Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (crítica II)

Para Victor Bruno, a última parte da saga de Harry Potter não é nada demais, nem nada de menos. Apenas o suficiente

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

A saga de Harry, Hermione e Ron chega ao fim e Douglas Braga não gosta nada da sua conclusão

Especial David Fincher: A Rede Social

Na última parte do Especial, relembre o que Victor Bruno escreveu sobre A Rede Social, mais recente filme de David Fincher

Especial David Fincher: O Curioso Caso de Benjamin Button

Victor Bruno faz uma análise de O Curioso Caso de Benjamin Button, no penúltimo filme comentado neste especial

Especial David Fincher: Zodíaco

O nosso especial sobre David Fincher continua com Douglas Braga falando sobre Zodíaco, mais um thriller investigativo do norte-americano

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

David Fincher sobre Cisne Negro

Neste exato momento (14h20) são 8h20 em Los Angeles, cidade onde o diretor de A Rede Social, David Fincher, se encontra. O premiado diretor de Zodíaco (Zodiac, 2007) e O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008) – e possivelmente futuro indicado ao Oscar de Melhor Direção – está nas filmagens de seu novo longa-metragem, chamado The Girl with the Dragon Tattoo, que na verdade é um remake do filme sueco Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Män som hatar kvinnor, 2009), dirigido por Niels Arden Oplev, baseado no best seller de Stieg Larson.

Numa pausa para o almoço (no caríssimo restaurante Four Seasons), durante as gravações, Fincher concedeu uma rápida entrevista para o blog The Carpetbagger, que está fazendo a cobertura dos favoritos ao Oscar 2011. Segundo o The Carpetbagger, “durante uma genuinamente agradável conversa sobre cinema”, David Fincher afirmou ter gostado de Cisne Negro. Por que – segundo o diretor – “o filme trás uma sensação de perigo”.

Lendo essa matéria (que nem sei se compreendi direito, leia a original aqui), eu penso: nada demais um diretor gostar do trabalho de um colega de profissão. Mas será que essa cordialidade perdurará até a noite das premiações? Eu espero que sim. Não seria nada agradável ver o Rubens Ewald Filho passar de “comentarista” de cinema para narrador de luta livre de uma hora para outra na transmissão da TNT.


Por Victor Bruno

domingo, 9 de janeiro de 2011

Cisne Negro

Black Swan, 2010 / Dirigido por Darren Aronofsky
Com Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder


(5/5)

Não há preço que não se possa pagar quando o objetivo é a perfeição. Nada é suficiente quando o melhor é o que se almeja. A degradação física e mental é algo que está em jogo, é efêmero quando se busca a perfeição. A perfeição é narcisista, egoísta, mas ninguém está nem aí quando o perfeito é o objetivo. As palmas, a glória, ou a satisfação pessoal, isso só vem quando o objetivo foi alcançado. Até lá, nada mais importa. Seu corpo, sua mente, as pessoas que estão em volta? Bobagem.

Darren Aronofsky sabe bem o que eu estou dizendo. Além disso, soube transportar uma estória com esse fundo de, aliado ao medo e ao desejo de uma simples bailarina, para o mundo do cinema. Não é difícil entender por que Cisne Negro tornou-se o filme mais badalado dos últimos meses. A hype ao redor do novo filme do diretor de Requiém para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) e Fonte da Vida (The Fountain, 2006) está sendo gigantesca, Natalie Portman é dada como certa (não favorita, mas certa) para o Oscar. Não que hypes sejam sinônimos de qualidade, mas aqui neste filme é indiscutível, conforme veremos ao longo do texto.

O filme toma lugar em Nova York. Nesta Nova York existe uma garota que dança para uma companhia de balé. Esta garota: Nina Sayers (Natalie Portman). É o início da temporada e a companhia está montando uma nova versão para a obra-prima de todas as obras-primas do balé, O Lago dos Cisnes. A antiga Rainha dos Cisnes, Beth (Winona Ryder), está decadente, seu nome não trás mais dinheiro para a companhia, e ela vai se aposentar, quase que obrigada, no final da temporada, "interpretando Melpômene, papel que fez na minha primeira peça", segundo as palavras de Thomas Leroy, o diretor da companhia.
É nesse momento em que Nina vê a oportunidade de interpretar não só o Cisne Branco, mas também o Cisne Negro, já que a vaga está aberta para os dois papéis. Ela é tímida, pura, inocente. Quase uma vestal. Mas acima de tudo, e mais importante, ela é talentosa. Seus passos são perfeitos, tanto quando podem ser. Ela tem um futuro brilhante? Não há dúvidas. Não há dúvidas também que ela é a pessoa perfeita para interpretar o Cisne Branco. Entretanto, "se fosse apenas o Cisne Branco, seria você." Nina não tem a sensualidade mata-hariana para ser o Cisne Negro. Ela está em cheque, e sua situação na peça se torna ainda mais delicada com a chegada de Lily (Mila Kunis), fogosa e atraente, que chama imediatamente a atenção de Thomas.

Para interpretar o Cisne Negro, Nina tem que se transformar. É uma metamorfose que deixaria Kafka orgulhoso. Se Nina, mesmo antes de conseguir a vaga para Rainha dos Cisnes já tinha "mania de perfeccionismo", agora se esforça em dobro. O processo de metamorfose é extremamente degradante. Sua mente totalmente focada no esforço para ser a melhor -- e ela não hesita em externar este seu pensamento kubrickaniano (impossível não lembrar do diretor) -- lhe trás visões paranóicas e aterrorizantes. Acima de tudo, Cisne Negro é um terror psicológico. Conduzido com brilhantismo por Darren Aronofsky.

É irônico pensar que a perfeição adotada pela personagem Nina é filmada com a câmera na mão pelo diretor. A utilização do hand-held é normalmente considerada deselegante e documental pela maioria. Mas, pare e pense: quem foi que disse que fotografia tem que ter enquadramentos precisos para ser boa? Ninguém. O estilo agitado e turbulento adotado pelo diretor é quase um retrato da mente de Nina. Turbulenta, agitada e focada somente em si mesma. Aronofsky raramente o diretor expande sua imagem para mostrar o todo, e quando faz isso normalmente está sozinha.

Esta solidão a que Nina está submetida são resultados das suas próprias ações. E mais uma vez o diretor captura isso de modo genial. Observe por exemplo, quando Nina está ensaiando com o maestro da orquestra, e isso já depois de horas de trabalho. Ele sai, abandonando Nina, exclamando "Eu tenho vida própria". A bailarina fica resignada a sua insignificância (embora negue este estado), no meio do salão, rodeada pelos seus reflexos nos espelhos.
Falando em espelhos, o filme parece ter uma obsessão por este objeto. E eles realmente cumprem uma função importantíssima na trama. Mostrar diferentes personalidades, ou personalidades destroçadas. (Me lembrei de um episódio de Dexter em que Harry, pai do protagonista-título, pergunta para o filho: "Qual Dexter você será agora?", enquanto isso vemos a imagem de Dexter sendo refletida em seis espelhos diferentes.) Logo no início, quando Thomas está anunciando que o papel dos cisnes Branco e Negro será interpretado pela mesma bailarina, rapidamente a câmera dá um close na ranhura dos espelhos, que divide sua face em duas, assimetricamente. O que estamos vendo é uma metáfora para a dupla-personalidade da personagem. Existem dois Thomas. O primeiro Thomas é o Thomas sério, arrogante e frio, que as bailarinas da companhia conhecem. O segundo Thomas é aquele que não mede esforços para que suas bailarinas interpretem seu papel da melhor forma possível. Ele é um canalha, conforme uma das personagens aponta. E é mesmo. Em determinado ponto do filme ele pede para que Nina se masturbe para adquirir a sensualidade necessária para a peça. (E Nina, que quer a perfeição, faz isso em casa, ao acordar, sem notar a presença da mãe que está dormindo numa cadeira ao lado da cama.)

Agora eu penso, como Natalie Portman deve penado (com o perdão do trocadilho) para interpretar Nina. Não que suas falas sejam difíceis, calma lá. A dificuldade na sua atuação vem da decisão de Aronofsky de não utilizar dublês para sua personagem. Você acha que eu estou enganado? Talvez em duas ou três cenas nós sejamos engabelados por Aronofsky, mas na primeiríssima cena não. O filme começa com um close nas elegantes passadas de Nina. Depois vemos que é Portman quem dança. E a câmera de Matthew Libatique, o fantástico diretor de fotografia do filme, faz questão de segui-la. Tanto a Portman atriz como a Portman bailarina são excelentes. Tanto que dedico este parágrafo para elas/ela (há uma terceira Portman, a Cisne Negro).

A atriz tem de interpretar uma pessoa de rotina obsessiva e imutável. Acordar, notar os estragos que o seu estilo de vida workaholic faz. A primeira ação que ela tem ao acordar e estralar seus pés e verificar seu joanete (mais tarde veremos ela tentar reparar uma unha quebrada, e o som não é nada agradavel). Natalie Portman faz isso com um grau de qualidade inquestionável. Vincent Cassel está ótimo, assim como Barbara Hershey, como a compreensiva e dedicada mãe de Nina, Erica. A única coisa que eu realmente não entendo aqui é Mila Kunis. Misteriosa ela chega, misteriosa ela vai. Mas ninguém tem que entender a sedução do Cisne Negro (repare na tatuagem em forma de asa que ela tem nas costas).

Melhor da década? Bom, alguns vêm soltando esse grito em vários fóruns da internet, conversas de Messenger, etc. Quem faz esse tipo de afirmação é por que certamente não se lembra de outros filmes que estiveram por aí durante dez anos. Esse é o mal da hype. Ela dopa as pessoas. De um jeito ou de outro, Cisne Negro é o Cisne Negro de Tchaikovski. Sedutor e inesquecível.

Por Victor Bruno

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Os melhores filmes da década e de 2010*

Listas por Victor Bruno e Douglas Braga

* Filmes lançados no Brasil em 2010.

Victor Bruno

Top da década

1 - Sangue Negro (There Will Be Blood), Paul Thomas Anderson, 2007

2 - A Rede Social (The Social Network), David Fincher, 2010

3 - Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York), Charlie Kaufman, 2009

4 - O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford), Andrew Dominik, 2007

5 - Um Homem Sério (A Serious Man), Joel & Ethan Coen, 2009

6 - O Novo Mundo (The New World), Terrence Malick, 2005

7 - A Arca Russa (Russkiy Kovcheg), Alexander Sukurov, 2002

8 - Adaptação. (Adaptation.), Spike Jonze, 2002

9 - Na Natureza Selvagem (Into the Wild), Sean Penn, 2007

10 - Os Infiltrados (The Departed), Martin Scorsese, 2006

Top 2010

1 - A Rede Social (The Social Network), David Fincher

2 - Toy Story 3, Lee Unkrich

3 - Ilha do Medo (Shutter Island), Martin Scorsese

4 - Mary & Max - Uma Amizade Diferente (Mary and Max), Adam Elliot

5 - A Origem (Inception), Christopher Nolan

6 - Garota Eslovena (Slovenka), Damjan Kozole

7 - Tetro, Francis Ford Coppola

8 - Scott Pilgrim contra o Mundo (Scott Pilgrin vs. the World), Edgar Wright

9 - Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are), Spike Jonze

10 - Tropa de Elite 2, José Padilha


Douglas Braga

Top da década

1 - As Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares), Denys Arcand, 2003

2 - Kill Bill- Vol. 1, Quentin Tarantino, 2003

3 - Herói (Hero), Zhang Yiamou, 2002

4 - A Queda! - As Últimas Horas de Hitler (Der Unterdang), Oliver Hirschbiegel, 2004

5 - Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima), Clint Eastwood, 2006

6 - A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen), Florian Henkel von Donnersmark, 2006

7 - O Labirinto do Fauno (El Labirinto del Fauno), Gullermo del Toro

8 - Sede de Sangue (Thirst), Park Chan-wook, 2009

9 - Sangue Negro (There Will Be Blood), Paul Thomas Anderson, 2007

10 - O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring), Peter Jackson, 2001

Lista de 2010

1 - Sede de Sangue (Thirst), Park Chan-wook

2 - Tropa de Elite 2, José Padilha

3 - Ponyo - Uma Amizade Que Veio do Mar (Ponyo), Hiao Myiazaki

4 - O Profeta (Un prophèt), Jacques Audiard

5 - Machete, Robert Rodriguez

6 - Atraídos Pelo Crime (Brooklyn's Finest), Antoine Fuqua

7 - Kick-Ass - Quebrando Tudo (Kick-Ass), Matthew Vaughn

8 - Mary e Max – Uma Amizade Diferente, Adam Eliott

9 - À Prova de Morte (Death Proof), Quentin Tarantino

10 - A Origem (Inception), Christopher Nolan

Da Redação

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Desencanto

Brief Encounter, 1945 / Dirigido por David Lean
Com Celia Johnson, Trevor Howard e Cyril Raymond


(5/5)

É impressionante pensar que o cineasta de grandes épicos, gravados em 70mm e com som estereofônico com cinco canais e orçamentos colossais, tivesse que passar por um filme exageradamente simples, filmando de favor a amigos.

Os filmes de David Lean são quase todos (principalmente os quatro últimos) grandes planos gerais -- os chamados long shots. Eu não estou falando apenas no aspecto cinematográfico da coisa toda. Estou falando no aspecto metafórico da questão. Em Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962) o filme é um grande long shot da situação árabe durante a I Guerra Mundial. Seguindo esta lógica, nada mais natural dizer que Desencanto é um close-up, um brilhante close-up de uma relação extra-conjugal. E seus efeitos na mente de uma mulher. E não seria a primeira vez que o diretor Lean faria esse tipo de close-up Ele revistaria um tema parecido, 25 anos mais tarde, em outro close-up, no tépido e afetado A Filha de Ryan (Ryan's Daughter, 1970).
A história de Desencanto é absurdamente simplória, extremamente comum. Laura (Celia Johnson) é uma mulher que vive uma vida normal. Dona de casa atenciosa e dedicada, preocupada com o marido e com os filhos. Faz as compras de casa todas as quintas feiras. E numa quinta também normal, ela está voltando para casa, pegando o trem. Quando vai observar a paisagem, vendo o trem passar, um cisco cai em seu olho. Prontamente o Dr. Alec Harvey (Trevor Howard) vai dar assistência a ela. Ela agradece e sai.

Na semana seguinte, ela encontra-o normalmente, os dois almoçam juntos, saem para o cinema. Eventualmente surge aí uma grande amizade. Nas semanas seguintes os dois repetem o passeio, indo ao lago, andando de bote. A situação está clara, os dois confessam estarem apaixonados. O que pode ser feito? Nada. O problema é que os dois são casados, isso não pode estar acontecendo. Não poderia acontecer em hipótese alguma. Lean segue de perto o drama de Laura, que entre mentiras e uma culpa quase dostoiévskiana, encontra o seu novo amado.

Desencanto é um filme seguro, de roteiro bem firme e direção precisa. O que poderia se transformar numa historinha melodramática de amor, que é feita ad nauseum por 11 entre 10 filmes do gênero, vira uma história, lentamente, de culpa e angústia. O filme se nega a romancear tudo, filmar no contra-luz, com belas imagens (o que é surpreendente, vindo de quem veio, como qualquer um que tenha o mínimo de conhecimento acerca da carreira de David Lean pode constatar). De certa forma, Desencanto é um filme sujo e escuro. Melancólico também, por que não? Na verdade, talvez esta seja a palavra que melhor se encaixa no filme. Desde o primeiro fotograma nós temos a impressão que há algo de muito errado. Atrás de um corriqueiro e desimportante diálogo entre o Sr. Godby (Stanley Holloway) e a dona do café ao lado da estação de trem, vemos um casal. Suas expressões são tristes e, o que, o que? Melancólicas. Este é o take inicial, e genial, e irônico de Desencanto. Some isso a uma direção destemida de Lean, e temos um filme perto do perfeito. O diretor sem medo de dar um giro com a câmera para demonstrar pavor. Coisa que, na altura, era reservada apenas aos filmes noir.
Grande parte do trunfo do filme vem do seu texto. Baseado em uma curta peça do grande autor Noël Coward, Desencanto tem falas certeiras. Não negam uma certa melodramatísse, mas não são o que poderia se chamar de clichê. São comuns. (Temos de levar em consideração que estamos falando de um romance, e como todo romance, tem aquelas falas "doces". Ninguém estabelece uma relação com falas irônicas, mas isso você já sabia, certo?) Mas interessntemente estas "falas" a que me refiro, não são os diálogos, mas sim a voice-over de Laura que permeia o filme. Essa voice-over é a voz do filme. Desencanto é uma confissão de uma mulher angustiada, que quer mais da vida, mesmo sabendo que isso tudo pode lhe deixar sem nada. E essa angústia é maravilhosamente representada por Celia Johnson. A atriz está perfeita como a personagem principal, Laura. No início do flashback (não do filme, que fique claro), ela é uma mulher radiante, feliz com a sua vida alienada. Com o andar da carruagem, quando sua teia de mentiras vai ficando cada vez mais difícil de ser sustentada, sua expressão é mais pálida e triste.

Aliás, falando do elenco, ele é quase todo formado apenas por desconhecidos. De todos apenas Trevor Howard viria se tornar um dia um astro do cinema, e atuaria 25 mais tarde com Lean em A Filha de Ryan. Naquela altura ambos já se tornariam superstars. Trevor está ótimo também como o Dr. Harvey.

Muitos outros acertos permeiam o filme. A maravilhosa trilha sonora não-original de apenas uma música (Piano Concerto No. 2, de Rachmaninoff), ou, de todos os acertos o meu favorito, a edição. O ritmo do filme é acertado. Nem muito lento para não dar sensibilidade, nem muito rápido para transformar tudo em água-com-açúcar, até por que tudo muito doce é enjoativo. É acertado. Aliás, um truque de edição que deve ser mencionado é ao início e ao final do flashback, com a silhueta de Laura, sentada e olhando para frente, dando a impressão que ela está assistindo sua própria vida. É uma bobagenzinha, mas deve ser citada.

E para quem diz que Lean, um dos maiores diretores de sempre, só fazia épicos vazios de quatro horas, ou novelas mexicanas se passando no frio polar da Rússia, é por que nunca viram este caloroso retrato de uma mulher sob influência. Leigos.

Por Victor Bruno

Screen tests e documentários sobre roteiro - O Poderoso Chefão

Coppola e Mario Puzo sobre a escrita dos roteiros das três partes de O Poderoso Chefão.



Robert De Niro e seus comentários sobre o teste para Sonny Corleone.



Al Pacino e seus comentários para o teste para Michael Corleone.



Todos sem legendas.

Por Victor Bruno

domingo, 2 de janeiro de 2011

Machete

Machete, 2010/ Dirigido por Robert Rodriguez e Ethan Maniquis
Com Danny Trejo, Steven Seagal, Michelle Rodriguez, Jessica Alba, Lindsay Lohan, Jeff Fahey, Cheech Marin e Robert De Niro.


(4/5)

Muitos críticos de cinema consideram Robert Rodriguez o amigo com menos talento de Quentin Tarantino,o que já pressupõe que o último seja deveras talentoso. Mas não é essa a questão aqui. Na realidade, entre os diversos filmes infantis extremamente fracos que fez para seus filhos, Rodriguez realizou obras interessantes, como "Um Drink no Inferno", "Sin City" e a trilogia dos Mariachis. Em 2007, participou do projeto Grindhouse, junto com Tarantino, e lançou o divertido "Planeta Terror", homenagem aos filmes B dos anos 1970 (e, para alguns, superior ao filme de seu amigo, "À Prova de Morte").

Agora, em 2010, o diretor lançou (juntamente com Ethan Maniquis) aquele que pode ser seu melhor filme, "Machete" originalmente um trailer realizado para o projeto Grindhouse), também homenageando filmes exploitation dos anos 1970, mas dessa vez realizando um filme mais coeso e, sem dúvidas, ainda mais divertido. Na trama, Machete, um ex-agente federal, é contratado por um americano desconhecido para assassinar o senador "linha-dura" McLaughlin, que busca se reeleger com uma plataforma contra imigrantes ilegais. Contudo, nem tudo sai como planejado, e Machete se vê envolvido em uma guerra, que se estende até o chefão do narcotráfico no México, seu arqui-inimigo, e ainda é perseguido pela sensual agente Sartana.
O primeiro aspecto do filme que vale a pena destacar é o seu conteúdo polítco. É claro que não dá para se esperar de Rodriguez profundas reflexões filosóficas sobre a questão dos imigrantes nos Estados Unidos. Mas, de qualquer maneira, é notório um problema extremamente relevante estar presente em "Machete", já que os filmes anteriores do diretor tinham roteiros precários (com a possível exceção de Sin City).

Tudo o que compunha os filmes B dos anos 1970 (violência, sangue, tripas, sexo) está presente em "Machete". E o humor se tornou um elemento fundamental no roteiro. Afinal de contas, não há como não rir em cenas de ação envolvendo intestino, ou uma matança dentro de uma igreja ao som de "Ave Maria", ou ainda Steven Seagal pagando de chefe dto tráfico de narcóticos no México (praticamente em todas as suas cenas de diálogo, a palavra 'puñeta" é pronunciada). As cenas de ação absurdas, mas coerentes com o projeto estético de Rodriguez, dão um toque a mais em um filme feito para pura diversão. E lá se vão cabeças, membros, sangue por todo o lado, em meio a lutas com facões, espadas e armas de todos os tipos (até mesmo um aparador de grama é utilizado).
O elenco é mais um acerto. Quem já imaginou ver Steven Seagal, Lindsay Lohan e Robert De Niro no mesmo filme? Pois é, mas eles estão todos em "Machete". E todos entenderam muito bem seus papéis correspondentes: Seagal está simplesmente hilário; Lohan faz referências à sua própria vida pessoal; e De Niro empresta um tom caipira ao senador MacLaughlin, e protagoniza uma das melhores cenas do filme (a sua última, de rachar de rir). Cheech Marin, figura fácil nos filmes do diretor, participa como o Padre, irmão de Machete, e protagoniza a cena da igreja citada acima. Mas o destaque só poderia ser Danny Trejo. O ator praticamente não tem diálogos, e suas falas são sempre curtas e secas; mas o ator, mesmo com mais de 60 anos, é carismático, demonstra vigor em todas as suas seqüências de ação, e ainda tem cenas "quentes" com quase todas as mulheres do filme. Para finalizar, as sempre sensuais Jessica Alba e Michelle Rodriguez coroam um elenco que entrou perfeitamente no espírito do filme.

Em "Machete", portanto, Rodriguez, em co-parceria com Maniquis, parece ter atingido um outro nível enquanto diretor, realizando um de seus melhores filmes. Mesmo detratores do diretor podem reconhecer em "Machete" qualidades outrora ausentes nos trabalhos anteriores de Rodriguez. Além de extremamente divertido, é uma bela homenagem aos filmes B dos anos 1970.

Por Douglas Braga

sábado, 1 de janeiro de 2011

Drácula de Bram Stoker

Bram Stoker's Dracula, 1992 / Dirigido por Francis Ford Coppola
Com Gary Oldman, Keanu Reeves, Winona Ryder, Athony Ropkins, Sadie Frost, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell e Tom Waits


(3/5)

Em 1982, Francis Ford Coppola fez um filme chamado O Fundo do Coração. Feito para cobrir o provavel rombo que Apocalypse Now, seu filme anterior, provocaria em sua produtora, a American Zoetrope, o musical psicodélico estrelado por Teri Garr seria originalmente filmado em locação e com orçamento irrisório. A história mudou, Coppola reconstruiu Las Vegas em estúdiu e gastou 27 milhões de dólares. Acontece que o filme foi o maior flop da sua carreira, tendo feito apenas 636.793 dólares nos Estados Unidos. Ao contrário do seu filme anterior que foi um estrondoso sucesso. Após O Fundo do Coração, Coppola nunca mais conseguiu um grande sucesso, nem de crítica, nem de público. As grandes excessões são O Poderoso Chefão - Parte III e este Drácula de Bram Stoker. Em ambos os casos os filmes foram grandes sucessos de bilheteria, mas não obtiveram êxito por parte da crítica.

O fato é que O Fundo do Coração levou Coppola à falência. Todos (salvo O Poderoso Chefão III os outros filmes feitos pelo diretor até Drácula... foram para pagar as suas dívidas, e nenhum deles teve êxito. (Rumble Fish, por exemplo, estragou bonitinho o que The Outsiders havia conseguido -- lucro.)

Mas em 1992 a situação era diferente. O cineasta de Detroit radicado em Nova York estava de vento em popa, vinha de um estrondoso sucesso comercial, havia conseguido uma batalhada de indicações ao Oscar, apesar de não ter levado nenhuma. Havia conseguido um bom orçamento por parte da Columbia Pictures para o seu próximo projeto, que provavelmente acabaria com as suas dívidas: uma adaptação fiel do livro Drácula, do autor irlandês Bram Stoker. Portanto, contar a sinopse do filme é contar a do livro.

Mas por que eu comecei o texto dessa forma? Simples. Não é à toa que o trabalho de Coppola pós-Apocalypse Now tenha sido tão açoitado pela crítica. Realmente a qualidade dos seus filmes caiu muito. Feitos realmente na base do desespero, "nas coxas". E os danos causados por essa fase de falência parecem ter sido irreversíveis, conforme pode ser comprovado em seus dois últimos trabalhos, Velha Juventude e Tetro, que apesar de serem artisticamente belos... não foram bem recebidos pela crítica. Drácula não é uma excessão.

Drácula de Bram Stoker conta a história dolorosa do Conde Dracul (ou Vlad) (Gary Oldman, espetacular). Durante a Idade Média, foi um defensor irrepreensível da cristandade diante da invasão turca. Na época, o exército deles era praticamente invensível, mas com a "providência divina" (vamos chama-la assim, por hora) sua própria força de vontade, Drácula os derrotou. "Os vingativos turcos", em represália, mandaram uma falsa mensagem para a sua esposa, Elisabeta (Winona Ryder), afirmando que ele estava morto. Elizabeta era o amor da vida de Drácula, assim como Drácula era o amor da vida dela. Ela se mata atirando-se no rio. Ao descobrir esta verdade horrorosa, Drácula renega a Deus e jura sobreviver ao túmulo, vagando como morto-vivo através de "oceanos de tempo", até reencontrar seu verdadeiro amor.
Agora, quatro séculos depois, em 1897, Mina (Winona Ryder, de novo) está noivada com Jonathan Harker (Keanu Reeves). Seu casamento será realizado assim que ele voltar de uma viagem de negócios. Ele está substituindo o corretor de imóveis R.M. Reinfeld (Tom Waits, extremamente parecido com Ron Perlman) numa grande venda. O comprador: Conde Dracul. O que aconteceu com Reinfeld? Ele "enlouqueceu" nesta mesma viagem, com destino a Transilvânia, onde fica o castelo de Drácula. Já no castelo, Jonathan descobre-se num lugar estranho, com um habitante mais estranho ainda. Ao mesmo tempo, descobrimos que Mina é a reencarnação de Elizabeta. Obviamente Drácula irá atrás dela, fazendo o que for preciso para ter em seus braços frios e mortos a sua amada além da vida. Suas ações respingarão em quem estiver por perto. Pobre Jonathan.

Sendo bem franco, os trinta primeiros minutos de Drácula de Bram Stoker são simplesmente sensacionais. Coppola adota um visual gritante, extremamente gráfico e estilizado. A Transilvânia de Coppola é vermelha-sangue, cheia de sombras. E é exatamente aqui, onde a sobrevivência do filme do filme depende muito mais das imagens do que dos atores, onde existe a melhor fatia do filme.

Filme este que caminha rápido de mais, e é esquizofrênico. Em pouco mais de duas horas de duração Drácula se divide em três atos e, cada um deles, tem um rítmo diferente. Esta diferença de rítmo não possibilita uma uniformidade em seu torno. No primeiro ato temos um suspense de gelar o sangue. Uma atmosfera grotesca, com poucos diálogos, movimentos de câmera elegantes e edição singular. É exatamente nesta primeira metade onde a personagem de Keanu Reeves, que está em boa forma aqui, ganha mais espaço e, indo além, é necessária. Sim, porque nas duas próximas partes Jonathan se prova totalmente dispensavel. Ele só volta na terceira parte, e mesmo assim, apagado.

Na segunda parte do filme, Coppola e seu roteirista Hart passam a analisar a relação amorosa de Drácula, que acaba se mudando para Londres, e Mina. O filme deixa de ser um filme de horror grotesco e visualmente extravagante, passando a ser uma história de amor platônica e de teor sexual altíssimo. Aliás, o sexo em Drácula de Bram Stoker é um elemento essencial para a trama. Tanto quanto o sangue. São derramados litros e litros neste filme. A próxima vez em que veremos tantos litros de sangue serem derramados será apenas em Kill Bill Vol. 1, no já longínquo ano de 2003.

Com os surtos psicóticos sexualísticos de Lucy (a fogosa Sadie Frost), melhor amiga de Mina, e a entrada de Anthony Hopkins como o estranho professor Van Helsing, dá se início ao terceiro e último ato do filme. Aqui a historinha de amor de Drácula e Mina é mandada para as cucuias e Coppola retoma as estravagâncias visuais, transformando o filme numa espécie de road-movie épico, flertando com o western, com direito a perseguições a cavalos que Sergio Leone ficaria orgulhoso em dirigir. Não são poucas as vezes em que Coppola pede o auxílio de mapas para situar o espectador na história.
O principal problema de Drácula de Bram Stoker, ao contrário do que eu pude sugerir no início da crítica, não é a direção de Coppola. Se você compreendeu isso, você está errado. Provavelmente por que eu escrevo mal, ou por que você é dislexo. Um pouco dos dois, talvez. Mas o importante é que a direção de Coppola é a melhor coisa que o filme pode oferecer ao espectador. O problema, como eu ia dizendo no início do parágrafo, é o roteiro do até então inexperiente James V. Hart. Hart enche a história de dead ends que, simplesmente, enchem o saco. Esses dead ends começam cedo na história, e imprimem, como dito anteriormente, uma narrativa ligeira demais. Com trinta minutos de filme você jura que já se passaram, no mínimo, uma hora. Esse pecado é fatal para o filme. Estraga o todo. Talvez isso seja um problema carregado no livro e foi transportado para o cinema. A adaptação é fiel de verdade. Por exemplo: o livro é quase todo epistolar. O filme também fornece informações provenientes de diários, cartas. Até gravações em áudio são utilizadas.

E esse todo era para ser ótimo. Aliada a boa direção de Coppola (que é bom diretor de atores, mas isso não é novidade para seu ninguém), há a simplesmente brilhante direção de fotografia de Michael Ballhaus (diretor de fotografia qual, devo dizer, sou um grande fã). Os dois, se não eu não estiver enganado, pagam tributo há grandes filmes de horror. Por exemplo, quando Drácula está voando em direção à sua vítima, atravessando a cidade, pátios, etc., a câmera voa pelos objetos, persegue pessoas, etc. É exatamente o mesmo tipo de coisa que Sam Raimi faz no fantástico A Morte do Demônio. Se eu estiver certo, e -- sem ser arrogante, mas já sendo -- creio que estou correto. O filme também nos presenteia com uma trilha sonora fabulosa, de Wojciech Kilar.

Em Drácula de Bram Stoker existe uma enorme galeria de personagens. Alguns simplesmente dispensáveis, descartaveis. Tem gente demais, a escala é cósmica e a direção de Coppola é apaixonada e viva. Francis vira vítima da sua própria filosofia: "Qualquer coisa dirigida em larga escala ou feita com paixão é um convite ao caos." Às vezes é ruim está correto.

E o filme põe em prática o que Cher já pregava: love hurts.

Por Victor Bruno

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