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Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

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Especial David Fincher: A Rede Social

Na última parte do Especial, relembre o que Victor Bruno escreveu sobre A Rede Social, mais recente filme de David Fincher

Especial David Fincher: O Curioso Caso de Benjamin Button

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Especial David Fincher: Zodíaco

O nosso especial sobre David Fincher continua com Douglas Braga falando sobre Zodíaco, mais um thriller investigativo do norte-americano

domingo, 13 de março de 2011

A Origem

Inception, 2010 / Dirigido por Christopher Nolan
Com Leonardo di Caprio, Joseph Gordon-Levitt, Ken Wantanabe, Ellen Page, Marion Cotillard, Cillian Murphy, Tom Hardy e Tom Berenger.
(1/5)

Chistopher Nolan nesse seu filme mais parece um pré-adolescente viciado em vídeo games e filmes de ação, imaturo, inocente e cheio de criatividade. Não é de se estranhar que Inception seja assim, vendo que seus outros filmes seguem este mesmo patamar (com exceção de Memento que foi uma idéia brilhante e madura). Batman Begins foi um exemplo de explosão de testosterona e The Dark Knight seguiu isso com a mesma bravura se tornando ainda mais um ícone e reflexo da mentalidade atual das pessoas. Nolan sabe e faz com maestria cinema comercial. Sabe agradar as mais diversas massas de público, desde aqueles que não querem nada com o cinema apenas diversão àqueles que vêem o cinema como forma de expressão (e os críticos, claro).

O que Nolan faz em Inception é fazer o expectador de idiota. Fala de sonhos sem conhecê-los e sem se preocupar com isso, o oposto do que David Lynch faz em seus filmes. Nolan junta um amontoado de tralha, faz um compensado e nos dá de graça. Nós comemos como um biscoito wafer, não sabemos do que é feito mas é gostoso. Pode ser da pior merda de massa já existente, mas as duas ou três camadas de chocolate cobrem o gosto ruim. A massa é o filme e o chocolate a maldita idéia “original” que move a indústria cinematográfica atualmente.

Inception narra a história de um espião chamado Dom Cobb, um especialista em invadir mentes enquanto as pessoas estão dormindo, ou seja, mais vulneráveis e extrair delas informações valiosas a mando de alguém. Dessa vez, ele deve implantar sentimentos na pessoa em que ele se infiltrará. Nisso, ele precisa de uma equipe de pessoas capazes o suficiente para ajudá-lo na que pode ser (e é) a mais complexa e difícil missão de sua vida. Para piorar, ele tem como inimigo uma lembrança de um passado que ele cultiva e que o atrapalha sempre em suas missões e parece que cada vez mais essa lembrança está afetando seu desempenho.
Bom, a fórmula é simples, até mesmo o conteúdo fica simples, pois a fórmula contribui para que estrague a experiência de ver algo único e fazer o expectador pensar. Os protagonistas começam em uma missão para dar fôlego à trama, cheio de ação (mais vulgarmente falando: tiro, porrada, bomba e luxo). A fórmula então caminha para seu segundo ato e, talvez o pior deles: a explicação de tudo nos mínimos detalhes para que o conteúdo do filme chegue ao expectador mais enrolado. Em seguida vamos para a ação principal. Nolan manipula essa fórmula comercial não menos que magnificamente, o público vai à loucura, os cinemas lotam e as pessoas se questionam de todas as formas as possíveis interpretações do filme. Vale notar que tudo é jogado na nossa cara, a única coisa que não é explicada é de onde Nolan tirou essa ingenuidade toda.

Bom, se você for um expectador que queira uma trama convincente e no mínimo discutível, é melhor ficar com Mulholland Dr. (Cidade dos Sonhos, aqui no Brasil). Inception é, definitivamente, o filme mais besta sobre sonhos. Aqui as pessoas têm pleno controle de si nos sonhos e nada faz realmente sentido como num sonho real onde nossas experiências de vida são transformadas em espécies de quebra-cabeças que, quando acordamos e lembramos, temos aquele desejo de interpretar e entender o que era aquilo que sonhamos. Fora também que tudo é limpo, tipo, tudo é claro e extremamente simplório. É aquilo que vemos e pronto, só isso. Mais uma vez, definitivamente, Inception é um filme que não deve ser levado a sério como eu levei, mas eu levo muito a sério filmes que se julgam sério, então eu não conto.

Outra coisa legal é que parece que todos nós somos capazes de fazer isso em casa. Ta, aí eu estaria fugindo do filme. Bom, Inception é um filme simples que tenta se complicar lançando uma trama mirabolante, cheio de edição puramente para embolar o expectador menos atencioso. Os quatro Oscar foram merecidos vendo o baixo nível dessa premiação vergonhosa. Nolan sabe bem trabalhar com som e imagem, é tudo muito padrão, ou seja, é tudo o que a massa gosta. Nolan também parece atraído ultimamente pelos filmes luxuosos, todos esbanjam dinheiro à torta e à direita, nada é “pé no chão”, é um outro mundo o que mais uma vez leva o público a delírio. É porrada na rua, é porrada no carro, é porrada no apartamento e é porrada na neve. É tiro em todos esses citados e muito mais. Tem cidades completamente destruídas, perseguição de carro na chuva (nada supera aquela em We Own the Night), uma cidade que vira calzone e fica clara como se nada tivesse acontecido. Tem pra todo gosto, é só agüentar suas duas horas e vinte. E o mais “legal”, tem um ritmo frenético e toda a cena de ação se torna banal e sem significado.

Nolan, pelo amor do cinema, faça filmes que tenham sentido antes que apareça mais gente querendo fazer como você. E deixe de colocar seu país como o personagem principal. Aqui é o Cobb, interpretado por Leonardo di Caprio (quem viu o final do filme vai entender o que eu estou falando) e em The Dark Knight foi o Batman.

Por Pedro Ruback

sábado, 12 de março de 2011

Panis et circensis

É provável. É provável que eu esteja certo. Bem, eu estive acompanhando – assim como a massacrante maioria de vocês, leitores, a saga “winning” de Charlie Sheen. Claro. Apesar de não gostar de ouvir/ler fofocas sobre a vidra privada dos famosos, a vida privada de Sheen tem muito pouco de privada. E é bem sórdida, e todos nós gostamos de escutar sobre a sordidez dos outros. Além do mais, eu acho que você concorda comigo, a vida privada do filho de Martin Sheen tem muito pouco de privado.

E de toda forma, é impossível escapar das notícias sobre Sheen. “Sheen isso, Sheen aquilo.” O ex-astro de Two and a Half Men faz questão de aparecer o máximo. E o que nós podemos fazer sobre isso? Nada. Nada além de assistir o circo pegar fogo. E amamos assistir circos pegarem fogo. Sheen sabe disso. É uma espécie de complexo narcisista. Sheen – e suas “deusas” –, na anti-privacidade do seu lar, deve praticamente – nestes últimos dias de ira – vivendo uma rotina onanista. Uma obsessão por aparecer na TV. Agora ele pede 100 milhões de dólares por sua demissão da mais popular série norte-americana. Mas ele fez isso, claro simplesmente para chamar atenção. Não importa se seus advogados disseram se é para “fazer o Sr. [Chuck] Lorre pagar por seus interesses egoístas”. Sheen é o último homem no mundo para criticar alguém por seus atos.

O pior é que as pessoas parecem estar colaborando para a saga “winning” continuar com fôlego total. Na madrugada da última sexta, a polícia invadiu a casa de Sheen na busca de armas de fogo, já que Sheen está proibido de possuir este tipo de objeto em virtude de uma ordem judicial pedida por sua ex-mulher, Brooke Mueller. Pareceu bobo. Pareceu que o que aconteceu na delegacia foi:

    - Pessoal, esse Charlie Sheen... ele é meio doido.

    - Sim. Pode crer.

    - Puxa a ficha dele, Jerry.

    - Aqui diz que ele tem uma ordem judicial que o proíbe de ter armas de fogo.

    - Sério? Vamos bater na casa dele.

E o que encontraram? Um rifle de 1800. No Twitter, mais de 2 milhões de seguidores. Santo Deus, e Brooke Mueller apareceu dizendo que exige que Sheen faça um teste psicológico para poder ter o direito de ver seus filhos novamente.

Agora Sheen aparece fazendo piada de si mesmo num vídeo circulando na Internet. Aplicativos já foram desenvolvidos para bloquear textos com conteúdos sheenescos. Hitchcockiano, felliniano, sádico (de De Sade). Agora é sheenesco. Então tudo que for escrito sobre bebidas e prostitutas será sheenesco? Legal. Isso me faz repensar, talvez Sheen esteja vencendo (winning, não esqueça-se), seu nome virou sinônimo de cafajestice. Eu preferia que fosse algo como gibsoniesco, em referência a Mel Gibson. Mel acabou de ser condenado a três anos de condicional, por violência doméstica. Mas deveriam ter lhe prendido por preconceito e charlatanismo, nos tempos que fez a tragédia chamada A Paixão de Cristo (The Passion of Christ, 2004). Filme mais vergonhoso impossível.

Eu fico com Alec Baldwin. “Tire um cochilo e peça desculpa. Você não pode vencer. Sinto muito, mais não podem.” Sábias palavras, Baldwin.

Mas não. Sheen, de cabelos bagunçados e com orelhas abismais prefere vender ingressos para seu show onde promete falar a verdade. Mas o que é a verdade? A verdade é que Sheen...

Sheen gosta de ver o circo pegar fogo. Mas e se –

Por Victor Bruno

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Vampiro da Noite




Horror of Dracula, 1958/ Dirigido por Terence Fisher
Com Christopher Lee, Peter Cushing, Michael Gough, Melissa Striblin, Carol Marsh e John Van Eyssen.

3/5

"Dracula", de Bram Stoker, é uma das obras que mais foram adaptadas no cinema. Diversos grandes atores já deram vida ao personagem, como Bela Lugosi, Frank Langella e Gary Oldman, mas talvez nenhum (a não ser, possivelmente, Bela) tenha ficado tão marcado pelo personagem quanto Christopher Lee. Mesmo nunca tendo pretendido ficar lembrado quase que exclusivamente por sua atuação como  o vampiro nos filmes da Hammer Productions, Lee é até hoje conhecido e reverenciado por ter interpretado Drácula em diversas produções. E é, sem dúvidas, um prazer enorme assistir à primeira vez em que o ator deu vida ao lendário personagem, em "O Vampiro da Noite", de 1958.

O filme de Terence Fisher, diretor conhecido por seu estilo gótico e que trabalhou em inúmeros filmes da Hammer, traz uma interessante adptação da obra original de Stoker, embora praticamente todos os acontecimentos sejam diferentes do livro. No filme, Jonathan Harker (John Van Eyssen) é contratado pelo recluso Conde Drácula (Christopher Lee) como biliotecário em sua mansão no interior da Alemanha, mas planeja em segredo eliminar o vampiro. Entretanto, nada sai como planejado, e o Dr. Van Helsing (Peter Cushing) precisa proteger Lucy Holmwood (Carol Marsh), noiva de seu amigo Johnathan. Além disso, o próprio irmão de Lucy, Arthur (Michael Gough) e sua esposa Mina (Melissa Stribling) passam a correr perigo.

Possivelmente todas as modificações no conteúdo do livro se deveram ao baixo orçamento de que dispunha a Hammer, o que acabou sendo um ponto positivo para o filme. Com pouco mais de 80 minutos, tudo acontece muito rápido, a partir de uma montagem surpreendentemente dinâmica para a época. Soma-se a isso um trabalho primoroso de figurinos e direção de arte (com lindos detalhes, como os vitrais na mansão de Drácula, e o círculo no chão com os 12 signos do Zodíaco), além da  boa maquiagem  O trabalho de fotografia também é interessantíssimo, conferindo ao filme um ar gótico que funciona maravilhosamente.




Entretanto, Drácula  pouco aparece, o que pode provocar uma certa decepção. O ator Christopher Lee tem forte presença em cena, sempre altivo e envolto em uma capa negra que amplifica a idéia de terror, compensando um pouco o fato de que Lee tem poucas falas. Também fica parecendo um tanto raso por parte do roteiro escrito por Jimmy Sangster querer justificar todas as ações de Drácula  a partir da metade do filme como uma simples vingança, algo que em  momento algum parece crível. É claro que roteiros nunca foram o forte das produções da Hammer, mas fica a sensação de que os motivos reais das ações do vampiro poderiam ter sido melhor trabalhadas.

Se, por um lado, Lee dá vida pela primeira vez ao Conde Drácula, Peter Cushing também tem sua primeira atuação como o Dr. Van Helsing, papel que lhe deixou mais famoso. Cushing era um ator competente, como expressões faciais únicas, e demonstrandos sempre muita segurança. Em "O Vampiro da Noite", Lee e Cushing dividem a cena por poucos minutos, mas que se revelam as mais intensas em termos  de ação de todo o filme. Aqui ainda há de se notar também a participação do ator Michael Gough, mais famoso por seu papel como mordomo Alfred nos filmes de Batman de Tim Burton e Joel Schumacher. Pena que seu personagem Arthur não tenha muitas funções na trama, além de auxiliar o Dr. Van Helsing.

Assim, "O Vampiro da Noite" é um filme obrigatório para todos os que gostam de filmes de vampiros ou produções antigas de terror. Mesmo que atualmente praticamente ninguém se sinta aterrorizado, é um filme pioneiro e que marcou época, além de ser uma versão interessantíssima do livro de Bram Stoker.

Por Douglas Braga

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Maldição de Frankenstein


The Curse of Frankenstein, 1957/ Dirigido por Terence Fisher
Com Christopher Lee, Peter Cushing, Robert Urquhart, Hazel Court e Melvyn Douglas.

3/5

Christopher Lee é, sem dúvidas, um dos maiores ícones da história do cinema. Gerações mais recentes devem se lembrar das atuações do ator nas séries "O Senhor dos Anéis", como o mago Saruman, e "Star Wars", interpretando Conde Dookan (Count Dooku, no original). Mas o ator, recordista de participações de filmes (mais de 200, quase sempre como vilão), marcou forte presença entre as décadas de 1950 e 1970 nos filmes de terror da  Hammer Film Productions. Praticamente todos eram filmes de baixo orçamento, com poucos cenários, e estrelados pela dupla Lee/Peter Cushing. E embora a parceria mais famosa de ambos tenha sido interpretando, respectivamente, o Conde Drácula e o Professor Van Helsing em inúmeras produções da Hammer, foi em "A Maldição de Frankenstein" que os dois começaram a trabalhar juntos.

O filme é uma adaptação da obra de Mary Shelley. Mas, mais do que uma adaptação, é quase uma releitura, já que praticamente todos os principais acontecimentos do livro foram alterados. No filme de Terrence Fisher, o barão Victor Frankenstein (Peter Cushing), herdeiro da fortuna da família Frankenstein desde jovem, é iniciado nos estudos da ciência por um tutor pago pelo próprio barão, Paul Krempe (Robert Urquhart). Após anos de pesquisa, Victor consegue construir uma criatura (Christopher Lee) a partir de restos mortais, mesmo indo contra a opinião de Paul. Entretanto, quando a criatura ganha vida, ela não é nada do que Victor sonhou que ela seria, e coloca toda a redondeza, incluindo sua esposa Elizabeth (Haze Court) em perigo.



O diretor Terrence Fisher realizou dezenas de filmes para a produtora Hammer, e aqui já podemos perceber como era habilidoso em criar seqüências de terror. Mesmo estas não sendo muitas há momentos memoráveis, como a cena no telhado, perto do fim. Fisher dá vários closes no rosto desfigurado de Christopher Lee, aumentando a sensação de desconforto com o espectador com a criatura, além do uso correto da trilha sonora.

Mas, mais do que um simples filme de terror, "A Maldição de Frankenstein" também se revela uma interesante análise acerca dos limites do ego do super humano, e de sua ambição. Victor Frankenstein,  interpretado com fúria por Peter Cushing, deseja a todo custo construir uma criatura perfeita, utilizando um corpo vigoroso, mãos de artista e  um cérebro e cientista, que contenha o conhecimento de toda uma vida. Seu objetivo não é o bem comum, como defende o amigo Paul, mas satisfazer seu ego e obter prestígio perante a sociedade científica. Para isso, não hesita em superar todos os obstáculos. Assim, durante todo o filme, fica a impressão de que o grande vilão não é a criatura, e sim o seu criador (embora o final ambígüo possa colocar isso em xeque, e proporcionar outras interpretações).



O ator Christopher Lee, ainda em início de carreira, aparece pouco, mas já demonstra um enorme talento. A criatura não tem uma única fala, e Lee utiliza pura e simplesmente de seu corpo para dar vida ao monstro. É um trabalho extremamente complexo, mas realizado com ótima desenvoltura por um dos maiores atores de todos os tempos. A maquiagem parece precária para os parâmetros atuais, mas consegue passar a idéia do absurdo que fez Frankenstein dando vida a uma aberração. Por outro lado, a maquiagem peca em um ponto crucial: o personagem Frankenstein era bem mais novo que seu tutor Paul, mas o ator Peter Cushing era quase 10 anos mais velho que Richard Uquhart, e no filme eles parecem no máximo ter a mesma idade! Além disso, quase  se passa na mansão de Frankenstein, e a trama praticamente se resume ao laboratório e à sala de estar, o que é uma certa frustração para quem espera terror.

Ainda assim, "A Maldição de Frankenstein"  é uma ótima opção para quem quer se aventurar em filmes de terror antigos, e mais especificamente nos da Hammer Productions. Além de ser sempre um prazer ver um ícone como Christopher Lee atuando, mesmo que por poucos minutos.

Por Douglas Braga



domingo, 6 de março de 2011

Alexandria

Ágora / Dirigido por Alejandro Amenábar
Com Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac, Michael Lonsdale, Sami Samir e Ashraf Barhom


(4/5)

Sem nenhum medo de errar, Alexandria de Alejandro Amenábar pode ser, tranquilamente, chamado de “o Spartacus do cinema espanhol”. O filme é poderoso. Um legítimo representante de um gênero ainda ativo no cinema moderno: o “espada-e-sandália”. Filmes como este supracitado Spartacus (1962), de Stanley Kubrick, ou O Colosso de Rhodes (1961), de Sergio Leone, que apresentam homens de toga discutindo o futuro do império, e soldados de... hum... espada e sandália.

Mas as similaridades param por aí. Este filme, o mínimo que tem, são batalhas contra bárbaros, como nos espada-e-sandálias comuns. Na verdade, não se está discutindo o futuro do império de ninguém, neste filme. A trama gira em torno de uma mulher, Hypatia de Alexandria (Rachel Weisz). Hypátia foi uma das maires filósofas, astrônomas e matemáticas da Antiguidade. Na época em que o filme toma lugar, Alexandria ainda era o maior centro cultural do Mundo Antigo, ao lado de Roma, e abrigava a famosa e suntuosa Biblioteca de Alexandria. Como o próprio filme nos informa, a Biblioteca, além de ser local de conhecimento, abrigava também cultos religiosos “pagãos”.

Fora do local, dentro da cidade, três religiões eram predominantes: os “pagãos”, os recém-libertos cristãos e os judeus. Com Roma tendo adotado o Cristianismo como religião oficial, os “pagãos” egípcios sentem-se ameaçados. A religião fundada por Jesus apenas alguns séculos antes torna-se mais arrogante e ofensiva aos olhos dos pobres politeístas. Brigas ocorrem em praça pública (sendo que uma delas, quando Ammonius (Ashraf Barhom) joga um “pagão” no fogo de ágora, a praça da cidade, vai engatilhar o conflito que predomina na primeira parte do filme), a situação torna-se insuportável. No meio do fogo cruzado encontramos Hypatia, ensinando Astronomia e Matemática aos seus escravos. Hipátia é obcecada por círculos, que, apara ela, é a forma mais pura da Natureza. Ateísta, é mal vista tanto por pagãos como por cristãos. Para piorar tudo, Orestes (Oscar Isaac) e Davus (Max Minghella), apaixonam-se por ela. Orestes é um patrício, com grandes chances de subir na vida política, enquanto Davus é um escravo que encanta-se pela religião cristã.

É interessante observar os aspectos quais o diretor Amenábar realizou esta produção. Após completar Mas Adentro (Mar adentro, 2004), retirou-se para Malta afim de realizar estudos sobre a Via Láctea. Enquanto isso, passou a pesquisar sobre a vida de grandes nomes da Astronomia, como Johannes Kepler, Galilei, etc. Mas, conforme disse em entrevista, ele se encantou por Hypatia. Ainda segundo o diretor, Alexandria é um filme sobre Astronomia, “para nos lembrarmos do que diziam-nos na escola”. Mas é, de certa forma, interessante Amenábar dizer isso, por que muito do enfoque do filme, principalmente na sua primeira parte (o filme é dividido em dois, conforme abordarei à seguir), é dado à parte política da trama. Na verdade, sendo mais preciso, político-religiosa. Afinal, o conflito do filme é engatilhado, como disse anteriormente, por divergências religiosas que existem na cidade romana (no período em que o filme se passa, Alexandria está tomada pelos romanos). Ora, se Amenábar diz que o filme é sobre Astronomia, o mínimo que eu posso esperar do cineasta é que o conflito surja de uma divergência científica. E até existe isso, afinal de contas, a personagem de Rachel Weisz (que, na época do lançamento do filme, ainda era a Senhora Aronofsky) é completamente desperdiçada na trama pesquisando se a Terra gira ao redor do Sol, ou é o contrário que ocorre. Chega a ser ridículo, numa das cenas, quando a Biblioteca está sendo sitiada por cristãos, Weisz ficar perguntando aos seus discípulos, o que eles pensam sobre as teorias, e do nada surgir um senhor comentando sobre Aristarco de Samos. Como pode-se ver, Amenábar e seu velho parceiro de guerra Mateo Gil, os roteiristas do filme, misturam ciência, religião e política de forma equivocada.

Mas a situação só piora quando nós vemos que toda a ladainha científica que o filme pregou até a sua segunda parte só serve para justificar uma coisa: o envolvimento amoroso entre Orestes e Weisz – e, até certo ponto, o de Davus. Na verdade, a importância de Davus na trama chega a ser tão efêmero que, quando ele vira um “soldado de Cristo” (o nome correto é parabolani) era preferível que ele tivesse morrido. Tudo bem, de certo modo, Davus (numa interpretação contida e eficiente de Minghella) é um sujeito sofrido, dividido entre o amor e a religião. Soa profundo para você? Pois não deveria. É fraco. Talvez até pretensioso e arrogante por parte de Amenábar. Davus é um sujeito unidimensional disfarçado de multidimensional. Quem é multidimensional aqui é Hypatia, interpretada soberbamente por Rachel Weisz. Weisz sim, dá vida à personagem. Coisa que nem Minghella e nem Isaac conseguem fazer. E é realmente uma pena que a dupla de roteiristas Amenábar e Gil tenham jogado fora uma personagem de tamanho peso para a trama.

Por outro lado, a parte política do enredo é desenvolvida de forma eficiente e bem trabalhada. Amenábar e Gil nos transportam para um mundo cheio de preconceito religioso e fundamentalismo desacerbado. É ridículo, e o diretor-roteirista faz questão de nos mostrar isso, como os religiosos se comportam, e o pior: em público. Utilizam-se de piadas infantis, como por exemplo, pouco antes da revolta “pagã”, quando Ammonius joga uma fruta numa estátua de um deus e diz “Ele reclamou? Não! Parece que ele também perdeu a voz!”. O que fica ainda mais interessante quando levamos aos dias de hoje, quando Sergio von Heldes da vida chutam santas e o mundo católico se irrita. Mas, claro, Amenábar e Gil não estão criticando o cristianismo ou o catolicismo. Críticas ao comportamento intolerante “pagão” também são feitas. Afinal, qual o real propósito deles se rebelarem contra os cristãos? Nenhuma. E todas estas cenas são eficientemente filmadas por Amenábar.

Entretanto esta beleza compromete o caráter histórico da obra. Amenábar adota um estilo excessivamente elegante para o seu filme. A elegância que o diretor adota beira o absurdo. Veja o design de produção de Guy Hendrix Dyas. É tudo muito limpo, muito alvo. É pedir demais que o público realmente acredite que a Alexandria de 365 d.C. era limpa e alva da maneira que o filme mostra. De todo jeito, a fotografia de de Xavi Giménez engole este efeito. Tudo isso comprova que a direção de Amenábar, apesar de muito bonita, é masturbatória. Qual a real função de inserir imagens da Terra flutuando no espaço? Parece que Amenábar quer dizer “Não é lindo? Fui eu que fiz!”.

Apesar destes erros e acertos, Alexandria é um excelente filme. Mostra como o Homem não evoluiu no que diz respeito a machismo, religião. Alejandro Amenábar constriuiu um belo equívoco. Vê-lo derrapar é mais bonito do que ver os outros derraparem.

Por Victor Bruno

sexta-feira, 4 de março de 2011

Na Época do Ragtime

Ragtime / Dirigido por Milos Forman
Com Howard E. Rollins, Jr., Brad Dourif, Elizabeth McGovern, James Olson, Mary Steenburger, Debbie Allen, Mandy Patikin, James Cagney e Kenneth McMillian

(3/5)

Sou suspeito para falar de “Ragtime”. Também sou suspeito para falar de Milos Forman. Mas quando digo que sou suspeito para falar de “Ragtime”, não estou referindo-me ao filme, mas sim ao livro escrito pelo prolífico americano E.L. Doctorow. Afinal de contas, “Ragtime” é o meu livro favorito, e guardo-o carinhosamente na minha prateleira.

Milos Forman havia acabado de sair de um clássico dos musicais, e – como dizem para mim – um filme de importância sociopolítica incomensurável: Hair (Hair, 1979). Foi quando Dino De Laurentiis, o famoso produtor italiano, convidou-o para dirigir a adaptação do best-seller de Doctorow. Na verdade, Forman estava substituindo Robert Altman, que havia dirigido o fraco Popeye, em 1980, apenas um ano antes do lançamento deste filme. Deus sabe o que Altman foi fazer para desistir de Na Época do Ragtime, por que este é o filme perfeito para ele: múltiplas histórias, crítica aos costumes retrógrados de uma sociedade (por assim dizer) moralista. Enfim, cada um sabe o que faz. Mas, sendo sincero, Forman não era a melhor opção para dirigir este filme. O diretor tcheco simplesmente não soube como dividir os 155 minutos de filme para as seis linhas narrativas principais do filme.

Em linhas gerais, o objetivo de Na Época de Ragtime é montar um painel que mostre como funcionavam os costumes e as mentes da América no início do século XX. Em New Rochelle vive uma típica família de classe média-alta norte-americana – gramado mais-que-verde no jardim, uma hortinha no quintal, cerca, uma empregada, etc. Papai (James Olson) é o homem que tem o sagrado dever de manter a família funcionando. Na casa ainda vivem Mamãe (Mary Steenburger), Irmão Mais Novo (Brad Dourif), sem contar com o filho e o vovô e a empregada, Brigit. Não demora muito para percebermos que as coisas não são assim tão agradáveis nesta residência de New Rochelle: o Irmão Mais Novo é obviamente lunático, Mamãe tem seus direito de pensar revogado por Papai (são incontáveis as vezes que ela diz “Eu acho que...” e Papai a corta com a frase “Eu acho que minha esposa quis dizer...”).

As coisas só pioram quando surge um bebê na horta do fundo do quintal. Não demora muito para Sarah (Debbie Allen), a mãe da criança. Ela é negra e rapidamente já é tachada de “criatura abominável”. Nas palavras do policial que a leva para a casa da família: “Não podemos compartilhar os mesmos pensamentos que essa gente [negros]. Não são cristãos como nós.” Não obstante, surge a figura mais importante da trama: Coalhouse Walker Jr. (Howard E. Rollins Jr.). Elegante, bem-educado, pianista especializado em ragtime (“Primeiro eu toco o que pedirem. Depois, ragtime”).

Ao mesmo tempo conhecemos a história de Evelyn Nesbit (Elizabeth McGovern, linda). Carismática, enigmática, interesseira. Ela está casada com “Henry K. Thaw, de Princeton!”. Mas Henry K. Thaw está muito aborrecido, pois Sanford White construiu uma estátua, com claros traços similares ao da garota. É um nu que está pendurado no alto do Madison Square Garden. Resultado: K. Thaw mata White com um tiro na cabeça e agora responde a processo. Pouco tempo depois Nesbit conhece Irmão Mais Novo e Tateh. Ela se apaixona pelo Irmão Mais Novo e aparentemente cria afeição por Tateh.

Por gostar tanto do livro (parafraseando Forman, Doctorow escreve como um anjo), acabo ficando com mais dificuldades do que imaginava. Entretanto, vou separar as duas coisas. Caso contrário, acabaria ficando tal qual uma fã de “Harry Potter”, aborrecida por que parte X do livro não foi para o filme. Não, o problema não é este. O problema é que o roteiro do filme não consegue criar uma trama uniforme para o longa. Apesar do roteirista Michael Weller (e do roteirista Bo Goldman, de Um Estranho no Ninho, que teve participação não creditada) cortar grande parte das narrativas paralelas (por exemplo, no livro, acompanhamos a depressão do mágico Harry Houdini após a morte da mãe, e a trajetória de Tateh depois de deixar Nova York e ir tentar vida nova na Filadélfia), jamais conseguimos nos sentir totalmente envolvidos por aquela trama, que parecia tão promissora. Como Irmão Mais Novo conseguiu se envolver amorosamente com Evelyn Nesbit? Ninguém sabe. O roteiro de Weller salta de um segmento para outro de forma tão louca que a narrativa torna-se incompreensível. A personagem de Tateh é totalmente esquecida pelo roteiro, assim como Nesbit. Weller prefere dar mais atenção à personagem de Coalhouse Walker Jr., que – não por acaso – transforma-se na figura mais interessante do filme. Entretanto, se no livro, Walker era uma vítima das circunstâncias, Weller transforma-o numa figura arrogante e prepotente, que age com requintes de loucura e insanidade. Não à toa, a melhor cena do filme, quando Walker conhece Brooker T. Washington, foi copiada letra por letra do livro.

Mas se o roteiro é falho, não podemos falar o mesmo da direção de Forman. O homem filma como um lorde. Com uma elegância impressionante. Um exemplo? Repare na tensão que o diretor estabelece na cena do assassinato de Stanford White. Numa série de cortes ágeis e secos (mostrando, assim, um dos maiores trunfos do filme: a montagem precisa de Anne V. Coates), Forman mostra o estado de nervos de Henry K. Thaw, a ignorância de White sobre o que está para lhe acontecer e – ironicamente – o objeto que criou toda aquela situação: o nu de Evelyn Nesbit.

Além da ótima direção de Forman, o designer de produção de John Greysmark e a excelente trilha sonora de Randy Newman (sim, o mesmo Randy Newman da Pixar) marcam presença no filme. Inclusive a música One More Hour, que toca durante os créditos finais do filme, composta por Newman, foi indicada ao Oscar do ano de 1981.

No fim das contas Na Época do Ragtime prova-se um filme médio, que caiu no limbo do esquecimento, dentro da carreira de seu diretor. Forman, diretor de poucos filmes, escorregou feio com esta obra. Fazer o que? Nada. De toda forma, Na Época do Ragtime, com suas boas atuações (destaque para Elizabeth McGovern, que apenas alguns anos mais tarde estrelaria a obra-prima de Sergio Leone, Era Uma Vez na América, interpretando um papel similar), serviu de preparação para Forman produzir seu filme mais poderoso: Amadeus.

Por Victor Bruno

quarta-feira, 2 de março de 2011

Galeria - Pôsteres para filmes jamais realizados





Por Victor Bruno

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