio modo, faz uma investigação sobre o poder destrutivo e corrosivo da mentira. Mas existem grandes diferenças entre os dois. Enquanto as personagens de Dúvida procuram um meio de escaparem ilesas das calúnias que recebem, em Infâmia elas sequer têm essa chance. As consequências chegam rápida e catastroficamente.

Dirigido por um William Wyler que acabara de sair de um épico de escala gigantesca – o clássico (e falho) Ben-Hur (Ben-Hur, 1958), Infâmia fala de um tema espinhosíssimo: lesbianismo. Se nos dias de hoje as pessoas torcem o nariz e consideram a homossexualidade uma aberração (e não me digam que estamos numa era mais avançada e aberta, por favor), imagine em 1961, quando Wyler lançou esse filme. Aliás, era tão ousado que até hoje o filme é um dos mais obscuros da carreira de Wyler, que já não é tão idolatrado assim como, por exemplo, Howard Hawks, outro ícone da Velha Hollywood. Na época o filme foi difícil – principalmente com o maldito Código Hays, o maior atraso mental da História do Cinema, já que jamais seria permitido um filme sobre homossexualidade explícita. Foi então que John Michael Hayes, que escreveu quatro filmes para Hitchcock, pegou foi lá e escreveu o roteiro.

Infâmia, que baseia-se numa peça de Lilian Hellman, já havia sido adaptada por Wyler para as telonas, mas com uma trama irreconhecível e banal: uma mulher se apaixona por um cara que se casará em breve com a sua melhor amiga. Infâmia (These Three, 1936), foi sucesso de crítica e público, mas – olhe só você – o filme ainda foi considerado ousado. Agora, se mesmo com uma relação heterossexual o filme foi surpreendente, imagine uma adaptação com um texto fiel ao original. Portanto, este Infâmia fala da suposta relação homossexual entre as protagonistas – Karen (Audrey Hepburn) e Martha (Shirley MacLaine) – da forma mais discreta possível e, não surpreendentemente, as palavras “lésbicas”, “homossexuais” e correlacionados são evitados sempre quando possível – logo Hayes conta a história da forma mais discreta possível, o que até é bom. Evitar uma abordagem mais explícita transformaria o longa numa coisa bastante vulgar. Um dos pontos de acerto do filme é exatamente esta abordagem – desintencionalmente, penso eu – mais elegante, o que confere um encanto maios ao filme. Duvido que se Infâmia fosse feito nos dias de hoje causaria o mesmo impacto para o espectador.

Mas vamos aos fatos: Karen e Martha são duas professoras que acabaram de montar uma escola (apesar do filme não contar onde o filme se passa, tudo indica que seja na Costa Leste, conforme aponta o crítico Sérgio Vaz) para meninas. Karen se casará em breve com Joseph Cardin, um médico amigo das duas. O problema é que Martha tem uma personalidade absurdamente possessiva, conforme observa a Sra. Mortar (Miriam Hopikins), sua tia. Num certo dia Martha e a Sra. Mortar brigam violentamente. Mas o que ninguém sabe é que atrás da porta está Rosalie (Veronica Cartwright), uma das alunas. O que ela escuta? Coisas escabrosas para uma criança. Mortar diz que a amizade das duas é (preste bem atenção na próxima palavra, ela é fundamental para a trama) anormal.

Mas a tragédia só começa de verdade quando Rosalie conta a história para Mary Tilford (Karen Balkin, que jamais conseguiria um papel de destaque novamente). Mary é o diabo em pessoa: mentirosa, manipuladora, insolente, etc. Por ter essa personalidade tão asquerosa, vive sendo castigada pelas professoras. Num dia, quando apronta uma grande, ela resolve fofocar para a avó, e acaba aumentando a história,inserindo verdades e mentiras.

De fato, tudo parte do princípio de que quem conta um conto aumenta um ponto. Todo mundo mente, certo? O que temos aqui é um caso de uma mentira – que eu poderia dizer que é simples, mas aí eu estaria mentindo. Talvez seja simples. Levando em consideração que Mary é uma criança, eu poderia dizer, também, que ela não tem consciência do que está dizendo. Esta é a visão que os adultos têm das crianças. Mas o roteiro de Hayes constrói de forma divina a personalidade de cada personagem, tendo este aspecto reforçado pela direção minimalista de Wyler. Desde o primeiro segundo de projeção nós conhecemos como cada personagem age: Martha é estressada e temperamental já na sua primeira cena, quando não quer ajeitar as comidas no banquete que está sendo preparado, jogando a tia de qualquer maneira no fogo cruzado (mais tarde o filme explicará a causa desse desprezo, numa das cenas mais geniais e impactantes já filmadas pelo homem), ao passo que Karen exibe uma serenidade incrível, numa atuação exemplar de Audrey Hepburn (talvez este seja o melhor papel da sua carreira), uma tranquilidade impassível – mesmo quando as situação foge do controle.

Mas talvez a melhor atuação do elenco seja a de Karen Balkin. A menina é um demônio, a encarnação do Mal (sim, com “m” maiúsculo, a instituição da maldade). Assim como a dupla principal, Mary tem sua personalidade estabelecida logo na primeira cena, atuando com uma teatralidade quase amadora – reforçando o seu caráter corrompido e ímpio. Aliás, ela é capaz de soltar pérolas como “Você está me achando bonita, vovó? Impossível. Do jeito que eles me tratam aqui, não sei como ainda não fiquei com cabelos brancos.”

De fato, as os nuances, peculiaridades e singularidades de Infâmia vêm justamente de Mary. Não apenas de Mary, mas sim de pequenos acontecimentos, pequenos fatos que, sozinhos, parecem tão simples, tão banais, mas juntos são ingredientes para o desastre. Acompanhe meu raciocínio: Se Mary não tivesse descoberto que Rosalie roubou a pulseira de Helen, Rosalie não teria por que ser chantageada por Mary para entrar no seu clube de meninas cujo principal juramento é “não traia uma outra integrante do clube” e, consequentemente, não teria que mentir para proteger Mary quando perguntada se o que a garota havia lhe dito (sobre o caso que as professoras supostamente têm) era verdade. Ainda existem outros exemplos, claro, mas contar mais estragaria o prazer do espectador.

O diretor Wyler ainda opta por recursos visuais de grande inteligência. Para começar, ele filma sem firulas. O visual de Infâmia é limpo, seco, sóbrio. E é interessante constatar isso pois Wyler, como disse na abertura da crítica, havia acabado de sair de um épico enorme – o moralista-ao-extremo Ben-Hur, lotado de imagens suntuosas, planos-gerais antony-mannísticos, o primeiro filme rodado em glorioso 70mm... bem, aqui ele filma em preto e branco. Para dar um aspecto claustrofóbico a situação ele utiliza um recurso que tornou muita gente famosa: O deep-focus – ou seja, planos em que todo o enquadramento está em foco, sem distorções na visão. A mesma técnica utilizada por Orson Welles e Gregg Tolland (grande fotógrafo) em Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941). Wyler também opta por empregar poucos movimentos de câmera e o mais interessante: observe que durante quase todo o filme, exceto em duas cenas, Wyler e seu fotógrafo Franz Plasner enquadram Martha e Karen no mesmo plano.

Trabalhando com um tema difícil, Wyler fez uma das obras-primas mais impactantes da história do cinema. Um filme difícil de ser digerido, capaz de deixar qualquer um boquiaberto no fim da história. Pessoalmente, tenho apenas duas objeções quanto a obra: A atuação histérica de MacLaine – afinal, qualquer um pode apenas gritar e chorar e dizer que fez um papel de uma pessoa nervosa – e o fato da personagem de James Garner ter sido deixado de lado. Infâmia merece mais respeito. Assim como o artesão que o fez.

Por Victor Bruno

24/04/2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Viagem a Darjeeling

The Darjeeling Limited, 2007 / Dirigido por Wes Anderson
Com Owen Wilson, Jason Schwatzerman, Adrien Brody, Amara Karan, Wallace Wolodarsky e Waris Ahluwaila


(3/5)

Na Natureza existe apenas uma coisa que pode matar Wes Anderson: Wes Anderson. O texano é dono de um talento raríssimo. Raro, mas muito raro. Nos dias de hoje, conta-se nos dedos quantos cineastas tem o estilo, a técnica, a inteligência e até mesmo a elegância de Anderson. Os visuais? Soberbos. Os diálogos? Ótimos. Maturidade? Hmmm...

Anderson só pode ser morto por si mesmo. Aliás, pelo excesso de si. Quando se contém, como no clássico Três é Demais (Rushmore, 1998), os resultados são soberbos. Quando embarca nas suas viagens autorais, os resultados saem crus, como no caso deste Viagem a Darjeeling. Mas ninguém pode culpar a Anderson. Não há dúvidas que um dos aspectos que compõem a receita do sucesso do diretor loiro é, exatamente, seu estilo ímpar. Os enquadramentos geométricos, o design de produção com ares europeus, as atuações mais que teatrais (em alguns momentos podem ser confundidas com amadoras). Para a crítica encantada e para o público desafiado, Wes Anderson é um oásis. Os floreios visuais são um convite, são o cartão de entrada para o seu universo estranho.

Mais eis que surge o problema, esses “floreios” visuais também são um convite para o desastre. Wes Anderson é uma espécie de Charlie Kaufman visual. Se as estripulias intelectuais de Kaufman são a única coisa que pode assassinar Kaufman, os visuais nababescos de Anderson são o que lhe assassinam. Tal qual A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, 2004), o diretor confere um cuidado com o visual que chega a ser obsessivo e preocupante. A estória soa ficar em segundo plano. Na verdade, é exatamente o que aconteceu com o filme estrelado por Bill Murray no já distante ano de 2004. Aconteceu com este? Não. Chegou perto? Talvez. E é esse o problema.

Entretanto, tudo começa com o roteiro concebido a seis mãos. O cenário do filme, que se passa na Índia, é um convite para os excessos. E depois, quem não se encanta com a profusão de cores, sons e cheiros da Índia. Até David Lean se encantou no genial Passagem para a Índia (A Passage to India, 1984). E Lean era outro artesão. Um artesão que pagou caro pelos excessos (vide A Filha de Ryan).

Enfim, o que Anderson e seus parceiros de escrita Jason Schwatzerman e Roman Coppola (sim, o filho de Francis Ford e irmão da Sofia) fazem aqui é exatamente o que M. Night Shyamalan fizera em Prying with Anger (inédito no Brasil): conta a história de uma jornada espiritual. No caso, esta viagem espiritual tem três integrantes: os irmãos Whitman. São eles Francis (Owen Wilson), Peter (Adrien Brody) e Jack (Schwatzerman). Os três perderam o pai há um ano e estão completamente perdidos, principalmente Peter, que está tentando se divorciar de Alice bem no momento em que ela engravida dele – e seu filho nascerá em um mês.

Toda a jornada fora cuidadosamente planejada por Francis e seu assistente Brandon (Wally Wolodawsky). Para todos os efeitos, a viagem prova-se uma grande desventura: o que deveria reaproximar os meninos termina por afastá-los e acentua ainda mais suas diferenças.

E isso se dá de uma forma bem interessante. Schwatzerman, Coppola e Anderson estabelecem desde os primeiros momentos de projeção uma atmosfera de certa tensão entre os irmãos Whitman. Observe, por exemplo, a reação de Jack quando vê Francis pela primeira vez dentro do trem (o Darjeeling Limited do título). O máximo que ocorre é um “Oi, Francis” bastante frio.

Mas nós não deveríamos estar rasgando seda para esse tipo de coisa. Ora, os irmãos estão sem se falar há um ano, é lógico que deveriam estar agindo friamente. E tenho medo de afirmar que isto seja a única coisa realmente interessante do filme, já que Anderson não consegue sustentar adequadamente a proposta da viagem espiritual. São poucos os instantes em que ficamos fora do Darjeeling Limited durante a primeira parte do filme, e raramente sai algo de bom nestes instantes. Aparentemente o diretor presa por montar cenas que reforcem ainda mais sua técnica. De fato, apenas uma boa piada pode ser encontrada na primeira parte do filme: Quando o trem sai da sua rota e Jack diz “Como um trem pode se perder? Não está sobre trilhos?”.

Para piorar, Anderson parece ter plena certeza de que está com um roteiro fraco em mãos e não faz absolutamente nada para melhorar. A sequência da “Oficina Luftwaffe” chega a ser inexplicável e a única explicação óbvia que pode ser encontrada é para fazer uma rima visual (interessante, de certa forma) com a cena que foi interrompida (de modo grosseiro, aliás) anteriormente.

Mas talvez eu esteja pegando muito pesado com Anderson. Viagem a Darjeeling parece ser somente um filme para desopilar o fígado do espectador. Ao contrário dos pretensiosos Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001) e A Vida Marinha..., este filme é narrado de uma forma bem leve, com visuais optando por cores primárias (mesmo numa triste sequência de um funeral), design de produção elegante (Mark Friedberg), fotografia arrojada (o sempre competente Robert Yeoman), mas simples. Ainda há, fora as atuações boas do elenco (destaque para o trio principal), a ótima trilha sonora escolhida a dedo pelo diretor, misturando os hits da Invasão Britânica com as trilhas sonoras do mago indiano Satyajit Ray e do francês Jean Renoir.

Anderson construiu um filme inteligente e leve. Entretanto, a sua existência parece depender do curta que o precede, Hotel Chevalier. A única explicação plausível para escutarmos “Where Do You Go to” aqui é por que tocou em Hotel Chevalier. Mas, de todas as formas, é sempre interessante acharmos referências a outras obras. Observe, por exemplo, que o terno que Jack veste neste filme é o mesmo que ele veste em Hotel Chevalier, ou que nos dois filmes ele sempre está descalço.

Mas Anderson não é diretor de filmes de fim de semana. Se for para filmar só para refinar sua plasticidade, é melhor ele rodar somente curtas como Hotel Chevalier.

Por Victor Bruno

20/04/2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Galeria - Roger Deakins







Todas essas fotos foram tiradas pelo proeminente e respeitado diretor de fotografia Roger Deakins, famoso pelos seus trabalhos com os Irmãos Coen. Mais fotografias podem ser encontradas em seu site, www.deakinsonline.com. Clique aqui para acessá-lo.

Por Victor Bruno

domingo, 17 de abril de 2011

Candy

Candy, 2006 / Dirigido por Neil Armfield
Com Heath Ledger, Abbie Cornish, Geoffrey Rush, Tony Martin e Elaine Hazlehurst


(3/5)

O Cinema adora repetir histórias já contadas. Adora contar história de pessoas e carros. Adora contar histórias de vampiros e aberrações. Adora contar histórias sobre o nada. E adora contar histórias sobre drogas. Está cheio de exemplos. Scarface, Os Bons Companheiros, Trainspontting, Medo e Delírio, Spun – Sem Limites, Contraponto... são muitos. E há, também, aqueles casos em que as histórias – mesmo indiretamente – acontecem por consequência, direta ou indiretamente, por causa das drogas, como Magnólia e Boogie Nights, ambos do respeitado e talentoso Paul Thomas Anderson, ou Os Donos da Noite, de James Gray.

O problema é que essas histórias são exploradas à exaustão. Os maneirismos são clássicos. Os personagens são sofridos, têm que conciliar a sua vida normal com o vício. Muitos querem sair, mas têm problemas com a abstinência e acabam se ferrando. Aí, quando o diretor quer jogar o espectador dentro desse universo de onde poucos conseguiram escapar, ele filma tudo do modo mais surrealista e bizarro possível, assim como Terry Gilliam faz tradicionalmente (vide os já citados Medo e Delírio, ou Contraponto), ou como Oliver Stone fez no terrível e grotesco Assassinos por Natureza.

Por isso, é admirável que um filme como Candy, que tem na sua premissa o vício em drogas, tenta ser diferente. Baseado num livro semi autobiográfico escrito por Luke Davies, o roteiro – do próprio Davies, mais o diretor Neil Armsfield – conta a trágica história de Dan (Heath Ledger) e Candice “Candy” (Abbie Cornish). Dan é um poeta e Candy é uma artista talentosa. Além de um estilo de vida absolutamente boêmio, os dois compartilham um inerente vício em drogas. Injetáveis, inaláveis... qualquer uma. Não é preciso dizer que, assim como aconteceu com as personagens de Scarface e Trainspotting, os dois não têm um destino muito promissor pela frente.

Partindo desse princípio, Armfield e Davies dividem o roteiro em três segmentos, cada um com cerca de trinta minutos, devidamente – e poeticamente – intitulados de “Céu”, “Terra” e “Inferno”. Cada um contendo um conteúdo mais e mais pesado. Se no segmento “Céu” nós passamos boa parte do tempo vendo o casal beijando-se e mergulhando numa piscina (de onde essa piscina sai, meu Deus?), no segmento “Terra” temos as sequências mais perturbadoras do filme.

Só que esta divisão do roteiro trás um gravíssimo problema: o filme não consegue se equilibrar em cima de si mesmo. Se o primeiro segmento é um porre melodramático e pseudointelectual (aguentar a narração “poética” malickiana de Ledger é de um sofrimento inenarrável), o terceiro deveras cansativo, já que, como dito; o casal chegou no fundo do poço no meio do filme. O clímax (ou a parte mais angustiante/interessante/perturbadora) do filme ocorreu bem na sua metade. O resto soa como a mais pura encheção de linguiça. Todavia, eu estaria mentindo se dissesse que o filme é desinteressante. Eu disse Candy tem uma narrativa que não consegue se sustentar. Desinteressante é Medo e Delírio.

Apesar deste roteiro falho, Candy apresenta algumas qualidades notáveis. Salvo em algumas exceções, Armfield adota um estilo de direção bem teatral e sóbrio, o que é muito bom. A frieza com que ele filma algumas cenas (como, por exemplo, o aborto que acontece na segunda parte do filme) ajuda a acentuar o clima pesado do inferno em que os dois vivem. Armfield não tem medo de, logo na segunda cena do filme, logo após os créditos iniciais, mostrar Dan (interpretado magistralmente por Heath Ledger) preparando uma carreira de cocaína e, em seguida, mostrar Candy nua, numa banheira, tendo uma overdose.

Mas é verdade que, por vezes, essa “frieza” ou “crueza” com que Armfield insiste em investir em seu trabalho torna-se incomodativa. Falta forma. Apenas em uma cena Armfield mostra algum interesse em compor um plano bonito, que nos cative – e esse plano surge justamente no momento mais desinteressante possível: na primeira vez em que vemos Dan e a família de Candy, logo após o jantar, quando ele conversa com a namorada e vemos apenas sua silhueta.

O problema dessa falta de plasticidade no estilo de Armfield – mais conhecido por seus trabalhos teatrais, lá na Terra de Baixo, a Austrália – é que ele não permite que nos comovamos, ou nos aproximamos emocionalmente, vai do gosto do freguês, com a situação das personagens. Parece que há uma barreira invisível entre nós e os personagens. “OK, eles estão ferrados, não há escapatória, mas... sim, e?” Não me surpreendi quando achei que Armfield estava fazendo um filme aborrecido. Todo o conjunto soa aborrecido. A montagem (fraca, por sinal) de Dany Cooper, a fotografia (feia, por sinal) de Garry Phillips e até mesmo a trilha sonora desinspirada de Paul Charlier: Tudo soa aborrecido.

E é de se impressionar que no meio de toda essa suposta falta de vontade dos realizadores, surjam atuações tão consistentes quanto as do casal princiapl: Candy e Dan. Claro que aqui o nome que mais chama atenção é, inegavelmente, o de Ledger, mas somos apresentados a uma química perfeita. Um resultado homogêneo. Abbie Cornish faz um papel corajoso e bem pesado. Dos três, ela é a que mais sua a camisa, ou melhor, a jaqueta (ela usa uma jaqueta azul durante quase todo o filme): tem uma overdose logo na primeira cena, aparece nua em três cenas, se prostitui, sofre um aborto e tem um esgotamento nervoso. Aliás, Cornish tem a fala mais cativante do longa, dita quando o auditor da Receita visita a casa. (“Olhe, nós estamos numa fase difícil. Eu sou uma prostituta e não ganho muito, mas também trabalho como artista plástica. Esse aqui é um desgraçado.”)

Já Ledger, para variar, interpreta com uma soberba incrível. Observe a maturidade que ele ganha durante o filme, quase que imperceptivelmente. No início ele era um jovem sonhador, sem muita pretensão. O cara só queria ficar no barato dele. Entretanto, ele é o primeiro a perceber que precisam parar com esse vício maldito. Ele, lentamente, passa de “desgraçado” para homem de responsabilidades. Ao seu modo, claro. Geoffrey Rush como Caspar, o “mentor” do casal pouco pode fazer para mostrar sua habilidade. De fato, sua personagem soa totalmente desnecessária: tem a importância de um traficante, e olhe lá.

De um jeito ou de outro, Candy é uma obra respeitável. Vindo de um diretor que não tem muita experiência com as câmeras (é o primeiro filme de Neil Armfield em dezesseis anos), é admirável. Não se pode deixar passar um filme que tenta dar um fôlego novo num gênero que, acreditem-me, já está bastante desgastado. Mas, infelizmente, respeitável não significa bom. Uma pena. Eu gostaria de gostar mais de Candy.

Por Victor Bruno

17/04/2011

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