Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (crítica II)

Para Victor Bruno, a última parte da saga de Harry Potter não é nada demais, nem nada de menos. Apenas o suficiente

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

A saga de Harry, Hermione e Ron chega ao fim e Douglas Braga não gosta nada da sua conclusão

Especial David Fincher: A Rede Social

Na última parte do Especial, relembre o que Victor Bruno escreveu sobre A Rede Social, mais recente filme de David Fincher

Especial David Fincher: O Curioso Caso de Benjamin Button

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Especial David Fincher: Zodíaco

O nosso especial sobre David Fincher continua com Douglas Braga falando sobre Zodíaco, mais um thriller investigativo do norte-americano

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Turista

The Tourist, 2010 / Dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck.
Com Angelina Jolie, Johnny Depp, Paul Bettany, Steven Berkoff e Timothy Dalton.


(1/5)

Algumas coisas merecem a revolta que sentimos. Fazemos-nos certas perguntas que somente o autor consegue responder. Florian Henckel dirigiu o filme Das Leben der Anderen (A Vida dos Outros) em 2006 e ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, que, em muitas edições desta premiação, chega a ser mais importante que o principal prêmio. Agora, Henckel saiu da Alemanha e foi para os Estados Unidos, mais especificamente, Hollywood e lá se rebaixou à The Tourist.

Não que ganhar dinheiro seja um problema, mas o problema é o nível a qual um diretor se rebaixa para ganhar dinheiro. Hollywood está cheio destas pessoas que vêm de um país estrangeiro, geralmente europeu, depois de fazer um grande filme e se rendem ao molde do cinema comercial pouco inteligente americano. Não que todos sejam assim, atualmente temos um bom número de filmes inteligentes (numa proporção triplicada em filme idiotas e ruins), mas é difícil aceitar e acreditar em situações assim que se repetem demasiadamente. É como um ímã que lhe atrai quando você é grande e lhe molda logo depois.
Seguindo os padrões, vemos apenas mais um filme em circuito comercial (o cinema está cheio disso, mas vazio em conteúdo) sobre espionagem, máfia e intrigas envolvendo muito dinheiro, a alta sociedade, muito dinheiro, lugares belos, muito dinheiro e atores de grande fama. É impressionante como o foco da maioria desses filmes é centrado em uma intriga impossível envolvendo dinheiro e mirabolantes situações com personagens excepcionalmente inteligentes e capazes de qualquer coisa para fazer qualquer coisa contando com tudo em mãos de forma fácil (se não for fácil não vemos o trabalho). Tudo sempre muito corrido e pouco explorado, é raro vermos uma trama de espionagem ser executada de forma “realista”, convincente.

O enredo de The Tourist é simples: uma mulher, Elise Morde (Angelina Jolie) está envolvida com um homem que roubou de um mafioso uma enorme quantia em dinheiro e agora está fugindo deles enquanto se comunica secretamente com o ladrão. Enquanto isso, uma operação feita pela Interpol está investigando e procurando desmascarar e capturar o ladrão, mas é difícil, pois há a possibilidade de esse sujeito ter mudado de fisionomia com diversas cirurgias. É um jogo de rato, gato e cachorro. Os ratos são o ladrão, a mulher e um intruso turista. Os gatos são a máfia e os cachorros a polícia. O tal turista do título é um homem qualquer chamado Frank Taylor (Johnny Depp) que conhece Elise numa viagem de trem. Ele é professor de matemática e perdeu sua esposa num acidente de carro. Frank e Elise passam a andar juntos levantando suspeitas, tanto dos mafiosos quanto da polícia.

É isso. O roteiro se desenvolve de forma sistemática. Temos ação, perseguições, tiros, conversas particulares com requintes de maldade e discursos óbvios. As ações tomadas pelos personagens são as mesmas de sempre. Elise é uma mulher misteriosa, sem aparente conflito, que vive apenas e faz tudo de forma independente. Frank é um perdido, típico papel de Depp, onde se vê no meio de uma trama de onde não consegue sair. A polícia sempre segue a pista errada e se dá mal na maior parte das vezes, mas sempre está no encalço do procurado. A máfia é a maldade pura, executando de forma fria tudo o que faz e, na maioria das vezes, em público, sem se importar com nada.

O diretor gasta rolos de filme dando prioridade à paisagem italiana de Veneza que já sabemos ser bonita, mas que parece ser mostrada só para que as pessoas digam: “que lugar lindo!” ou “eu quero ir lá um dia!”. É encher o filme com cenas bonitas que não levam a lugar algum nem cobrem as falhas do filme e os clichês aos montes. O americano aqui é tratado como “sou um cidadão americano, por isso tenho meus direitos e vocês não podem me machucar”. Ou o diretor está sacaneando na cara dos americanos essa mania irritante que eles têm de ressaltar isso em seus filmes ou o diretor realmente se rendeu a essa palhaçada de que americano é melhor.

O final do filme é daqueles que pode dar um ar de “caramba, que legal!”, mas não funciona sempre. O que me pergunto é: seria possível isso realmente e culminar num final daqueles? O diretor brinca com a gente e nos faz de bobo durante noventa minutos e tudo soa artificial e parece que o final foi feito apenas para o filme não se tornar tão previsível.

O que nos resta é torcer para que o diretor volte a fazer grandes filmes ou então torcer para que novos, futuros e talentosos diretores do exterior não se rendam à mediocridade do cinema Hollywoodiano da atualidade. É revoltante. É mais revoltante ainda saber que cinema assim dá muito dinheiro.
Por Pedro Ruback

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Get Low

Get Low, 2009 / Dirigido por Aaron Schneider.
Com Robert Duvall, Bill Murray, Sissy Spacek, Lucas Black e Bill Cobbs.


(3/5)

É difícil começar a falar de um filme tão simples (cinematograficamente falando), pois não há grandes pontos que podemos ressaltar nem mesmo uma originalidade que possamos comentar. Get Low é o típico drama simples, com segredos e toques cômicos, sem muita relevância para o cinema, mas que consegue ser, por mais que tudo colabore a não ser, emocionante e envolvente. A começar, vemos uma ambiência simples de uma cidade distante de tudo onde vivem pessoas pacatas levando uma vida simples e dedicada ao trabalho. O ano é por volta de 1938, no Tenessee, onde a história real de um eremita temido pelo povo resolve dar uma grande festa de funeral para si mesmo estando ele ainda vivo.

Mesmo que os dramalhões já tenham virado piada no cinema atual, alguns valem o riso e Get Low é um destes filmes. Os personagens conseguem cativar e, de certa forma, mesmo que de costume, emocionam, não por eles, mas pelo que os envolve. O clima do filme consegue trazer um ar novo e delicado, fora das costumeiras cidades grandes ou subúrbios dos Estados Unidos, o ar campestre e de época dá uma nova força e isso permite que o filme funcione. Mais que óbvio de filmes de gênero, vemos uma pessoa com conflitos (drama). No caso deste filme, uma pessoa que procura se castigar por um secreto fato que aconteceu no passado e que a tortura no presente isolando assim as pessoas de sua vida e se isolando da sociedade, aprisionando-se em sua prisão particular e privando-se da convivência de qualquer gênero que seja. O personagem central é o estereótipo do velho malvado que todos temem por desconhecê-lo. Os cidadãos que o temem também são o estereótipo desses tipos de filme.

Bom, a trama envolve um senhor chamado Felix Bush (Robert Duvall), misterioso eremita que vive próximo a uma cidade simples e pacata. Num certo dia, ele resolve ir à cidade e encomendar para si um funeral, na verdade uma "festa funeral". A igreja da cidade nega fazer a tal festa e, revoltado, Felix vai embora. Mas ele não contava que o jovem Buddy Robinson (Lucas Black), homem que trabalha em uma funerária dirigida pelo infeliz Frank Quinn (Bill Murray) que vê seu negócio andar lentamente naquela cidade onde todos morrem apenas por estar velhos, o viu pedir pela festa e viu que Felix era capaz de pagar por isso. Quinn ele inveja as cidades grandes onde as pessoas morrem de diversas maneiras e o lucro é muito maior. Vendo a oportunidade, Robinson fala a Quinn sobre o misterioso homem que quer dar uma grande festa e que tem dinheiro para patrocinar tal acontecimento, só precisa de alguém para organizar tudo. Com isso, Quinn e Robinson envolvem-se com o velho e, involuntariamente com seus dilemas, partem para os preparos da festa. Não só isso, uma mulher chamada Mattie Darrow (Sissy Spacek) chega à cidade e perturba Felix com sua presença, logo demonstrando um envolvimento passado com ele, envolvida de alguma forma com o conflito e mágoa de Felix.

Regado com bons toques de comédia, o filme se sustenta no segredo e nas boas situações do filme. A comédia presente nele é característica dos filmes em que o experiente ator Bill Murray trabalha. Não muito diferente, Get Low consegue começar como um filme interessante e despencar para um filme morno e “mais do mesmo”, e consegue voltar com tudo perto do final, mas já se revelando ser apenas mais um filme entre muitos outros. O que pode despertar a curiosidade do espectador é ser baseado em uma história verídica, com um enredo um tanto chamativo e que contém algo de novo, diversificador e interessante. Mas é só. A mídia divulga muito bem algo novo, mas não sabe manipulá-lo no conteúdo de forma que, quando vamos ter a experiência desse algo novo, não se torna realmente algo novo (vide embalagens de hambúrguer ou biscoitos recheados).

As atuações são apenas o necessário. Robert Duvall desempenha bem o personagem rude e sentimental que é Felix, Murray continua perfeito em seus papéis dramáticos e cômicos ao mesmo tempo. Lucas Black é apenas mais um ator contracenando entre veteranos e Sissy Spacek desenvolve bem sua personagem. O melhor é que as atuações não soam forçadas nem falsas, só não trazem nada de novo.

Get Low não passa de um bom entretenimento para toda a família, leve e descompromissado.


Por Pedro Ruback

domingo, 30 de janeiro de 2011

Assim Caminha a Humanidade

Giant, 1956 / Dirigido por George Stevens
Com Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean

(4/5)

O tratamento concedido aos filmes com status quo de “clássico” é de puro endeusamento. Deus livre do pobre coitado que ousar questionar a perfeição de Cidadão Kane (Citizen Kane, 1940), ou a qualidade artística, plástica e filosófica de toda obra de Kubrick pós-Lolita (Lolita, 1962). Nos Estados Unidos, é quase um crime falar mal do “melhor filme de Natal” já feito – isto é, A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life, 1946), de Frank Capra. Para alguns – e isso parece ser um consenso de unanimidade inquestionável –, quando um filme atinge este status, meu Deus, não existe nenhum tipo de defeito, e quem discorda deve ir para a forca, mas antes, deve pedir desculpas pela afronta e beijar o pôster do filme. Quase igual as “bruxas” que foram queimadas vivas durante a Santa Inquisição.

Agora, claro, alguns filmes realmente são perfeitos e não devem ser questionados. O supracitado Cidadão Kane, Apocalypse Now, quase toda filmografia de David Lean, etc. Mas eu estou falando aqui de pseudo-intocáveis, no caso, este Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens. Aqui estou eu, falando do maior sucesso da Warner Bros., até o lançamento de Super-Homem – O Filme (Superman, 1978), outro filme que é cultuado por todos, apesar de apresentar falhas grosseiras (claro, Super-Homem é um blockbuster, logo, sua qualidade é totalmente discutível).

O culto que existe ao redor de Assim Caminha a Humanidade (título nonsense conferido ao filme no Brasil, que mata toda a poesia do título original, Giant) é perfeitamente compreensível. Para começar, este é o “canto do cisne” de James Dean. O ator, que viria morrer alguns dias depois do término das filmagens, num trágico acidente de carro, faz aqui, provavelmente, sua melhor performance. Outro fator que certamente faz Giant (assim o filme será chamado de agora em diante) é a sua mensagem moralista. O diretor George Stevens discute aqui temas que, até então, Hollywood torcia o nariz, como o preconceito racial (no caso, contra os comanches – imigrantes mexicanos no Texas), a liberdade feminina e a exploração sem controle da terra em busca de petróleo. Tudo isso compactado numa saga emocionante que cobre mais de 40 anos na vida de uma família desfuncional. Apesar desta emoção, o filme carrega erros grosseiros, que serão discutidos em breve.

Giant conta a história de Leslie (Elizabeth Taylor). Filha de um rico proprietário de terras de Maryland, Estado no Leste dos EUA. Ela se apaixona por Bick Benedict (Rock Hudson), um rico fazendeiro do Texas, que veio comprar um cavalo do pai de Leslie. Eles se casam rapidamente em Washington (o filme não mostra isso, mas o fato é repetidamente recordado na trama) e ela se muda – claro – para o Texas.

Já na propriedade de Benedict, nós conhecemos sua irmã, Luz (Mercedes McCambridge), a mulher-macho linha-dura que controla com mãos de ferro todo o local. Ela conta com o frio, anestesiado, bêbado e antissocial Jett Rink (James Dean), que se apaixona por Leslie, mas nunca se declara, apesar de dizer constantemente que ela é a mulher mais bonita que já vira. Mesmo com uma boa relação com Luz, Jett não se dá bem com Bick. Ambos nutrem um ódio desmedido um com o outro. Ao mesmo tempo, descobrimos que Leslie é uma verdadeira forasteira. Ela se preocupa com a situação dos comanches locais – pessoas que Bick, Jett, Luz e todos os outros brancos têm horrores e são tratados com desprezo total e absoluto. Leslie também não se adapta ao comportamento das mulheres locais, brancas ou comanches. Após o nascimento do casal de gêmeos de Bick e Leslie, acompanhamos a sofrida saga, como dito, dos Benedict.

Giant é um filme que com certeza David Lean gostaria de ter dirigido. No início do filme, isto é, nas sua primeira hora e meia, Stevens investe em planos longos, como aqueles vistos em Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962). Stevens insiste em mostrar toda a vastidão de terras secas que cercam a casa da propriedade dos Benedict. É quase metafórico. O coração de uma família coordenada por um homem cheio de preconceitos e desprezo reside, exatamente, dentro de uma casa no meio do nada. O engraçado é que Bick Benedict diz que seu avô “construiu esta casa para provar para os metidos do Leste que eram tão bons quanto eles.” Mas tudo o que se vê é uma terra árida e sem vida, contrapondo-se com as primeiras cenas do filme, que mostram as terras verdejantes de Maryland. (A própria Leslie pergunta se não há verde no Texas.)

Stevens em seu filme ainda explora muito bem o patriotismo desacerbado que existe no Sudoeste dos EUA. Repare na expressão inflamada e odiosa que Bick faz quando Leslie, ainda – novamente – em Maryland, diz que o Texas foi roubado do México “quando o Sr. Austin chegou lá com suas 300 famílias”. Bick retruca: “Você não conhece a história d'O Álamo?”. A verdade é que O Álamo foi um massacre ocorrido durante a Revolução Texana, onde 2.400 soldados mexicanos trucidaram 260 soldados texanos no Forte Álamo, anteriormente uma missão (você sabe o que é uma missão, não sabe?). O saldo foi de 400 baixas mexicanas e 258 mortes texanas. O fato foi um pivô para, depois, a queda dos mexicanos na região, dando origem a outros massacres. A frase “Lembrem-se d'O Álamo!” virou uma constante no Sudoeste americano. O curioso é que – de todo jeito – O Álamo foi uma “vingança” dos mexicanos contra a crueldade dos americanos texanos.

Agora, entre preconceitos debatidos e boa fotografia, Stevens falha miseravelmente no ritmo do seu filme. Para contar uma saga de 30, 40 anos num filme de três horas, a mudança entre lentidão contemplativa e rapidez narrativa é brusca e perceptível. O filme – que pode ser dividido tranquilamente em dois atos – primeiramente mostra os preconceitos da região, num dos primeiros atos mais longos da história do Cinema. Por exemplo, são necessárias uma hora e meia para que finalmente Leslie perceba que aquele não é o seu lugar, uma hora e vinte para que notemos que a personagem de Dean sofre de um sério problema mental. Isso tudo muda, estranhamente, no segundo e terceiro ato, onde o filme parece ser feito nas coxas, e as personagens envelhecem mais rapidamente.

Felizmente isso não compromete a narrativa do filme. O elenco todo muito jovem atua perfeitamente. Elizabeth Taylor transmite uma depressiva e desesperante sensação de perda. Se nos primeiros minutos ela era uma jovem rica e espevitada do Leste norte-americano, lentamente se transforma numa infeliz esposa de um proprietário de terras. Rock Hudson também está bem como Bick, preconceituoso machão texano, ligado as suas raízes. Hudson interpreta um homem tão preconceituoso e machista que só falta dizer “Meu Deus, Sue, os mexicanos estão dentro das muralhas! Se eles separarem você, salve minha criança!”.*

Mas nenhum desses se comparam a James Dean. A composição da sua personagem é simplesmente brilhante. Dean – talentoso e lastimável perda do cinema – compõe sua personagem com uma tristeza de quebrar o coração, sempre no canto do enquadramento, com o chapéu enterrado na cabeça, cobrindo-lhe os olhos. Falando pouco, sem abrir a boca, contra a luz, sempre na sombra. Jett/Dean é o típico forasteiro onipresente na filmografia de George Stevens. Seus trejeitos serviriam de inspiração para que, anos mais tarde, Martin Sheen pudesse compor seu Kit Carrutchers em Terra de Ninguém (Badlands, 1973), de Terrence Malick. (Aliás, alguns exteriores, como as cenas da casa, foram tomados emprestado por Malick em Dias de Paraíso (Days of Heaven, 1978).) É realmente uma pena que sua personagem tenha sido tão desprezada na sala de edição. Suas aparições, principalmente após o intervalo do filme (no DVD da Warner não há intervalo, ele foi cortado na troca de discos), se tornam cada vez mais esporádicas e inexplicáveis. Mas isso não atrapalha sua performance, a melhor da sua curta e brilhante carreira.

Entre erros e acertos, Giant é um clássico. Ao contrário do que alguns fãs neuróticos dizem, não é perfeito, longe disso. Apesar da sensação de perda que o filme deixa, o fim de uma geração, Stevens transforma sua história épica num conto moralista, que trai a si mesmo. Um belo filme correto, apenas e nada mais.

Por Victor Bruno

* Últimas palavras de Almaron Dickinsoncapitão de artilharia durante o cerco d'O Álamo – para sua esposa, Susannah Dickinson, antes de ir defender a capela no cerco. Dickinson foi um dos últimos defensores mortos em ação.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Enter the Void

Enter the Void, 2010 / Dirigido por Gaspar Noé

Com Paz de la Huerta, Nathaniel Brown, Cyril Roy, Olly Alexander e Masato Tano


(2/5)

A primeira coisa que deve ser dita sobre Enter the Void é que este não é um filme normal. Não. Enter the Void é uma experiência única, para o bem ou para o mal, para qualquer espectador que atreva-se a se aventurar pelas longas duas horas e q uarenta e um minutos de filme. Gaspar Noé, diretor do ledário, bobo, polêmico e violento Irreversível (Irréversible, 2002), prova que o passar dos segundos, o tempo, é totalmente relativo.

Este é um filme ao melhor estilo “ame ou odeie-me”. Para compreender, ou mesmo gostar deste filme, precisamos comprar a ideia de Noé, embarcar em sua viagem lisérgica, e, primo, isso é muito difícil. Noé passou mais de dez anos compondo sua história ácida (no sentido de ácido lisérgico) e transcendental sobre um garoto que morre, mas seu espírito permanece para cuidar da irmã. O problema é que nem mesmo ele sabe como guiar o filme. O diretor aposta tudo nas imagens supercoloridas, verdadeiras aberrações cromáticas. Enter the Void é um soco na retina e no cérebro. Mas é um soco gratuito. Desnecessário.

O filme—conforme o próprio diretor afirma—é uma reunião de várias experiências que teve quando jovem. Sejam elas visuais ou obtidas através de alucinógenos. Sim, Enter the Void é basicamente uma reunião das maiores viagens que Gaspar Noé teve quando era garoto. Não é de se admirar que o filme tem apenas um fiapo de trama: Oscar (o iniciante Nathaniel Brown) muda-se para Tóquio, e vira um traficante de drogas. Após conseguir ganhar algum dinheiro, consegue trazer sua irmã, Linda (Paz de la Huerta), para perto dele. Certa noite, Oscar tem que fazer uma entrega para Victor (Olly Alexander). Há algo de muito errado com a expressão de Victor, que tem a estranha mania de introduzir o dedo no ânus e limpar no cabelo dos outros (o porquê dessa pausa no texto será explicado mais tarde). De repente, a polícia chega no bar onde os dois estão fazendo a transação, chamado “The Void”. Oscar se esconde no banheiro, tenta se livrar das drogas, mas é atingido por um tiro, e morre. O corpo sim, mas não o espírito. Agora ele ficará vagando para proteger sua irmã.

Repetindo, Enter the Void é um soco visual. O filme parece querer viver apenas disso. Tudo aqui foi feito—ao que parece—com a intenção de provocar um ataque de labirintite no espectador. É claro, Noé estava tentando fazer a pessoa que está assistindo embarcar na mesma experiência de Oscar. Isso é uma atitude louvável. Mas para um filme de 161 minutos, torna-se letalmente cansativo.

O impacto que o filme causa é sentido logo nos primeiros segundos de projeção. Os créditos iniciais são apresentados integralmente, logo no início do filme, da forma mais sucinta possível. A música eletrônica marca uma onipresença jamais vista num filme. Aliás, muitas coisas vistas em Enter the Void jamais serão vistas novamente. Por exemplo, testemunhamos uma relação sexual de dentro da vagina de uma das personagens.

O impacto visual se estende na fotografia away do filme. O trabalho visual do diretor de fotografia de Benoît Debie. Ele e Noé apostam tudo numa estética altamente lisergida, tudo brilha, tudo parece ser feito de tubos de neon, e talvez até seja mesmo. Conforme dito em entrevistas, os dois utilizaram muita pouca luz artificial, filmando com o auxilio dos enormes painéis coloridos de Tóquio. Funcionou? Sem dúvidas. Ainda mais impressionante do que essa fotografia escandalosa de Debie, são os enquadramentos do filme. Enter the Void é contado, totalmente, a partir do ponto de vista de Oscar. Antes da sua morte, caminhamos vento tudo do seu globo ocular. Depois da sua morte, vagamos pelos cenários. Nos primeiros minutos isso funciona muito bem. Quando Oscar consome DTM, a viagem que temos (nós acompanhamos da sua mente) é simplesmente espetacular. Não é atoa que muitos críticos compararam esta obra com 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Mais precisamente, com a sequência do wormhole. Realmente parece. Só que Noé não é Kubrick. E isso é um erro grave.

O diretor se afoga num mar de pretensão, e junto com ele, o filme vai junto. Este é um filme perdido dentro de si mesmo. A estética visual adotada por Gaspar Noé se torna vazia, burocrática e aborrecida a medida que o tempo passa. Provavelmente, para um público despreparado (talvez todos nós), estes serão os 161 minutos mais longos das suas vidas. De fato, com uma hora de filme, a impressão que temos é que Noé já passou da conta. O visual regado a LSD, a edição esquisita e os planos irregulares, de cima para baixo, se tornam chatos. Enter the Void se torna, lentamente, uma espécie de lavagem cerebral malfeita. Até os atores parecem saber disso.

O filme nos apresenta uma gama de personagens esquisitos. Lembram-se quando eu mencionei a estranha mania que Victor tem? De colocar o dedo no ânus e... bem, isso é só o começo. Um dos contatos de Oscar faz uma maquete que representa “Tóquio sob LSD”. Ao apagar das luzes, a maquete se ascende. (Foi nesse momento em que comecei a pensar se tudo nesse filme é feito de néon.) Para representar toda essa galera bonita, os atores, salvo Paz de la Huerta, adotam uma postura entorpecida. Nathaniel Brown que o diga. O garoto não aparece quinze minutos em cena e morre. OK, ele reaparece depois, no seu sonho pós-morte. O problema de Brown é que sua atuação é totalmente inexpressiva. Em termos claros e não acadêmicos: Nathaniel Brown age como se tivesse fumado maconha durante 24 horas por dia.

Paz de la Huerta, ao contrário, interpreta uma Linda quase perfeita. Sua expressão passa intensidade e, ao mesmo tempo, sofrimento. A cena em que ela joga as cinzas do seu irmão pelo ralo e diz “Esta coisa não é meu irmão” é um ótimo exemplo do quão boa ela está. Ainda mais, La Huerta se entrega de corpo e alma ao papel. Não são poucas as vezes em que ela mostra coragem se despir e, ainda mais, interpretar cenas de sexo não simulado (a penetração é nítida). Vale lembrar que La Huerta fica constantemente despida na série Boardwalk Empire, produzida por Martin Scorsese.

Gaspar Noé desafiou nossa sanidade mental e nossos olhos em Enter the Void. Um filme dificílimo. Mas afogado em pretensão. Enter the Void é um erro. Bonito, mas ainda um erro.

Por Victor Bruno

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Michael Cera contra o Mundo

Michael Cera é talentoso? Sem dúvidas. Michael Cera tem futuro? Sem dúvidas. Há não ser que ele seja uma espécie de Christian Bale ou David O. Russell da vida. Ou pior, uma espécie de Quentin Tarantino da vida.

Está disponível na Internet um vídeo chamado Michael Cera Flips Out. O conteúdo do vídeo: Michael Cera aborrecido e berrando dentro do set de gravações de Rebelde com Causa (Youth in Revolt, 2009). Bom, não é o primeiro caso de "piti" de ator dentro de um soundstage, e enquanto houverem Christian Bales no mundo, não será o último. Acho que todos nós que acompanhamos o mundo do Cinema nos lembramos de Lily Tomlin e David O. Russell dizendo "Fuck you, your cunt" nos sets de Huckabees - A Vida é Uma Comédia (I Heart Huckabees, 2004). Aliás, inicialmente pensei me postar estes vídeos, mas ver Michael Cera "berrando" com todos soou mais interessante.

Para quem vai ver o vídeo, gostaria que prestassem atenção em duas coisas:
  1. Repare o esforço descomunal que Cera faz para falar como adulto, como homem. Repare em como Cera se esforça para tentar impor respeito. E ainda mais, repare em como Cera falha vergonhosamente nesta tentativa.
  2. Cera diz repetidamente durante o vídeo para quem está escutando seus desaforos que estão agindo imaturamente. Mas veja que ele precisa de alguém para vestir o roupão para iniciar a cena, e veja como ele nunca larga o sorvetinho que está comendo.
Bom, eu quero acreditar que este não é Michael Cera. Ou Scott Pilgrim.



Por Victor Bruno

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Lista - Oscar 2011

Senhoras e senhores, chegamos ao momento mais importante do ano para o cinema, o Oscar 2011. OK, não é o Oscar em si, mas a lista de indicados para a premiação mais importante do ano. Pode ser até que você ignore-o, mas, de todas as maneiras, é importante sim.

Agora, a AMPAS (Academy of Motion Picture Arts and Sciences) divulgou hoje a lista de indicados para o Oscar 2011, ou, como alguns gostam de chamar, o Academy Awards 2011. Vamos lá.

Com comentários do editor, Victor Bruno

Melhor Filme
Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
Minhas Mães e Meu Pai
O Discurso do Rei
127 Horas
A Rede Social
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma

Nenhuma surpresa aqui. Como previsto, Cisne Negro, O Vencedor, A Rede Social e A Origem, os indicados no Globo de Ouro e grandes figuras desta temporada de premiações das associaçõe de críticos (o que é o principal), foram indicados. A disputa principal certamente será entre A Rede Social, O Discurso do Rei e, por fora, Cisne Negro. Ainda mais por fora, Inverno da Alma.

Melhor Diretor
Darren Aronofsky (Cisne Negro)
David O. Russell (O Vencedor)
Tom Hooper (O Discurso do Rei)
David Fincher (A Rede Social)
Joel Coen e Ethan Coen (Bravura Indômita)

Nolan humilhantemente esnobado pela Academia! Fico muito feliz pela indicação dos Coen, mas é improvavel que eles sejam os vencedores. Minha aposta vai para Fincher (e creio que é certo).

Melhor Ator
Javier Bardem (Biutiful)
Jeff Bridges (Bravura Indômita)
Jesse Eisenberg (A Rede Social)
James Franco (127 Horas)
Colin Firth (O Discurso do Rei)

Muito esquisita esta lista de atores. James Franco correndo por fora, com certeza. Detodo modo, Firth ganha.

Melhor Ator Coadjuvante

Christian Bale (O Vencedor)
John Hawkes (Inverno da Alma)
Jeremy Renner (Atração Perigosa)
Mark Ruffalo (Minha Mães e Meu Pai)
Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)

Infelizmente Andrew Garfield não foi indicado, apesar da sua ótima atuação em A Rede Social. Acredito que a disputa fique entre Geoffrey Rush, ou Christian "Jesus" Bale. Provavelmente Jesus ganhe.

Melhor Atriz
Annette Bening (Minhas Mães e Meu Pai)
Nicole Kidman (Reencontrando a Felicidade)
Jennifer Lawrence (Inverno da Alma)
Natalie Portman (Cisne Negro)
Michelle Williams (Namorados para Sempre)

Portman! Portman! Portman! Eu acho que é certo. Se a Academia inventar uma surpresa, provavelmente Annette Bening. Mas é Portman.

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams (O Vencedor)
Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)
Melissa Leo (O Vencedor)
Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)
Jacki Weaver (Reino Animal)

Fico muito feliz com a indicação de Hailee Steinfeld. Como Pablo Villaça já havia apontado em suas previsões para este Oscar, a campanha insistente da Paramount com Steinfeld como coadjuvante, apesar de obviamente ser protagonista. De toda forma, ela não ganhará. Aposto em Bonham Carter, ou em Amy Adams, na disputa.

(Sinceramente, Steinfeld vem habitando meus sonhos há um bom tempo. Só espero que Justin Bieber não marque presença na festa, como fez no Globo de Ouro.)

Melhor Roteiro Adaptado
127 Horas (Danny Boyle e Simon Beaufoy)
A Rede Social (Aaron Sorkin)
Toy Story 3 (Michael Arndt, John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich)
Bravura Indômita (Joel Coen e Ethan Coen)
Inverno da Alma (Debra Granik e Anne Rosellini)

Muito esquisita a falta de Cisne Negro aqui. Extremamente esquisito. Mas tendo a presença de Sorkin, óbvio vencedor, nada mais importa.

Melhor Roteiro Original
Another Year (Mike Leigh)
O Vencedor (Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson)
A Origem (Christopher Nolan)
Minhas Mães e Meu Pai (Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg)
O Discurso do Rei (David Seidler)

Sinceramente, apostaria em A Origem, pela inventividade da história. O Discurso do Rei e O Vencedor são fortes candidatos.

Melhor Animação Longa-Metragem
Como Treinar O Seu Dragão
O Mágico
Toy Story 3

Toy Story é aposta certa. Apesar de poder haver surpresas, mas dificilmente o vencedor será outro.

Melhor Animação Curta-Metragem
Day & Night
The Gruffalo
Let's Pollute
The Lost Thing
Madagascar - A Journey Diary

Day & Night é um curta muito interessante, forte candidato.

Melhor Filme Estrangeiro
Biutiful (México)
Dogtooth (Grécia)
In a Better World (Dinamarca)
Incendies (Canadá)
Outside the Law (Argélia)

Aposto todas as minhas fichas em Biutiful, apesar de poder haver uma briga acirrada com In a Better World, vencedor do Globo de Ouro (não que isso seja grande coisa).

Melhor Documentário Longa-Metragem
Exit through the Gift Shop
Gasland
Inside Job
Restrepo
Waste Land

É realmente surpreendente a ausência de Waiting for "Superman". Eu aposto em Lixo Extraodinário (Waste Land), ou em Inside Job.

Melhor Documentário Curta-Metragem
Killing in the Name
Poster Girl
Strangers No More
Sun Come Up
The Warriors of Qiugang

Melhor Curta-Metragem
The Confession
The Crush
God of Love
Na Wewe
Wish 143

Melhor Direção de Arte
Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

Aqui a disputa fica acirrada entre o design clássico de O Discurso do Rei, o oeste poeirento de Bravura Indômita e o LSD de Alice. Realmente difícil de especular nesta categoria.

Melhor Fotografia
Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Bravura Indômita

Uma das minhas categorias favoritas. Roger Deakins pode levar, pelo seu excelente trabalho em True Grit. Temos também o trabalho excepcional de Jeff Cronenweth em A Rede Social. Matthew Libatique fez um grande trabalho em Cisne Negro. É uma grande disputa este ano.

Melhor Figurino
Alice no País das Maravilhas
I Am Love
O Discurso do Rei
The Tempest
Bravura Indômita

Bom, A Tempestade, da grande Julie Taymor, é um filme bem estilizado, acredito que está dentro da disputa, apesar de termos O Discurso do Rei e Bravura Indômita na disputa.

Melhor Montagem
Cisne Negro
O Vencedor
O Discurso do Rei
127 Horas
A Rede Social

Aqui eu apostaria em A Rede Social, filme de precisão milimétrica, graças ao trabalho de Kirk Baxter e Angus Wall. Eles consegem fazer cenas de datilografia serem emocionantes. (Quem disse isso foi Aaron Sorkin, mas não se referindo aos editores, mas sim para David Fincher.)

Melhor Trilha Sonora Original
Como Treinar o Seu Dragão
A Origem
O Discurso do Rei
127 Horas
A Rede Social

O trabalho de Trent Ranzor e Atticus Ross em A Rede Social é soberbo! Acredito que vençam sim. O Discurso do Rei não chega nem perto de Ross e Ranzor.

Melhor Canção Original
Coming Home (Country Strong)
I See the Light (Enrolados)
If I Rise (127 Horas)
We Belong Together (Toy Story 3)

Melhor Edição de Som
A Origem
Toy Story 3
Tron - O Legado
Bravura Indômita
Incontrolável

Melhor Mixagem de Som
A Origem
O Discurso do Rei
Salt
A Rede Social
Bravura Indômita

Melhores Efeitos Visuais
Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
Além da Vida
A Origem
Homem de Ferro 2

A Origem. Alguma objeção? Sim. Temos Alice na disputa, e Harry Potter em escala menor.

Melhor Maquiagem
A Minha Versão para o Amor
Caminho da Liberdade
O Lobisomen

Interessante a falta de Discurso do Rei aqui. Esquisito, até.

Da Redação

domingo, 23 de janeiro de 2011

Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família

Little Fockers, 2010/ Dirigido por Paul Weitz
Com Robert De Niro, Ben Stiller, Owen Wilson, Teri Polo, Blythe Danner, Jessica Alba, Laura Dern, Dustin Hoffman, Barbra Streisand e Harvey Keitel.


0/5


Indignação. É isso que deve sentir todo cinéfilo com carinho e respeito pelo cinema após assistir a esta catástrofe intitulada Little Fockers, que por essas bandas recebeu o título ainda mais hediondo "Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família". Esta atrocidade em forma de filme é continuação da série começada com "Entrando Numa Fria", já do longínquo ano 2000, que era até uma comédia decente; depois veio o "Entrando Numa Fria Maior Ainda", de 2004, um filme fraco, mas com piadas divertidas. Mas agora o nível caiu de vez: estamos diante de uma aberração cinematográfica da pior espécie.

A década passada foi ,de forma geral, boa em termos de comédia. Tivemos o clã Apatow, com pérolas como "O Virgem de 40 Anos" e "Ligeiramente Grávidos"; Greg Mottola e os hilários "Superbad" e "Férias Frustadas de Verão"; além dos filmes repletos de humor negro de Guy Ritchie, e comédias dramáticas competentes como "Sideways" e "Pequena Miss Sunshine". A década não poderia terminar de forma pior do que com este novo "Entrando Numa Fria" (fazendo uma piada ao nível do filme, nós realmente entramos numa fria ao assistirmos esta ruindade).

Desta vez, o casal Greg (Ben Stiller) e Pam Focker (Teri Polo) vive tranquilamente com seus filhos gêmeos Sam e Henry. Porém, seu sogro Jack (Robert De Niro), com problemas cardíacos, começa a se preocupar com a sucessão da família, e começa a duvidar da capacidade de Greg para liderá-la. Durante o aniversário dos gêmeos, os desentimentos entre os dois sumentam ainda mais com o retorno do ex-namorado de Pam, Kevin (Owen Wilson), a quem Jack sempre teve na maior auto-estima. Greg, então, se vê forçado a provar que é digno de confiança do sogro.
Diante de tal sinopse, já não se dá pra esperar grandes coisas. Mas, diante do elenco pressente no filme, sempre temos a esperança de que podemos assistir a uma obra fútil, mas pelo menos divertida. Não é o caso aqui. As piadas são deploráveis. Praticamente, nenhuma funciona, sendo todas completamente "batidas" e já presentes em inúmeros outros filmes. Temos de novo situaões com o velho remédio pra disfunção erétil, a menina esperta e o menino bobão, suspeitas de traição, supostas confusões na mesa de jantar e dezenas de outras "graçinhas", a maioria de conteúdo sexual. Enfim, um lixo de roteiro.

O diretor Paul Weitz ainda se mostra completamente incompetente em criar qualquer atmosfera de humor. Ou todo mundo já sabe qual a próxima piadinha sem graça que vai acontecer, ou Weitz consegue retirar qualquer humor que certas cenas poderiam ter pela sua incapacidade. Para exemplicar, basta analisar as tentativas de homenagem a dois clássicos, " O Poderoso Chefão" e "Tubarão". Na primeira seqüência, há um diálogo deplorável entre De Niro e Stiller, ao som de uma trilha que lembra a de Godfather, que aqui vira Godfocker (!). Mas o pior de tudo é a cena em referência ao clássico de Spielberg: toda a seqüência se passa em uma piscina de bolinhas, em que Greg e as crianças são as vítimas e Jack (o grande De Niro) é o "Tubarão"! Isso é capaz de dar ânsia de vômitos em qualquer um que aprecie minimamente a Sétima Arte.

Mas o mais deprimente é um dos maiores desperdícios de elenco já vistos na telona de um cinema. Ben Stiller e Owen Wilson são medíocres, mas por vezes acertam (o primeiro o competente "Trovão Tropical", e o segundo participou de bons filmes do diretor Wes Anderson, como "A Vida Marinha com Steve Zissou"). Neste novo Entrando Numa Fria, ambos retornam a sua mediocridade habitual, incapazes de transmitir autenticidade em uma única fala. A linda Jessica Alba está desperdiçada em um papel inútil (mais uma piadinha infame, o nome de sua personagem é "Andi Garcia"). Um Framboesa de Ouro para qualquer um deste trio (ou os três) não seria surpresa. Quanto a Teri Polo e Blythe Danner, ambas continuam tão apagadas quanto nos filmes anteriores, e a elas se sema a presença das duas crianças, que não acrescentam em absolutamente nada a trama (e, inexplicavelmente, o título original é Little Fockers).
O pior é ver o talentosíssimo Robert De Niro, simplesmente um dos maiores atores de todos os tempos, praticamente fazendo "escada" o tempo todo para o Stiller, e protagonizando cenas absolutamente constrangedoras (vide a de "Tubarão", descrita acima). Isso sem falar em Dustin Hoffman no pior papel de sua carreira, protagonizando cenas ridículas de dança flamenca. Barbra Streisand volta com piadas inúteis e sem graça sobre sexo, e Harvey Keitel.....bem, praticamente nem se percebe a presença de Keitel no filme, tamanha sua insignificância. A única que revela um timing interessante pra comédia é Laura Dern, como a diretora da escola para ricos com técnicas de ensino revolucionárias, mas a atriz aparece pouco. Uma pena.

Acrescentar mais algum adjetivo negativo para "Entrando Numa Fria Maior Ainda Com as Crianças" seria uma tentativa inútil, já que praticamente ele é tudo de ruim em um filme só. Fica aqui um aviso deste que vos escreve: evite este filme tanto quanto possível, para não desperdiçar dinheiro em algo que causa puramente ódio a todos que tenham o mínimo de respeito pelo cinema

Por Douglas Braga

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